Desânimo da indústria segura crescimento do PIB

A economia brasileira deverá encerrar março com o maior crescimento trimestral em quase dois anos, com alta pouco acima de 1% em relação ao período de outubro a dezembro de 2012.

Se a tendência fosse mantida, a expansão em 2013 ficaria próxima a 4,5%. Mas a falta de confiança dos industriais e a lenta recuperação do investimento faz com que economistas descartem a possibilidade de que essa expansão mantenha o ritmo nos próximos trimestres. Dessa maneira, esperam crescimento perto de 3% no ano.

As empresas até investiram mais no primeiro trimestre.

Mas, segundo analistas, há sinais de que foi um movimento pontual para recompor os estoques, que tinham caído para níveis muito baixos. Além disso, dizem, ficou localizado apenas em alguns setores da economia.

CONFIANÇA BAIXA

Um indicador de que o investimento pode demorar a ganhar fôlego de forma sustentada é o persistente desânimo do industrial.

Dados da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostram que o nível de confiança do setor recuou em março para o patamar mais baixo desde setembro de 2012.

A fase atual de recuperação da confiança –desde seu nível mais baixo, em novembro de 2011– é a mais lenta em mais de duas décadas.

A tendência, observada na evolução dos dados da FGV para diferentes períodos pós-crise, desde 1995, foi notada por economistas da MB Associados e do Itaú Unibanco.

“Não há evidência de retorno do investimento de forma sistemática. A incerteza na condução da política econômica tem abalado a confiança dos empresários”, diz a economista Monica de Bolle, diretora da Galanto Consultoria e professora da PUC-Rio.

MOVIMENTO RESTRITO

Segundo a Abimaq (associação que reúne fabricantes de máquinas e equipamentos), a produção de máquinas agrícolas é destaque positivo neste início de ano, devido ao aumento da safra. O setor está empregando 5% mais que em fevereiro de 2012 e a atividade nas fábricas aumentou.

Mas o movimento não se repete em todos os segmentos. Setores de máquinas pesadas e para infraestrutura, segundo a entidade, ainda não sentiram melhora.

“Houve um aumento de pedidos de financiamento no BNDES, mas esse movimento só deve aparecer na nossa indústria no segundo semestre”, diz Luiz Aubert Neto, presidente da Abimaq.

Outro setor em terreno positivo é o de caminhões e ônibus. As vendas desse segmento se recuperam desde outubro e o setor impulsionou a produção da indústria em janeiro –que cresceu 2,5% ante dezembro, o maior ritmo de expansão em três anos.

Mas parte desse empuxo se deve à recuperação após a parada do setor ocorrida em 2012, com a mudança de tecnologia dos motores para uma versão menos poluente, porém mais cara.

EFEITOS TRANSITÓRIOS

“A grande pergunta é se a economia reagiu no primeiro trimestre em razão da melhora nos fundamentos ou de efeitos transitórios. Parece-nos que foram efeitos transitórios”, afirma o economista Aurélio Bicalho, do Itaú.

Ele observa que a utilização da capacidade das fábricas está estacionada ao redor de 84%, o que desestimula novos investimentos.

Além disso, a piora progressiva da crise Argentina continua afetando o setor.

“Cerca de 20% da exportação de manufaturados vai para a Argentina, que deve comprar cada vez menos. Para a indústria, o cenário fica mais sombrio ainda”, diz Sergio Vale, da MB Associados.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje