Waldir Pires: muitas vidas em uma vida – Maurílio Lopes Fontes


Há quase 15 anos, em conversa com Waldir Pires, eu lhe disse uma frase que sempre volta à minha memória: “Dr. Waldir, o senhor viveu muitas vidas em uma vida”.

Naquele momento, talvez não tivesse a exata dimensão histórica do que acabara de dizer. Hoje, olhando retrospectivamente sua trajetória, percebo que a frase continha mais do que uma manifestação de admiração pessoal. Há nela uma síntese da presença de Waldir Pires na vida política da Bahia e do Brasil.

Poucos homens públicos atravessaram tantos acontecimentos, mudanças de regime, rupturas institucionais, derrotas, vitórias e recomeços. Menos ainda participaram deles de maneira tão direta.

Waldir não foi apenas testemunha da história. Em muitos momentos, foi um dos seus personagens centrais.

Quando iniciou sua trajetória parlamentar na Bahia, na segunda metade da década de 1950, o estado ainda mantinha estruturas políticas e administrativas fortemente marcadas pelo personalismo.

O governo de Antônio Balbino, iniciado em 7 de abril de 1955, tentou introduzir uma nova racionalidade na administração estadual, com o planejamento como instrumento para modernizar a máquina pública e promover o desenvolvimento.

A criação da Comissão de Planejamento Econômico (CPE) foi um dos símbolos mais importantes daquele movimento.

Waldir Pires, então deputado estadual do PTB, esteve entre os defensores da iniciativa. Na Assembleia Legislativa, participou do enfrentamento político em torno da CPE e da concepção de Estado que ela representava.

Não se discutia apenas a criação de mais um órgão público. Estava em disputa uma forma de governar: substituir progressivamente improvisação e personalismo por planejamento, coordenação, conhecimento técnico e avaliação.

O jovem parlamentar que participava daquele debate em 1955 ainda viveria praticamente todas as grandes turbulências políticas brasileiras das décadas seguintes.

Eleito deputado federal em 1958, estava em Brasília quando Jânio Quadros renunciou à Presidência da República, em agosto de 1961.

Viu o país mergulhar numa crise institucional provocada pela resistência de setores militares à posse constitucional do vice-presidente João Goulart.

Participou da solução parlamentarista encontrada para assegurar a posse de Jango, com poderes presidenciais reduzidos.

Poucos anos depois, a democracia seria interrompida. E a vida política de Waldir também.

O golpe de 1964 não representou para ele apenas uma mudança de governo ou uma derrota circunstancial. A ditadura interrompeu uma trajetória política que estava em plena ascensão.

Vieram a cassação dos direitos políticos, o afastamento compulsório da vida eleitoral e o exílio.

Entre o encerramento de seu primeiro mandato de deputado federal no início de 1963 e a posse como governador da Bahia transcorreram 24 anos.

Esse intervalo precisa ser compreendido pelo que efetivamente representou para Waldir Pires: uma ruptura autoritária que retirou dele, como de tantos brasileiros, o direito de participar plenamente da vida política de seu país.

Por isso, a trajetória de Waldir não pode ser contada apenas pela sequência dos cargos que exerceu. Entre uma eleição e outra estão a ditadura, a cassação, o exílio, a resistência democrática, a anistia e a lenta reconstrução das instituições brasileiras.

Quando finalmente retornou ao exercício de um mandato conquistado nas urnas, em 1987, não voltava simplesmente um político. Voltava um homem que havia conhecido outra Bahia, outro Brasil e outro mundo.

Há uma dimensão histórica extraordinária nessa passagem. O jovem deputado estadual que, nos anos 1950, defendera na Assembleia Legislativa a modernização da administração de Antônio Balbino chegava, três décadas depois, ao comando do Estado.

Era outra vida dentro da mesma vida. Mas a história ainda lhe reservaria novos capítulos.

Waldir voltaria à Câmara dos Deputados em 1991. Estaria no Parlamento durante o impeachment de Fernando Collor e a posse de Itamar Franco. Acompanharia as profundas transformações políticas e econômicas dos anos 1990 e retornaria mais uma vez à Câmara em 1999, quase 45 anos após a eleição para deputado estadual.

No início do século XXI, aquele homem que havia participado das disputas políticas dos anos 1950 estaria na Câmara dos Deputados em outro momento histórico: a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, em 2002.

É difícil encontrar outra trajetória que permita visualizar, por meio de uma única biografia, tantas camadas da história política brasileira.

A Bahia oligárquica e personalista dos anos 1950, as primeiras tentativas de modernização administrativa, o desenvolvimentismo, a crise de 1961, o golpe de 1964, a ditadura, o exílio, a redemocratização, a Nova República, o impeachment de um presidente, as mudanças políticas dos anos 1990, a chegada de Lula ao poder.

Waldir atravessou esses tempos. Em diferentes circunstâncias, tomou posição com a firmeza de um político cujo farol a guiar-lhe sempre foi a democracia.

Essa talvez seja uma das características que conferem unidade a uma trajetória aparentemente composta por tantas vidas diferentes.

Mudaram os tempos, os partidos, os aliados, os adversários e as circunstâncias históricas. Houve vitórias e derrotas, poder, afastamento do poder, mandatos e cassação.

Mas permaneceu nele uma convicção essencial: a democracia não é uma conquista definitiva. Precisa ser permanentemente defendida.

É também por isso que recuperar sua trajetória não significa apenas homenagear um importante personagem do passado, mas recuperar parte da memória política da Bahia e do Brasil.

Existe uma diferença entre lembrar nomes e preservar memória.

Nomes podem permanecer registrados em ruas, edifícios, placas, arquivos e livros. A memória política exige algo mais: compreender o que aqueles personagens fizeram, quais conflitos enfrentaram, quais ideias defenderam, em que circunstâncias decidiram e o que suas escolhas significaram para o tempo em que viveram.

Waldir Pires pertence a essa segunda dimensão.

Quando lhe disse, há quase 15 anos, que havia vivido muitas vidas em uma vida, eu pensava certamente nos inúmeros acontecimentos de que aquele homem singular participara como um dos personagens centrais.

Hoje, acrescento algo àquela frase: Dr. Waldir não apenas viveu muitas vidas em uma vida. Viveu diferentes tempos do Brasil sem jamais renunciar à defesa da democracia, com sacrifícios pessoais e familiares, mas convicto de seu papel na história política da Bahia e do Brasil.

Uma história que precisará de muitas vidas para ser contada e uma trajetória que merece ser reconhecida entre as mais importantes da política brasileira do século XX.

Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL)

Foto: Salvador (apartamento de Waldir Pires, janeiro de 2012)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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