Entre a gestão e a percepção: o risco silencioso que pode definir 2028 – Maurílio Lopes Fontes

A cristalização da imagem negativa não acontece de forma abrupta. Ela se constrói lentamente, como uma camada que se deposita sobre outra, até formar um bloco rígido, difícil de ser removido. É exatamente esse o risco que ronda os gestores municipais eleitos em 2024: não o desgaste imediato, visível e ruidoso, mas o desgaste silencioso, cumulativo, que se infiltra na percepção coletiva e, quando se torna evidente, já não é facilmente reversível.

Há um equívoco recorrente na gestão pública local: a crença de que o tempo, por si só, corrige percepções. Não corrige. O tempo, quando não há condução estratégica, tende a consolidar leituras já existentes. E, nesse processo, a imagem negativa deixa de ser episódica e passa a operar como referência estável de interpretação. O cidadão já não avalia cada ação de forma isolada; ele passa a interpretá-la à luz de um enquadramento previamente formado.

Esse fenômeno pode ser compreendido à luz de uma leitura inspirada em Mikhail Bakhtin. Para Bakhtin, nenhum discurso existe de forma isolada. Ele sempre responde a outros discursos e antecipa respostas. No campo da gestão pública, isso significa que cada ação governamental não é recebida como fato bruto, mas como enunciado inserido em uma cadeia interpretativa. Quando essa cadeia já está marcada por uma tonalidade negativa, qualquer nova ação tende a ser reinterpretada dentro desse mesmo registro.

É nesse ponto que reside o perigo da cristalização: ela não apenas registra uma percepção, mas condiciona todas as percepções futuras.

Do ponto de vista prático, isso tem implicações diretas para o ciclo político que culminará em outubro de 2028. A eleição não começa no ano eleitoral. Ela começa no momento em que a imagem pública do gestor passa a se estabilizar na mente social. Se essa estabilização ocorre em chave negativa, o gestor entra no período eleitoral em desvantagem estrutural, obrigado não apenas a convencer, mas a desconstruir.

E desconstruir percepções cristalizadas é sempre mais custoso do que construí-las.

A teoria da comunicação política contemporânea tem insistido, ainda que muitas vezes de forma difusa, em um ponto central: governar é também gerir interpretações.

Autores como Patrick Charaudeau ajudam a compreender essa dinâmica ao diferenciar a idealidade dos fins – aquilo que o político pretende realizar – da disposição dos meios – a forma como essas intenções se materializam e são percebidas. O problema é que, na prática municipal, essa distinção raramente é tratada com a devida atenção. Executa-se política pública sem estruturar a leitura pública dessa execução.

O resultado é um vácuo interpretativo.

E o vácuo, na política, não permanece estático. Ele é ocupado por narrativas concorrentes, muitas vezes mais simples, mais emocionais e mais aderentes ao cotidiano das pessoas. Quando isso acontece de forma reiterada, o gestor perde o controle do significado das próprias ações. Passa a governar fatos, mas não sentidos.

Mitigar esse risco exige uma mudança de postura que é, ao mesmo tempo, teórica e operacional.

Primeiro, é necessário reconhecer que a comunicação pública não pode ser tratada como apêndice da gestão. Ela é parte constitutiva da própria ação de governar. Isso implica estruturar sistemas permanentes de escuta – não escuta protocolar, mas escuta analítica, capaz de identificar padrões de interpretação, ruídos recorrentes e zonas de incompreensão.

Segundo, é fundamental organizar coerência narrativa. Não se trata de propaganda, mas de alinhamento. Cada secretaria, cada agente público, cada manifestação institucional precisa dialogar com um eixo comum de sentido. A fragmentação discursiva é um dos principais aceleradores da imagem negativa, porque transmite desorganização, insegurança e falta de direção.

Terceiro, é preciso atuar na antecipação. A gestão que apenas reage já chega atrasada. A disputa de percepção exige capacidade de prever como determinadas ações serão interpretadas e, a partir disso, preparar o ambiente de recepção. Isso não elimina críticas, mas reduz distorções.

Por fim, há um elemento que costuma ser negligenciado: a consistência ao longo do tempo. Não há estratégia de comunicação que resista à incoerência prolongada entre discurso e prática. A imagem pública não se sustenta em campanhas pontuais, ela se ancora na repetição de sinais que, ao longo do tempo, constroem previsibilidade.

O gestor que compreende isso passa a operar em outro nível. Ele deixa de disputar apenas a execução e passa a disputar o significado da execução.

E é exatamente nesse território – silencioso, acumulativo e profundamente político – que se decide o destino eleitoral de 2028.

Ignorar esse processo é permitir que a imagem negativa se solidifique até se tornar quase impenetrável. Enfrentá-lo, por outro lado, não garante vitória, mas evita um cenário em que a disputa já começa perdida.

Porque, ao final, não é apenas o que o governo faz que permanece.

É a forma como esse fazer se fixa – e se reproduz – na percepção coletiva.

Maurílio Lopes Fontes é bacharel em Marketing, especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP),  especialista em Gestão da Cultura Organizacional (Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha)

Imagem elaborada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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