1955: três futuros governadores na Assembleia Legislativa – Maurílio Lopes Fontes

Edição do Diário da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, publicada em 6 de abril de 1955 (ver abaixo), guarda uma singularidade que somente o tempo permitiria perceber.
Na relação dos 60 deputados que assumiriam seus mandatos naquela legislatura estavam Francisco Waldir Pires de Souza (PTB), Antônio Lomanto Júnior (Partido Libertador) e Antônio Carlos Peixoto de Magalhães (UDN).
Os três chegariam, em momentos diferentes e por caminhos políticos profundamente distintos, ao governo da Bahia.
Naquele momento, eram ainda jovens políticos. Lomanto tinha 30 anos. Waldir Pires, 28. Antônio Carlos, 27.
A coincidência adquire ainda maior relevância quando se observam as composições posteriores da Assembleia Legislativa. Levantamento realizado não identificou outra legislatura que tenha reunido simultaneamente três deputados que depois se tornariam governadores da Bahia.
Mais do que uma curiosidade, portanto, a edição registra o encontro de três trajetórias que atravessariam algumas das transformações políticas mais profundas da Bahia e do Brasil na segunda metade do século XX.
Waldir Pires e o governo Balbino
Eleito deputado estadual pelo PTB, Waldir Pires se destacou nos debates relacionados à modernização administrativa do Estado, à introdução do planejamento e à ampliação da capacidade de intervenção do poder público.
Waldir participou intensamente dos trabalhos das comissões da Casa e dos debates em plenário na defesa das iniciativas do governo Balbino.
Sua atuação naquela legislatura já revelava uma preocupação que se tornaria recorrente em sua trajetória: a defesa de um Estado capaz de conhecer a realidade, planejar suas ações e ultrapassar o imediatismo das decisões administrativas.
De colegas de Assembleia a adversários nas urnas
Ao término daquela legislatura, no início de 1959, os três seguiram suas carreiras políticas.
Waldir Pires foi eleito deputado federal e assumiu mandato na Câmara dos Deputados em fevereiro de 1959.
Antônio Carlos Magalhães também seguiu para a Câmara Federal, onde iniciaria uma trajetória nacional que se prolongaria por décadas.
Lomanto Júnior tomou outro caminho. Depois de já ter sido prefeito de Jequié entre 1951 e 1955, retornou ao município e exerceu um segundo mandato como prefeito entre 1959 e 1963.
Foi, portanto, no exercício de seu segundo mandato como prefeito de Jequié que Lomanto Júnior venceu a eleição para o governo da Bahia em 1962.
Sete anos depois de terem assumido seus mandatos na mesma Assembleia, Lomanto e Waldir passaram a ocupar lados opostos numa eleição estadual.
De um lado, Lomanto Júnior, prefeito de Jequié. Do outro, Waldir Pires, deputado federal.
Lomanto Júnior (PL) venceu a eleição com o apoio da UDN, PTB, PRT, PR, PST e PRP.
Aqui abro um parêntese. Como acontecera na eleição de Antônio Balbino, em 1954, UDN e PTB marcharam juntos, desta vez em apoio a Lomanto.
Na conversa com Waldir Pires, em janeiro de 2012, que foi gravada, ele revelou que João Goulart havia admitido posteriormente que o apoio do PTB a Lomanto fora um erro. Já era tarde demais e a derrota de Waldir estava consumada.
O confronto eleitoral de 1962, entretanto, seria seguido por um acontecimento de consequências muito mais profundas.
Em 1964, o golpe civil-militar derrubaria o presidente João Goulart, romperia a ordem constitucional e inauguraria uma ditadura que permaneceria no poder por 21 anos.
Foi diante dessa ruptura que as trajetórias daqueles três antigos deputados estaduais assumiram significados muito diferentes.
1964: uma linha divisória
Lomanto Júnior era governador da Bahia quando ocorreu o golpe.
Sua posição naquele momento deve ser analisada com cautela, sem simplificações. Não se tratou de uma adesão linear desde as primeiras horas.
Com o novo regime consolidado, entretanto, Lomanto passou a integrar a estrutura política que lhe dava sustentação.
Depois de deixar o governo em 1967, foi eleito deputado federal pela Arena para o período de 1971 a 1975 e reeleito para o mandato seguinte, de 1975 a 1979.
Em 1978, Lomanto foi eleito senador pela Bahia e exerceu o mandato de 1979 a 1987.
Sua carreira política, portanto, atravessou diferentes níveis do poder: vereador, prefeito, deputado estadual, governador, deputado federal e senador.
