Roberto Santos e Waldir Pires: dois centenários, duas memórias – Maurílio Lopes Fontes

A memória é uma forma de poder.
Uma sociedade não se relaciona com o seu passado apenas por meio dos acontecimentos que registra. Ela escolhe personagens, destaca trajetórias, organiza homenagens, ergue monumentos, promove seminários e estabelece aquilo que deve permanecer na memória coletiva.
Em 2026, essa reflexão ganha um significado especial na Bahia.
Roberto Santos (15 de setembro de 1926/9 de fevereiro de 2021) e Waldir Pires (21 de outubro de 1926/22 de junho de 2018) foram contemporâneos, chegaram ao governo da Bahia, ocuparam ministérios e tiveram participação relevante na vida pública.
Cem anos depois, entretanto, suas trajetórias parecem receber tratamentos bastante distintos.
Roberto Santos começa a ter seu centenário celebrado por importantes instituições baianas. É justo que seja assim.
Médico, professor, pesquisador, reitor da Universidade Federal da Bahia, governador e ministro da Saúde, construiu uma biografia respeitável e deixou contribuições importantes, especialmente nos campos universitário, científico e administrativo.
Reconhecer isso, porém, não impede uma pergunta: e Waldir Pires?
A questão me interessa particularmente porque há quase duas décadas estudo sua trajetória política, principalmente o único mandato na Assembleia Legislativa e os três na Câmara dos Deputados.
E quanto mais avanço nesse percurso, mais me convenço de que estamos diante de uma das biografias políticas mais significativas produzidas da Bahia e do Brasil no século XX e das décadas iniciais do século XXI.
Não registro esta avaliação para estabelecer uma competição entre os dois políticos baianos. Mas as diferenças entre as trajetórias ajudam a compreender não apenas os personagens, mas também a Bahia e o Brasil que cada um atravessou.
Roberto Santos nasceu em uma família profundamente ligada à elite intelectual baiana. Era filho de Edgard Santos, personagem fundamental na construção da Universidade Federal da Bahia e durante muitos anos seu reitor.
Cresceu, portanto, próximo a um ambiente de formação, prestígio e relações institucionais que evidentemente não diminuem seus méritos pessoais, mas fazem parte de sua biografia.
Waldir Pires percorreu outro caminho. Nascido em Acajutiba e criado em Amargosa, precisou enfrentar desde muito jovem as dificuldades impostas a quem não nasceu próximo aos círculos tradicionais de poder.
Estudou, trabalhou, tornou-se advogado, professor e fez da política o espaço de atuação na vida pública. Mas é sobretudo a relação de Waldir com a democracia que torna sua trajetória singular.
Em 1962, disputou a eleição para o governo da Bahia e perdeu para Lomanto Júnior. Dois anos depois, sua trajetória foi impactada pelo golpe de 1964. Vieram a cassação, o afastamento da política brasileira e o exílio, primeiro no Uruguai e depois na França.
Waldir não observou de longe uma das maiores rupturas institucionais da história brasileira.
Décadas depois, retornaria ao mesmo território político do qual havia sido afastado. E há um extraordinário marco histórica nisso: derrotado nas urnas em 1962 e cassado logo depois do golpe, voltou a disputar o governo da Bahia em 1986 e venceu Josaphat Marinho.
Entre uma eleição e outra haviam transcorrido 24 anos. Nesse intervalo está parte considerável da recente história política brasileira.
Talvez seja essa a dimensão mais fascinante de Waldir Pires.
Sua biografia permite percorrer diferentes momentos históricos do país: a experiência democrática anterior ao golpe, mesmo com muitas turbulências, a ruptura de 1964, o exílio, o retorno ao Brasil ainda na ditadura, a resistência ao autoritarismo, a participação na eleição de 1974, mesmo como os direitos políticos cassados, a reorganização partidária, o retorno à Bahia, a redemocratização e a retomada das eleições
Sua vida pública não terminou no governo da Bahia. Waldir continuou participando da política nacional, foi candidato à vice-presidência em 1989, voltou à Câmara dos Deputados, integrou governos federais e comandou ministérios. Já havia ultrapassado os 80 anos quando ainda ocupava posições relevantes na República.
E protagonizou algo que sempre me pareceu particularmente revelador sobre sua relação com a política.
Depois de ter sido, deputado estadual (1955-1959) deputado federal (1959-1963/1991-1995/1999-2003), consultor geral da República no governo de João Goulart, governador da Bahia (1987-1989), e ministro de Estado no governo Sarney e nos dois governos do presidente Lula (2003-2010), candidatou-se a vereador de Salvador (2012).
Para alguns, poderia parecer um movimento descendente na hierarquia dos cargos públicos. Para quem compreende a política como atividade e não apenas como posição, talvez revele exatamente o contrário.
Waldir parecia não precisar do tamanho do cargo para atribuir sentido à vida pública.
Há ainda outra diferença importante entre as duas trajetórias.
Roberto Santos governou a Bahia entre 1975 e 1979. Chegou ao cargo pelas regras de escolha indireta vigentes durante a ditadura militar.
Waldir Pires, ao contrário, experimentou os dois lados da ruptura democrática: foi afastado da vida política pelo regime e, mais tarde, tornou-se governador pelo voto popular.
Não se trata de transformar essa diferença em julgamento moral sobre Roberto Santos.
Os homens atuam dentro das circunstâncias históricas que encontram, fazem escolhas e também são condicionados por seu tempo.
Mas as circunstâncias importam.
E, quando se examina a dimensão política das duas biografias, considero difícil não reconhecer em Waldir Pires uma trajetória de maior amplitude nacional e de extraordinária densidade histórica.
Isso torna ainda mais intrigante o contraste entre os dois.
Roberto Santos pertenceu a instituições que preservam fortemente a memória de seus integrantes.
A universidade, a medicina, as academias e o mundo científico possuem mecanismos relativamente permanentes de reconhecimento.
Produzem cerimônias, publicações, registros e tradições.
A política possui uma memória mais instável.
Partidos desaparecem ou mudam de identidade. Grupos políticos se desfazem. Lideranças emergem e desaparecem. Alianças de ontem tornam-se inconvenientes amanhã.
Cada geração tende a reorganizar o passado segundo as necessidades (e opções) do presente. Talvez esteja aí parte da explicação. Mas há uma questão ainda mais profunda. Toda homenagem é também uma escolha política sobre o passado.
Quando instituições se reúnem para celebrar determinado personagem, não estão apenas reconhecendo aquilo que ele realizou. Estão dizendo às gerações seguintes que aquela trajetória merece ser conhecida, estudada e preservada.
O contrário também produz significado. O silêncio produz sentidos.
Por isso, a ausência, até agora, de uma grande mobilização em torno do centenário de Waldir Pires não deve ser observada apenas como esquecimento.
Estamos falando de um personagem que atravessou mais de meio século da política brasileira, viveu democracia e ditadura, eleição e cassação, governo e oposição, exílio e retorno.
Não precisamos diminuir Roberto Santos para reconhecer isso. Seu centenário merece ser celebrado. Sua contribuição à Bahia é parte de nossa história.
Mas Waldir Pires também nasceu há cem anos.
E a Bahia deveria aproveitar 2026 para revisitar sua trajetória não apenas com solenidades, placas ou discursos protocolares.
Há matéria para seminários, pesquisas, livros, documentários, exposições e debates sobre democracia, poder, autoritarismo e vida pública.
Seria uma maneira de apresentar Waldir às gerações que conhecem o nome, mas talvez desconheçam o homem e o tempo histórico que ele atravessou.
Afinal, os centenários pertencem aos homenageados apenas simbolicamente. Na verdade, pertencem àqueles que constroem a memória do presente e do futuro.
São eles que decidem o que recordar, o que transmitir e também aquilo que deixar desaparecer.
Roberto Santos merece ser lembrado. Waldir Pires também.
Porque a maneira como uma sociedade trata a memória de seus personagens diz muito sobre o passado que ela reconhece – e ainda mais sobre o presente a partir do qual escolhe lembrá-los.
Afinal, um centenário não é apenas uma data no calendário.
É uma oportunidade para que cada geração volte aos seus personagens, interrogue suas escolhas, compreenda as circunstâncias em que atuaram e decida o lugar que lhes reservará na memória coletiva.
Roberto Santos merece ser celebrado. Sua trajetória está inscrita na história da universidade, da medicina, da ciência e da vida pública baiana.
Reconhecê-la é um ato de justiça.
Waldir Pires atravessou alguns dos momentos mais decisivos da história política brasileira do último século.
Disputou eleições, conheceu a derrota e a vitória, foi cassado, viveu o exílio, participou da redemocratização, governou a Bahia pelo voto popular e exerceu responsabilidades nacionais em diferentes momentos de sua longa vida pública.
Poucos políticos baianos tiveram uma trajetória tão estreitamente vinculada às transformações da democracia brasileira.
Por isso, celebrar seu centenário não deveria ser apenas uma homenagem a Waldir. Deveria ser uma oportunidade para a Bahia reencontrar parte de sua própria história política e oferecê-la às novas gerações.
As homenagens a Roberto Santos mostram que as instituições sabem preservar a memória daqueles que ajudaram a construí-las.
A ausência, até agora, de movimento semelhante em torno de Waldir Pires coloca diante de nós uma questão: quem preserva a memória daquele cuja principal tarefa foi trabalhar em prol da democracia e da justiça social?
O esquecimento, deliberado ou não, é uma forma de escolher qual passado queremos legar às gerações atuais e futuras.
Imagem elaborada por IA

