A geografia dos votos de Waldir Pires na eleição de 1958 para a Câmara dos Deputados – Maurílio Lopes Fontes


Em 1958, a Bahia era um estado muito diferente daquele que conhecemos hoje. Tinha 194 municípios.

Foi nesse território, marcado por enormes distâncias, dificuldades de comunicação e estruturas políticas locais fortemente enraizadas, que Waldir Pires, filiado ao PSD, que formava com o PRP a Aliança Democrática Popular, disputou pela primeira vez uma cadeira na Câmara dos Deputados.

Waldir foi eleito com 20.299 votos, a 9ª maior votação entre os 27 deputados federais eleitos pela Bahia naquele pleito. Entre os dez deputados eleitos pelo PSD, partido pelo qual concorreu com o apoio da Aliança Democrática Popular, foi o 5º mais votado.

Os números daquela eleição revelam, entretanto, algo que vai além do resultado eleitoral. O levantamento da votação município por município que serve de base a esta análise identifica 20.091 votos de Waldir distribuídos por 153 municípios baianos.

Isso significa que seu nome apareceu nas urnas de 78,87% dos municípios existentes na Bahia naquele momento.

Há uma diferença de 208 votos entre os 20.091 discriminados no levantamento municipal e os 20.299 registrados no resultado geral da eleição.

Por essa razão, neste artigo, os 20.299 votos são considerados para situar Waldir no resultado eleitoral da Bahia, enquanto os 20.091 votos discriminados por município constituem a base para a análise da geografia de sua votação.

A dimensão territorial do voto talvez seja ainda mais significativa do que seu quantitativo absoluto. Não se tratava de uma votação concentrada apenas em Salvador ou em poucos centros urbanos. Waldir aparecia eleitoralmente em diferentes regiões do estado, algumas delas muito distantes entre si.

Salvador lhe deu 2.316 votos, mas Amargosa praticamente se equiparou à capital, com 2.181. Miguel Calmon registrou 1.226 votos, Piritiba, 1.023, Castro Alves, 968, Guanambi, 836, Mutuípe, 806, Ilhéus, 743, e Jacaraci, 727.

Há um aspecto particularmente interessante nesses números. A votação não desenha apenas uma candidatura. Ajuda a desenhar uma geografia política.

Waldir recebeu votos em municípios de diferentes regiões baianas. Mesmo onde sua presença eleitoral era quase simbólica – em vários municípios recebeu apenas um, dois ou três votos -, seu nome conseguiu atravessar fronteiras regionais e alcançar parcelas muito diferentes do eleitorado.

É preciso considerar, sobretudo, as condições materiais de uma campanha realizada em 1958. Não havia televisão como instrumento de campanha de massa disseminado pelo estado, muito menos internet, redes sociais ou comunicação instantânea. Estradas, transportes e meios de comunicação impunham limites que hoje são difíceis de dimensionar.

Nesse contexto, estar eleitoralmente presente em quase quatro de cada cinco municípios baianos constitui um indicador relevante de capilaridade política.

Os 20.299 votos da eleição contam, portanto, apenas parte da história. O dado politicamente mais revelador talvez seja outro: a presença de Waldir em 153 municípios, conforme o levantamento municipal analisado.

É a diferença entre medir votos e compreender sua espacialidade.

A distribuição dos votos permite identificar com certa precisão os territórios nos quais a candidatura apresentava maior força.

Os 20 municípios em que Waldir Pires obteve suas maiores votações foram:
1. Salvador – 2.316 votos
2. Amargosa – 2.181
3. Miguel Calmon – 1.226
4. Piritiba – 1.023
5. Castro Alves – 968
6. Guanambi – 836
7. Mutuípe – 806
8. Ilhéus – 743
9. Jacaraci – 727
10. Ubaíra – 525
11. Taperoá – 503
12. Barra da Estiva – 462
13. Feira de Santana – 403
14. Brejões – 368
15. Maracás – 342
16. Remanso – 324
17. Andaraí – 321
18. Caravelas – 272
19. Ipirá – 258
20. São Miguel das Matas – 238.

Somados, esses 20 municípios deram a Waldir 14.842 votos. Eles correspondem a 73,87% dos 20.091 votos cuja distribuição municipal está identificada no levantamento analisado.

Mas o outro lado dessa conta é igualmente importante.

Nos outros 133 municípios relacionados, Waldir somou 5.249 sufrágios, equivalentes a 26,13% dos 20.091 votos discriminados município por município.

Essa divisão ajuda a compreender melhor a natureza de sua primeira candidatura à Câmara dos Deputados.

Quase três quartos dos votos identificados no levantamento estavam concentrados nos 20 municípios de melhor desempenho, mas mais de um quarto estava distribuído por outros 133 municípios.

Os números revelam, portanto, duas características que não se contradizem. Ao contrário, complementam-se: concentração eleitoral e capilaridade territorial.

Waldir possuía territórios de forte densidade eleitoral, mas não dependia exclusivamente deles. Os 73,87% registrados nos 20 principais municípios demonstram onde estavam suas maiores bases.

Os 26,13% espalhados pelos outros 133 revelam até onde sua candidatura conseguia chegar.

Acajutiba e Amargosa: quando a geografia eleitoral encontra a biografia

Entre todos esses índices e números, dois merecem atenção especial.

Waldir Pires nasceu em Acajutiba, mas foi morar em Amargosa quando ainda não havia completado três anos. Esse dado biográfico transforma a leitura da votação obtida nas duas cidades.

Em Acajutiba, sua terra natal, Waldir recebeu apenas 4 votos. Em Amargosa, obteve apoio de 2.181 eleitores. A diferença foi de 2.177 votos.

Mas não é apenas o contraste entre as duas cidades que impressiona. Amargosa registrou a segunda maior votação de Waldir Pires entre os 20 municípios relacionados, ficando atrás somente de Salvador.

Na capital, foram 2.316 votos. Em Amargosa, 2.181. Apenas 135 votos separaram as duas cidades.

A votação de Waldir em Amargosa correspondeu a aproximadamente 94% daquela obtida em Salvador. Mais do que isso: Amargosa respondeu sozinha por cerca de 10,9% dos 20.091 votos cuja distribuição municipal está identificada. Salvador representou aproximadamente 11,5%.

Juntas, Salvador e Amargosa responderam por cerca de 22,4% dos votos discriminados no levantamento municipal.

Os números ajudam a distinguir duas coisas que nem sempre são iguais: o lugar onde se nasce e o lugar ao qual se pertence.

Acajutiba foi o lugar do nascimento. Amargosa foi o lugar para onde Waldir se mudou nos primeiros anos de vida, onde se tornou adolescente e estabeleceu parte importante de suas referências pessoais.

Quando as urnas foram abertas em 1958, essa diferença biográfica encontrou uma impressionante expressão eleitoral.

Não parece suficiente interpretar os 2.181 votos de Amargosa apenas como um bom desempenho eleitoral. Quando confrontado com a trajetória de Waldir, o número ganha outro significado.

A geografia eleitoral encontra a biografia. Amargosa não aparece apenas como um reduto eleitoral. Aparece como um território de pertencimento.

Concentração e capilaridade

É justamente nesse ponto que os 153 municípios ganham maior significado político. Um candidato pode obter muitos votos concentrando sua força em poucos lugares. Também pode aparecer em muitos municípios sem possuir densidade eleitoral significativa em nenhum deles.

A votação de Waldir Pires apresenta uma combinação diferente.

Considerando os 20.091 votos discriminados município por município, nos 20 municípios em que teve melhor desempenho concentrou 73,87%. Nos outros 133, obteve 26,13%.

E, no conjunto, o levantamento registra sua presença eleitoral em 78,87% dos municípios existentes na Bahia.

São três números que, observados conjuntamente, ajudam a compreender a candidatura:

73,87% – concentração, entre os votos discriminados, nos 20 maiores resultados. 26,13% – votação identificada nos outros 133 municípios. 78,87% – proporção dos municípios baianos nos quais o levantamento registra pelo menos um voto para Waldir.

Até mesmo os resultados aparentemente insignificantes – um voto aqui, dois votos ali, três em outro município – passam a adquirir importância quando observados dessa perspectiva. Isoladamente, representam quase nada.

Geograficamente, ajudam a mostrar até onde o nome do candidato conseguiu chegar.

Uma eleição pode revelar muito mais do que vencedores e derrotados. Quando observados décadas depois, os mapas eleitorais ajudam a reconstruir lideranças, redes políticas, áreas de influência e processos de formação de capital político.

A votação de Waldir Pires em 1958 oferece justamente essa possibilidade. Mais do que registrar quantos votos recebeu, permite observar como seu nome já se distribuía pelo imenso território baiano.

É importante não projetar retrospectivamente sobre aquele candidato toda a dimensão política que ele adquiriria nas décadas seguintes.

O resultado de 1958 não deve ser interpretado como uma antecipação inevitável do futuro. Mas os números registram algo que ajuda a compreendê-lo.

Waldir Pires foi eleito deputado federal na 9ª posição entre os 27 deputados federais eleitos pela Bahia e com a 5ª maior votação entre os dez eleitos pelo PSD.

Ao mesmo tempo, a documentação municipal analisada permite localizar 20.091 desses votos em 153 municípios. Desse conjunto, quase três quartos estavam nos 20 municípios de maior votação e mais de um quarto se espalhava por outros 133.

Seu nome, portanto, aparecia nas urnas de quase quatro em cada cinco municípios existentes na Bahia.

Décadas depois, Waldir ocuparia algumas das posições mais importantes da vida pública baiana e brasileira.

Mas o mapa eleitoral de 1958 permite enxergar algo anterior a tudo isso: a formação de uma liderança e a maneira como ela começava a ocupar politicamente o território baiano.

Antes de se tornar uma das grandes referências da política baiana, Waldir Pires já começava a construir, voto a voto e município a município, uma presença que atravessava a Bahia.

Quatro anos depois, em 1962, foi candidato ao governo do estado, o que demonstrou o crescimento de sua liderança e capacidade de construir alianças e consensos em torno de projetos políticos.

E talvez nenhum contraste expresse melhor a relação entre biografia, território e política do que aquele registrado pelas urnas de 1958: Acajutiba, sua cidade natal, lhe deu 4 votos, Amargosa votou em massa em seu filho adotivo e lhe deu 2.181 votos.

Entre os 4 votos da primeira e os 2.181 da segunda existe muito mais do que uma diferença matemática.

Existe uma história de pertencimento. E existe também um pedaço da história política da Bahia.

VOTAÇÃO TOTAL DE WALDIR PIRES EM 1958
Acajutiba – 4
Alagoinhas – 30
Alcobaça – 20
Amargosa – 2.181
Andaraí – 321
Angical – 72
Antas – 1
Araci – 1
Aratuípe -18
Baixa Grande – 112
Barra – 46
Barra da Estiva – 462
Barreiras – 20
Belmonte – 1
Boa Nova – 5
Bom Jesus da Lapa – 1
Brejões – 368
Brotas de Macaúbas – 8
Brumado – 19
Cachoeira – 8
Caculé – 126
Caetité -3
Cairu – 2
Camaçari – 83
Camamu – 35
Canavieiras – 49
Candeias – 13
Caravelas – 272
Carinhanha – 90
Casa Nova – 7
Castro Alves – 968
Catu – 25
Central – 3
Chorrochó – 75
Cipó – 6
Coaraci – 82
Conceição da Feira – 6
Conceição do Almeida – 40
Conde – 1
Condeúba – 153
Coração de Maria -3
Cotegipe – 2
Cruz das Almas -29
Curaçá – 2
Entre Rios – 62
Esplanada – 2
Feira de Santana – 403
Gandu – 3
Glória – 53
Guanambi – 836
Iaçu – 31
Ibicaraí – 132
Ibicuí – 8
Ibipetuba – 17
Ibotirama – 7
Iguaí – 1
Ilhéus -743
Inhambupe -72
Ipiaú – 12
Irará – 10
Ipirá – 258
Irecê – 5
Itaberaba – 5
Itabuna – 82
Itacaré – 14
Itajuípe – 47
Itanhém – 1
Itaparica – 6
Itabepi – 3
Itapetinga – 18
Itapicuru -3
Itaquara -110
Itiruçu – 10
Itiúba – 203
Itororó – 27
Ituaçu – 5
Ituberá – 1
Jacaraci – 727
Jacobina – 181
Jaguaquara -22
Jaguarari -141
Jaguaripe – 38
Jandaíra – 2
Jequié – 130
Jiquiriçá – 137
Juazeiro – 141
Laje – 50
Macajuba – 2
Macarani – 14
Mairi – 8
Maracás – 342
Maragogipe – 55
Maraú – 16
Mata de São João – 43
Medeiros Neto – 11
Miguel Calmon – 1.226
Monte Santo – 1
Morro do Chapéu – 122
Mucugê – 1
Mucuri – 131
Mundo Novo – 7
Muritiba – 18
Mutuípe – 806
Nazaré – 141
Nilo Peçanha – 8
Oliveira dos Brejinhos – 18
Palmas de Monte Alto – 28
Palmeiras – 3
Paramirim – 1
Paratinga – 13
Paulo Afonso – 1
Piatã – 4
Piritiba – 1.023
Poções – 16
Pojuca – 9
Prado – 57
Remanso – 324
Riachão do Jacuípe – 16
Riacho de Santana – 121
Rio de Contas – 4
Rio Real – 23
Rui Barbosa – 36
Salvador – 2.316
Santa Inês – 51
Santa Luz – 3
Santa Terezinha – 189
Santo Amaro – 46
Santo Antônio de Jesus – 151
Santo Estevão – 9
São Félix – 1
São Felipe – 32
São Francisco do Conde – 16
São Gonçalo dos Campos – 16
São Miguel das Matas – 238
São Sebastião do Passé – 181
Sapeaçu – 36
Seabra – 4
Senhor do Bonfim – 26
Sento Sé – 2
Serra Preta – 24
Serrinha – 58
Tanquinho – 223
Taperoá – 503
Tucano – 8
Uauá – 10
Ubaíra – 525
Ubaitaba – 62
Una – 2
Urandi – 3
Uruçuca – 19
Utinga – 69
Valença – 51
Vitória da Conquista – 36

Foto de Waldir: Arquivo Pessoal Maurílio Lopes Fontes (Salvador, janeiro de 2012)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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