Antônio Carlos Magalhães manteve relação com o regime militar ainda mais estreita.
Quando ocorreu o golpe, ACM era deputado federal, então filiado à UDN, um dos partidos responsáveis pela arquitetura da quebra da ordem institucional.
Posteriormente, teve papel importante na formação da Arena e tornou-se o primeiro presidente do partido na Bahia.
Em 1967, foi nomeado prefeito de Salvador. Poucos anos depois, chegaria pela primeira vez ao governo estadual.
Em 1971, assumiu o governo da Bahia por indicação do presidente Emílio Garrastazu Médici, dentro do sistema político de eleições indiretas vigente durante a ditadura.
Voltaria ao governo entre 1979 e 1983, novamente por escolha indireta. Sua terceira passagem pelo cargo começaria em 1991, depois de uma eleição direta. Na sequência, ainda seria senador da República.
Quando ocorreu o golpe, Waldir Pires já havia concluído seu mandato de deputado federal e exercia o cargo de consultor-geral da República no governo João Goulart. Também lecionava Direito Constitucional na Universidade de Brasília.
A situação Waldir Pires, em razão do golpe, foi dramática, mas enfrentada com a altivez de sempre e esperança no futuro do Brasil.
Em 10 de abril de 1964, o Comando Supremo da Revolução publicou a primeira relação de pessoas cujos direitos políticos seriam cassados.
Waldir Pires era o sétimo nome da lista.
Antes dele apareciam Luiz Carlos Prestes, João Goulart, Jânio Quadros, Miguel Arraes, Darcy Ribeiro e Raul Riff.
Logo depois surgiam outras figuras que também seriam atingidas pela repressão do regime, entre elas Leonel Brizola. A lista continha 100 nomes.
Enquanto Lomanto Junior se integraria posteriormente ao sistema e Antônio Carlos Magalhães construiria parte decisiva de sua ascensão dentro da ordem instaurada em 1964, Waldir Pires foi afastado da vida pública.
Essa diferença não pode ser ignorada quando se observam retrospectivamente os três nomes reunidos na Assembleia de 1955.
O tempo voltaria a cruzar aqueles caminhos. Waldir Pires somente chegaria ao governo da Bahia em 1987.
Entre sua derrota para Lomanto, em 1962, e sua vitória eleitoral de 1986 haviam transcorridos quase 25 anos. Sua eleição teve ainda um significado político adicional.
Ela ocorreu em confronto com o grupo liderado por Antônio Carlos Magalhães, outro dos jovens deputados daquela legislatura de 1955.
Décadas depois de compartilharem o mesmo plenário, Waldir e ACM representavam projetos políticos opostos na disputa pelo controle do Estado.
Antônio Carlos ainda retornaria ao governo em 1991.
Assim, aquela única legislatura reuniu três homens que ocupariam o governo da Bahia em momentos distribuídos ao longo de quase três décadas: Lomanto Júnior a partir de 1963, Antônio Carlos Magalhães pela primeira vez em 1971 e Waldir Pires em 1987. E suas trajetórias não se limitaram ao governo estadual.
A relação publicada em 1955 continha, portanto, muito mais do que três futuros governadores. Continha três personagens que permaneceriam durante décadas no centro da vida política baiana e nacional.
Talvez seja esse o aspecto mais fascinante daquele documento.
Ele registra os personagens antes que o futuro lhes atribuísse significado.
Quem leu aquela relação em 1955 não poderia saber que três daqueles deputados chegariam ao governo da Bahia.
Não poderia imaginar que Lomanto Júnior, depois de deixar a Assembleia e retornar à Prefeitura de Jequié, enfrentaria Waldir Pires na eleição de 1962.
Não poderia prever que Antônio Carlos Magalhães construiria uma das mais duradouras estruturas de poder da política baiana.
E muito menos poderia antecipar que, apenas nove anos depois, a ruptura da democracia estabeleceria diferenças tão profundas entre as trajetórias daqueles antigos colegas.
Por isso, a página do Diário da Assembleia de 1955 não guarda apenas uma curiosidade histórica.
Ela registra um instante anterior às vitórias e derrotas, às alianças e confrontos e, sobretudo, às escolhas e circunstâncias que definiriam o lugar ocupado por cada um na história política da Bahia.
Em 1955, a democracia colocou Lomanto Júnior, Antônio Carlos Magalhães e Waldir Pires na mesma Assembleia.
Nove anos depois, a ditadura faria suas trajetórias seguirem caminhos profundamente diferentes.


Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Pública (FESPSP), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

