Deputado Waldir Pires cobra do presidente Jânio Quadros uma política externa clara e debatida com o Congresso – Maurílio Lopes Fontes
Pouco mais de um mês depois da posse de Jânio Quadros (foto), Waldir Pires ocupou a tribuna da Câmara dos Deputados para questionar os rumos do novo governo.
A cobrança tinha um alvo principal: a política externa. Mas o discurso, registrado em quatro páginas do Diário do Congresso Nacional (8 de março de 1961), foi além.

Waldir discutiu a forma como o presidente anunciava suas decisões, a responsabilidade dos ministros e o lugar do Congresso nas mudanças que se pretendia fazer.
É importante situar a fala: o partido de Waldir estava na oposição ao governo. Ele não falava como integrante da base de Jânio, e suas críticas tinham também um sentido partidário.
Mas o pronunciamento não se limitou a contestar o presidente.
O deputado apresentou uma questão que considerava essencial para o país: quais eram, afinal, os objetivos políticos por trás das atitudes de Jânio?
Waldir reconheceu que pouco mais de 30 dias de governo não bastavam para um julgamento definitivo. Ainda assim, dizia ser possível examinar os primeiros sinais da administração.
Via uma diferença entre as atitudes do presidente e os propósitos que deveriam orientá-las.
A falta de explicações, em sua avaliação, deixava o país sem condições de compreender o que estava sendo alterado e por quê.
A inquietação se concentrava nas relações internacionais.
Waldir não defendia que o Brasil permanecesse preso a limites que impedissem a expansão de seus vínculos comerciais e diplomáticos.
Ao contrário, questionava se o país deveria manter restrições às relações externas em nome da defesa da civilização ocidental e cristã.
O que cobrava era uma orientação explícita: o governo precisava esclarecer como pretendia ampliar essas relações e quais interesses brasileiros guiariam suas escolhas.
Para ele, não se mudava a política de um país por meio de sinais esparsos. Waldir criticou a ideia de que “simples bilhetinhos” e pronunciamentos escassos fossem suficientes para alterar os rumos nacionais.
A opinião pública, argumentou, já acompanhava o debate e não deveria receber decisões prontas, formuladas em círculos fechados.
Na tribuna, rejeitou uma política conduzida como “orientação de cúpula, de alcova, fechada”. A cobrança alcançava também o Ministério.
Waldir contestava a redução dos ministros a executores de recados e ressaltava a responsabilidade política ligada aos cargos que ocupavam.
A definição dos rumos do governo, em especial na política externa, não poderia ficar envolta em ambiguidades: cabia ao presidente apresentar sua orientação, ao ministro responsável explicá-la e aos integrantes do governo responder por seus atos.
O debate chegou às instituições. Diante da proposta de suprimir o Senado, Waldir declarou-se partidário do sistema bicameral.
A discussão sobre a modernização do Legislativo, em sua leitura, não podia servir para eliminar uma das casas do Congresso nem para diminuir a participação parlamentar.
Reformas constitucionais exigiam debate e exame, não decisões que afastassem o Legislativo do processo.
O alcance do pronunciamento está na pergunta que dirigiu ao governo: como transformar a política brasileira sem explicar ao país os objetivos da mudança?
Para o deputado, a resposta não podia ficar restrita ao presidente ou a seus auxiliares mais próximos. Precisava ser apresentada ao Congresso e à opinião pública.
No início da gestão de Jânio, Waldir não fechava um julgamento sobre o governo. Cobrava que ele tornasse públicos os rumos que pretendia seguir.
Fonte: Diário do Congresso Nacional, Seção I, 8 de março de 1961, pp. 1309–1312.




Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

