Sinergia organizacional: “coisa” rara nas administrações municipais – Maurílio Fontes*

Recentemente, ao criticar um evento de importante prefeitura do estado ouvi a seguinte afirmação da secretária de Comunicação: “Está desorganizado porque não foi a nossa secretaria a responsável por sua realização”. Ela atribuiu à outra secretaria os erros apontados por este articulista.

Uma frase sintética, mas que reafirma a máxima de que nas administrações municipais não existe sinergia organizacional, meta perseguida pela iniciativa privada como geradora de diferenciais competitivos, imagem percebida interna e externamente e resultados financeiros.

Via de regra, cada secretaria, embora o discurso do trabalho conjunto seja corriqueiro, age isoladamente sem qualquer visão da importância do todo.

“O todo sempre é maior do que a soma de suas partes”.  Assim pensavam os teóricos da Gestalt, campo da psicologia sistematizado no final do século XIX e nos anos subsequentes. A teoria foi utilizada também nos estudos organizacionais.

As secretarias de Educação e Saúde, por contarem com maiores recursos, passaram a atuar como se fossem mini prefeituras, completamente isoladas das outras que compõem o organograma do primeiro escalão.

Alguns gestores das duas áreas, em razão de manipularem recursos consideráveis, vislumbram possibilidades políticas futuras, inclusive a cadeira do Executivo municipal.

A falta de sinergia não é mera figura de retórica, sem consequências nefastas para os munícipes. Muito pelo contrário, pois o desencontro de ações, o trabalho isolado e o estrelismo de alguns, que pensam ser possível resolver tudo em suas ilhas, geram graves prejuízos às municipalidades, exigem retrabalho, reelaboração de projetos e, às vezes, começar tudo de novo (do zero, frise-se), quando se poderia avançar muito a partir de pontos comuns e convergentes, dentro de uma correta lógica administrativa.

Pergunta-se: quantos prefeitos e prefeitas da Bahia trataram deste tema no início de seus mandatos?

A resposta não é difícil de ser apontada. Certamente menos de 5% dos prefeitos baianos, em um cálculo bastante otimista, trataram disso no período anterior à posse e implementarão ao longo de seus mandatos uma política com base neste postulado da administração.

Aplicar técnicas que deram certo na iniciativa privada é um dos caminhos para os novos gestores. A ciência da administração, que alcançou tantos avanços no século XX, não pode ser desprezada por quem é responsável pela gestão dos recursos públicos.

No caso das prefeituras há um sério agravante: o contribuinte é que pagará pelos desacertos da administração.

A sinergia organizacional deve estar inserida no Planejamento Estratégico Municipal, norte que definirá as ações do quadriênio em todas as áreas, com uma visão concreta e realista das responsabilidades de cada segmento, direcionada para os resultados desejados pelo conjunto do governo local.

A frase “O todo é maior do que a soma de suas partes” não encerra apenas parte de uma teoria de certa corrente da psicologia surgida há uma pouco mais de 110 anos.

De nada adiantará a tecnologia, considerada ferramenta importante de gestão, se os homens e mulheres que dirigem as secretarias municipais não se entenderem e focarem objetivos comuns, que estejam dentro do planejamento maior da prefeitura para a qual eles (elas) prestam serviço.

A sinergia organizacional é mais teoria do que prática concreta no dia a dia dos governos municipais.

Coisa rara, como se fosse um objeto de luxo disponível apenas para as grandes empresas.

Profissionalizar a gestão pública é o caminho para melhorar a qualidade do gasto público.

Os municípios precisam fechar os ralos por onde escoam boa parte do dinheiro dos contribuintes.

Começar pelo Planejamento Estratégico, incluindo a sinergia organizacional como uma ferramenta de gestão, seria uma boa alternativa.

Não resolverá tudo, mas proporcionará ganhos qualitativos para as administrações municipais. Será um bom começo.

*Jornalista, Administrador de Empresas, Mercadólogo, Historiador e Radialista

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje