Governar sem confiança: o movimento silencioso do nosso tempo – Maurílio Lopes Fontes

Há um movimento silencioso – mas profundamente perceptível – em curso nas sociedades contemporâneas: a erosão progressiva da confiança nos governos. Não se trata de um fenômeno localizado ou circunstancial. É estrutural. E, talvez por isso mesmo, mais difícil de ser enfrentado.

A confiança pública nunca foi um ativo automático. Sempre exigiu construção, consistência e, sobretudo, coerência entre discurso e prática. O que se observa hoje, no entanto, é um descompasso crescente entre aquilo que os governos anunciam (e/ou realizam) e aquilo que a população percebe no cotidiano. E é nessa dualidade – muitas vezes invisível para quem governa – que a desconfiança se instala.

O problema não reside apenas na existência de falhas administrativas, que são inerentes a qualquer gestão. O ponto central está na forma como essas falhas são tratadas – ou, em muitos casos, negadas. A negação da realidade, ainda tão presente em diferentes níveis do poder público, produz efeitos corrosivos: tenta camuflar, intencionalmente ou não, os fatos, enfraquece a credibilidade institucional e amplia a sensação de distanciamento entre governantes e governados.

Há, também, um fator geracional relevante. As novas gerações não estabelecem vínculos automáticos com as instituições governamentais. Elas operam sob outra lógica: avaliam, comparam, testam. A confiança, para esse público, não é automática – é constantemente verificada em processos com ciclos cada vez mais velozes.

E governos que não compreendem essa mudança tendem a comunicar-se como se ainda estivessem falando com uma sociedade mais passiva, menos crítica e menos conectada.

Ao mesmo tempo, o ambiente informacional se transformou radicalmente. A abundância de dados, opiniões e narrativas faz com que nenhuma versão dos fatos permaneça incontestada por muito tempo.

Isso poderia ser uma oportunidade para governos mais transparentes e responsivos. Mas, na prática, tem exposto fragilidades comunicacionais importantes: ausência de escuta estruturada, baixa capacidade de resposta e dificuldade em disputar sentidos no espaço público.

O resultado é um ciclo perigoso. Quanto menor a confiança, maior o ceticismo. Quanto maior o ceticismo, mais difícil se torna governar – não apenas do ponto de vista político, mas também operacional. Políticas públicas passam a ser recebidas com desconfiança prévia, iniciativas perdem legitimidade antes mesmo de serem compreendidas e qualquer ruído tende a ser amplificado.

Romper esse ciclo exige mais do que ajustes pontuais. Exige uma mudança de lógica. Governar, hoje, não é apenas entregar resultados. É construir inteligibilidade sobre esses resultados. É reduzir o espaço entre ação e percepção. É compreender que a comunicação não é acessório – é parte constitutiva da própria governança.

Isso implica abandonar a ideia de que informar é suficiente. Não é. É preciso interpretar o ambiente, reconhecer tensões, antecipar leituras e, sobretudo, dialogar. Não como estratégia retórica, mas como prática estruturante.

Porque, ao final, a confiança não se impõe. Ela se forma a partir da construção de processos complexos em que é preciso olhar para a floresta e não apenas para as árvores.

E, uma vez rompida, sua reconstrução dependerá de esforços adicionais (de tempo, recursos,  de capacidade de mobilização)  para o restabelecimento deste principal ativo para quem governa: a confiança dos cidadãos.

Visões reducionistas dos problemas nunca darão resultados. E menos ainda se estiverem impregnadas de negações da realidade.

Maurílio Lopes Fontes é bacharel em Marketing, especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP),  especialista em Gestão da Cultura Organizacional (Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha)

Imagem elaborada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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