Waldir Pires: aos 24 anos, no centro do poder do governo Régis Pacheco – Maurílio Lopes Fontes


Quando chegou à Assembleia Legislativa da Bahia, em 1955, para exercer seu primeiro mandato de deputado estadual, Waldir Pires tinha apenas 28 anos. Apesar da juventude, não era propriamente um estreante nos ambientes de decisão política do Estado.

Entre 1951 e 1953, foi Secretário de Governo na administração de Luiz Régis Pacheco (foto), função de grande relevância política, situada no núcleo das relações do governador.

Décadas depois, em sessão especial realizada em sua homenagem, a Assembleia Legislativa registraria que Waldir, indicado por Antônio Balbino, fora convidado por Régis Pacheco para ser secretário de Estado, “encarregado de cuidar das relações civis”. Acrescentaria que exercia a “alta política”, coordenando as relações do governador com os demais secretários.

Era uma responsabilidade incomum para alguém tão jovem.

Formado em Direito pela Universidade da Bahia em 1949, Waldir Pires chegou ao governo aos 24 anos. A passagem pela Secretaria representou sua primeira experiência direta no centro do Poder Executivo estadual e antecedeu em alguns anos sua entrada no parlamento.

A presença de Antônio Balbino nessa história é fundamental.

A sucessão estadual de 1950 havia sido dramaticamente alterada pela morte de Lauro Farani Pedreira de Freitas, candidato ao governo da Bahia, em acidente aéreo ocorrido poucos dias antes da eleição.

Diante da tragédia, Régis Pacheco, então deputado federal e político com base em Vitória da Conquista, assumiu a candidatura.

Foi dentro da composição política formada naquele momento que o jovem Waldir chegou ao governo.

Três anos depois (principalmente a partir do segundo semestre de 1953), entretanto, a aliança que estivera na origem daquele arranjo já demonstrava sua inviabilidade pela forma com que o governador tratava a eleição de outubro de 1954.

O próprio Waldir forneceria, em 1955, na tribuna da Assembleia Legislativa, elementos preciosos para compreender o que aconteceu.

Ao responder ao deputado Adelmário Pinheiro (Diário da Assembleia Legislativa – 28 de abril de 1955 – ver abaixo), Waldir recordou sua passagem pelo governo Régis Pacheco.

Disse ter sido levado à presença do governador por Antônio Balbino e que, em razão de “certos compromissos políticos”, fora convidado para ocupar a Secretaria de Governo.

A expressão merece atenção.

Waldir não atribuiu sua chegada ao cargo apenas a uma escolha administrativa de Régis Pacheco. Situou-a no interior de compromissos políticos e identificou expressamente Antônio Balbino como o homem que o levara ao governador.

Mais adiante, empregou outra formulação ainda mais reveladora. Disse ter permanecido na função até que “os motivos que a ela o conduziram desapareceram”.

O que havia desaparecido? O discurso parlamentar não explicita o conteúdo daqueles “certos compromissos políticos”, nem esclarece diretamente quais eram os motivos que haviam deixado de existir.

Em conversa com Waldir Pires (janeiro de 2012), ouvi dele próprio uma explicação para aquele episódio.

Segundo Waldir, quando Lauro de Freitas morreu e Régis Pacheco foi escolhido para substituí-lo na disputa pelo governo, em 1950, estabeleceu-se um entendimento político pelo qual Régis apoiaria Antônio Balbino na sucessão estadual de 1954.

No decorrer do governo, porém, Waldir percebeu movimentos de Régis Pacheco que, em sua avaliação, indicavam que o compromisso não seria cumprido.

A partir daí, sua permanência na Secretaria de Governo tornou-se politicamente difícil.

Waldir era ligado a Antônio Balbino. Fora Balbino quem o conduzira até Régis Pacheco e estivera na origem de sua entrada no governo.

Diante dos sinais de afastamento entre os dois líderes, decidiu antecipar-se ao rompimento e elaborou seu pedido de exoneração.

Saiu da Secretaria no final de 1953.

Esse relato sobre o entendimento sucessório de 1950 e sobre a percepção de que Régis não o cumpriria é um testemunho que ouvi pessoalmente de Waldir Pires.

O próprio Waldir, entretanto, deixaria registrado no pronunciamento parlamentar de 1955 o elemento central de sua decisão: afirmou ter deixado a Secretaria por “imperativos de fidelidade pessoal e política” a Antônio Balbino.

A documentação posterior da própria Assembleia Legislativa registra o distanciamento entre Régis Pacheco e Antônio Balbino e afirma que Waldir permaneceu ao lado de Balbino, que o havia indicado para o cargo.

A sucessão de 1954 tornaria pública a divisão política.

O PSD baiano se dividiu. Pedro Calmon tornou-se candidato de um dos campos da legenda, enquanto Antônio Balbino construiu outra composição para disputar o governo.

A separação entre os antigos aliados, que Waldir afirmava ter percebido ainda durante sua permanência na Secretaria, já estava exposta.

Vista a partir desse contexto, uma frase do pronunciamento de 1955 adquire significado especial: “os motivos que a ela o conduziram desapareceram”.

É possível compreender a formulação como uma referência à mudança das condições políticas que haviam possibilitado sua presença no governo.

Essa é uma interpretação do pronunciamento à luz da sequência dos acontecimentos e do relato que posteriormente ouvi do próprio Waldir.

Há, entretanto, outro aspecto importante.

Mesmo explicando que deixara o governo por fidelidade política a Balbino, Waldir não utilizou o pronunciamento para atacar Régis Pacheco.
Ao contrário.

Fez questão de afirmar que, depois de deixar a Secretaria de Governo, manteve com o ex-governador “as mais amistosas relações”.

Recordou também uma carta que Régis lhe enviara por ocasião do pedido de exoneração. Segundo Waldir relatou na Assembleia, o governador afirmara que somente aceitava sua saída porque o pedido havia sido apresentado “em termos de irrevogabilidade”.

A escolha das palavras é significativa.

Waldir demarcava sua posição política sem transformar a divergência em rompimento pessoal. Sua decisão estava tomada: entre permanecer no governo Régis Pacheco e manter a fidelidade política a Antônio Balbino, escolheu Balbino.

Mas preservou Régis.

O pronunciamento contém ainda uma vigorosa defesa de sua passagem pela administração estadual.

Waldir afirmou que nenhuma irregularidade havia ocorrido durante o período em que exerceu a Secretaria e declarou ter desempenhado a função com honestidade e dedicação.

E utilizou uma expressão particularmente forte: “dali saindo pobre como entrou.”

Era uma declaração do próprio Waldir sobre sua conduta administrativa e, portanto, deve ser compreendida como tal. Mas a frase é reveladora da imagem pública que, ainda no início da carreira, procurava construir em torno de sua relação com o poder: honestidade, dedicação e ausência de enriquecimento pessoal.

A passagem pela Secretaria de Governo permite também compreender melhor o deputado que chegaria à Assembleia Legislativa em 1955.

Waldir não desembarcava no Legislativo apenas com formação jurídica e experiência partidária. Trazia consigo quase três anos de convivência com o centro decisório do governo estadual, acompanhando relações administrativas e políticas e convivendo diretamente com algumas das principais lideranças da Bahia.

A própria Assembleia Legislativa, ao reconstituir posteriormente sua trajetória, registraria que, no governo Régis, Waldir exercera a “alta política”.

A expressão parece adequada para dimensionar aquela experiência.

Ainda muito jovem, ele estava colocado numa posição privilegiada para observar como se formavam e se desfaziam alianças, como se relacionavam governador e secretários e, principalmente, como compromissos políticos podiam ser submetidos às circunstâncias de uma sucessão estadual.

Sua saída da Secretaria também revela uma característica que apareceria outras vezes em sua longa trajetória.

Quando percebeu que sua permanência no governo entrava em contradição com a posição política que havia escolhido, pediu para sair.

Em outubro de 1954, Waldir Pires seria eleito deputado estadual.

No ano seguinte, encontrava-se do outro lado da Praça – agora como parlamentar, líder do PTB, e integrante da sustentação política do governador Antônio Balbino.

A experiência iniciada precocemente na Secretaria de Governo começava a adquirir outro significado.

Aos 24 anos, Waldir Pires conhecera por dentro o funcionamento do Executivo baiano. Antes dos 27, diante da deterioração da relação política entre Régis Pacheco e Antônio Balbino, fizera uma escolha.

Escolheu Balbino. E pediu para sair antes que o rompimento se tornasse público e estava apenas no campo das especulações.

Faço um adendo, que considero importante para esclarecer ainda mais o episódio que resultou na saída de Waldir Pires da Secretaria de Governo.

O rompimento político que se desenhava entre Régis Pacheco e Antônio Balbino colocou Waldir Pires diante de uma escolha. E ela não demoraria a ser feita.

Em conversa que mantive com Waldir, ele me relatou um episódio decisivo para sua saída da Secretaria de Governo. Em meio às articulações para a sucessão estadual de 1954, o então secretário da Agricultura, Antônio Nonato Marques, foi à sua residência e lhe pediu uma manifestação de apoio ao governador Régis Pacheco.

Waldir recusou.

Para ele, os movimentos políticos do governador indicavam que o compromisso firmado em 1950, quando Antônio Balbino apoiara a candidatura de Lauro de Freitas e, após a morte deste, a de Régis Pacheco, estava ameaçado.

Na interpretação de Waldir, aquele entendimento pressupunha o apoio de Pacheco a Balbino (foto) na sucessão de 1954.

Atender ao pedido levado pelo colega secretário significaria, portanto, tomar partido numa direção incompatível com sua relação política com Balbino.

Waldir preferiu outro caminho: decidiu deixar o governo.

O episódio ajuda a compreender uma característica que acompanharia sua longa trajetória pública: para Waldir Pires, determinadas escolhas políticas podiam exigir a renúncia ao cargo que ocupava e a saída dos espaços de poder.

Diário da Assembleia Legislativa – 28 de abril de 1955 – Cópia do original feita em 23 de fevereiro de 2011 – Biblioteca Central dos Barris

Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Pública (FESPSP), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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