O Rádio foi uma escola -III-José Jorge Andrade Damasceno

 

Entre as várias iniciativas levadas a efeito quer pelos governantes, quer pelos idealistas educacionais para se utilizar o rádio e a radiodifusão como ferramenta instrucional, duas delas são bastante ilustrativas daquilo que se vem procurando expor neste arrazoado. A primeira e, talvez a mais conhecida delas, foi um conjunto de programas estruturados no Ministério da Educação e Cultura dos governos militares, que pretendia “reduzir o analfabetismo” epidêmico do País: o “projeto Minerva”, que, como uma espécie de apêndice do “Movimento Brasileiro de Alfabetização” (Mobral), via na instrumentalização do rádio, uma maneira mais rápida e eficaz de alcançar tão “nobre” objetivo de dar aos brasileiros a capacidade de ler, escrever e contar.

Isto fica muito bem ilustrado na letra de uma música escrita e cantada pela dupla “Dom & Ravel” com o título de “Você Também É Responsável” tornada pública em 1969. Ao informar a morte de Ravel, a notícia publicada no site G1 afirma em 2011, que aquela música acabou por ser “transformada, dois anos depois, pelo ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho”, no hino do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), que este escrevente ouviu sua mamãezinha cantar juntamente com dona Bidoga, sua vizinha e companheira de classe.

Na sua primeira estrofe, os autores se reportam aos inúmeros retirantes e trabalhadores que se lançam na direção dos conglomerados urbanos em processo de inchaço populacional, em busca de meios de se bastarem a si e proverem aos seus. No entanto, o grande obstáculo está precisamente no fato de não terem sido providos “da semente do ler e contar”. Já na segunda estrofe, mostram o ufanismo tão caro aos generais presidentes, quando apresentam aquelas levas de pessoas dispostas a “participar”, do “desenvolvimento nacional”, como sendo os que “marcham pra luta de lápis na mão”. O refrão do “hino do Mobral”, sintetiza bem, não só a situação de analfabetismo que marcava o brasileiro nele retratado, bem como o propósito do Movimento de Alfabetização do qual aquela música foi tornada símbolo: “Você também é responsável,

“Então me ensine a escrever,

“Eu tenho a minha mão domável,

“Eu sinto a sede do saber”.

Para quem não a conhece, ou para quem a quer relembrar, a música pode ser ouvida no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=izBHWm6BeeE

Levado ao ar em caráter obrigatório por todas as emissoras de radiodifusão do País, em horários fixos e inflexíveis, o programa ”Projeto Minerva” levava aos cantos e recantos do Brasil o ideário “revolucionário de 1964”, sob a forma de textos, contextos, músicas e, como não poderia faltar, ensino da língua, do “Patriotismo” da “Educação Moral e Cívica”, embutindo os propósitos ideológicos defendidos pelos generais-dirigentes.

Montada de maneira a permitir que todas as rádios brasileiras pudessem cumprir a obrigatoriedade de sua retransmissão, radio-postos eram instalados e material complementar era distribuído. Entre estes materiais estavam as fitas magnéticas que permitiriam a veiculação dos programas nos locais onde não houvesse a possibilidade de formar uma cadeia de rádios e/ou onde o sinal da Embratel não pudesse ser conectado ao sistema de transmissão de emissoras que estivessem muito distantes dos centros irradiadores de tais emissoras ou sinais.

A segunda daquelas iniciativas foi a implantação de emissoras de rádio e televisão educativas, levadas a termo em alguns estados do Brasil, notadamente no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia, entre outros. Ligadas às respectivas Unidades da Federação, aquelas emissoras públicas produziam e irradiavam programas educativos, sendo eles elementos chave da sua programação diária. O “Instituto de Radiodifusão da Bahia (IRDEB)” com estúdios e transmissores instalados em Salvador, a rádio “Ministério da Educação e Cultura – ou simplesmente Rádio MEC”, instalada no Rio de Janeiro e em Brasília – estas últimas de propriedade da União -, além da “Fundação Padre Anchieta” em São Paulo, talvez sejam as mais conhecidas dentre as emissoras “educativas” brasileiras.

Mais complexa e completa do que o programa “Projeto Minerva”, as TVs e rádios educativas exigiam um investimento maior no que tange não só ao processo de produção de programas, como também nos processos de irradiação e modernização tecnológica, o que nem sempre acontecia dentro das expectativas.

Aquelas emissoras educativas eram a concretização de ideais já manifestos décadas antes, como já se disse, por aqueles “pioneiros” da radiodifusão brasileira, de algum modo tornado possível, na medida em que os governos Federal e Estaduais assumiam financeira e administrativamente o empreendimento.

Assim, a produção de programas concentrada nos limites territoriais das unidades federativas, fazia com que aquelas emissoras pudessem levar ao ar uma programação educativa que tomasse em consideração as especificidades locais, embora isto não impedisse a sua difusão para além dos seus limites geográficos, visto ser o rádio um instrumento que desconhece limites, exceto aqueles impostos pela potência dos seus transmissores e pela propagação das ondas hertzianas.

Como exemplo disto, toma-se a Rádio Cultura AM-São Paulo, ouvida por este escrevedor através de suas ondas curtas de 31 metros, na frequência de 9615 KHZ. Nela ouviu-se diversos de seus programas, dentre eles o “Nossa Língua portuguesa”, levado ao ar de segunda a sexta, com reprises aos sábados, em diversos horários – mas era o das sete da manhã o que ouvia -, apresentado pelo professor Pasquale Cipro Neto, que em algum momento de sua veiculação teve como tema de abertura, a música “Língua”, uma composição de Caetano Veloso, interpretada por ele e pela excelente Elza Soares.

 

José Jorge Andrade Damasceno é doutor em História Social (Universidade Federal Fluminense) e professor titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje