Eleição na Bahia: Empate na pesquisa Genial Quaest, desafios distintos – Maurílio Lopes Fontes

Pesquisas eleitorais servem para medir o presente, não para antecipar o futuro. A pouco mais de dois meses da eleição de 4 de outubro, o levantamento mais recente (Genial Quaest) sobre a sucessão baiana merece ser analisado menos pelos percentuais isolados e mais pelo que eles revelam sobre os desafios estratégicos de cada candidatura.
À primeira vista, o cenário é de absoluto equilíbrio. ACM Neto (União Brasil) aparece com 39% das intenções de voto, enquanto Jerônimo Rodrigues (PT) registra 38%. Considerando a margem de erro de três pontos percentuais, há um empate técnico. Na prática, significa que nenhum dos dois ocupa posição confortável.
O dado, entretanto, esconde realidades bastante diferentes.
Para ACM Neto, o desafio é preservar uma liderança que, embora exista numericamente, permanece frágil do ponto de vista estatístico. Depois de liderar as pesquisas durante boa parte do atual ciclo político, o ex-prefeito de Salvador chega ao momento decisivo sem conseguir abrir vantagem sobre um governador que disputa a reeleição.
Sua rejeição, de 33%, é inferior à do principal adversário, mas está longe de ser desprezível. Em uma eleição polarizada, índices elevados de rejeição costumam limitar o crescimento das candidaturas. A campanha oposicionista dependerá menos da fidelização de seu eleitorado – aparentemente consolidado – e mais da capacidade de conquistar parte dos 13% de indecisos e reduzir a resistência junto aos segmentos que ainda rejeitam seu nome.
Jerônimo Rodrigues enfrenta um desafio de natureza distinta.
A pesquisa mostra que 57% dos entrevistados aprovam seu governo, contra 34% que o desaprovam, enquanto 9% não souberam responder. Em tese, trata-se de um patrimônio político expressivo para quem busca um novo mandato. No entanto, essa aprovação ainda não se converte integralmente em intenção de voto.
A diferença entre os 57% de aprovação e os 38% das intenções de voto sugere que existe um contingente de eleitores que avalia positivamente a administração estadual, mas ainda não decidiu se pretende renovar a confiança no governador. É justamente nesse espaço que a campanha petista deverá concentrar seus maiores esforços.
Ao mesmo tempo, Jerônimo convive com um dado que nenhuma candidatura ignora: sua rejeição alcança 40%, sete pontos acima da registrada por ACM Neto. Rejeição não determina derrotas, mas reduz margens de crescimento e exige campanhas capazes de dialogar para além do eleitorado já convencido.
O cenário do segundo turno reforça a percepção de equilíbrio. ACM Neto aparece com 43%, contra 39% de Jerônimo. A diferença permanece dentro da margem de erro, impedindo qualquer conclusão definitiva sobre eventual favoritismo.
Talvez o número mais importante da pesquisa não esteja nem nos 39% de ACM Neto nem nos 38% de Jerônimo.
Está nos eleitores que ainda não fizeram sua escolha. Os 13% de indecisos, somados aos 8% que declaram intenção de votar em branco, anular ou não comparecer às urnas, representam um universo eleitoral capaz de alterar o resultado da disputa. Em eleições apertadas, são esses segmentos que frequentemente definem o vencedor.
Senado
A disputa pelo Senado apresenta um desenho igualmente interessante.
Rui Costa lidera com 22% das intenções de voto, resultado compatível com sua elevada exposição política após dois mandatos como governador e sua atuação no governo federal. Lidera, mas ainda distante de qualquer situação confortável, especialmente porque a eleição para duas vagas possui dinâmica própria e costuma registrar forte movimentação durante a campanha.
O principal desafio recai sobre Jaques Wagner. Com 16%, permanece em posição competitiva, mas chega à reta final após perder espaço em relação ao levantamento anterior. A queda ocorre depois da repercussão da Operação Compliance Zero, investigação na qual o senador nega qualquer irregularidade. Independentemente do desfecho jurídico, o episódio demonstra que fatos políticos podem produzir efeitos eleitorais imediatos, sobretudo quando atingem figuras de grande projeção.
Ângelo Coronel e João Roma, ambos com 6%, ainda buscam transformar notoriedade em competitividade. Como cada eleitor escolhe dois candidatos ao Senado, alianças, composição das chapas e o chamado voto casado poderão exercer influência muito maior do que os números atuais sugerem.
Há ainda outro dado que recomenda cautela nas análises. Os indecisos representam 22% na disputa para o Senado, enquanto 24% afirmam que pretendem votar em branco, anular ou não votar. Em outras palavras, quase metade do eleitorado ainda não demonstra preferência consolidada por nenhum candidato à Câmara Alta.
É um quadro muito mais aberto do que aquele observado na disputa pelo governo.
Faltando pouco mais de dois meses para a votação, a eleição baiana continua rigorosamente indefinida.
ACM Neto precisa transformar uma liderança estatística em vantagem política. Jerônimo Rodrigues busca converter aprovação administrativa em votos. Rui Costa tenta consolidar a dianteira na corrida ao Senado. Jaques Wagner trabalha para interromper um movimento de queda. João Roma e Ângelo Coronel apostam na campanha para reduzir a distância que hoje os separa dos líderes.
As pesquisas mostram onde cada candidatura está.
As urnas dirão quem soube enfrentar melhor os desafios que os números revelam.
PE x BA
Diferentemente da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), que conseguiu converter a aprovação de seu governo em crescimento eleitoral e ultrapassar João Campos (PSB) nas intenções de voto, o governador Jerônimo Rodrigues ainda convive com um evidente descompasso entre a avaliação positiva da administração e sua posição na corrida eleitoral. Embora 57% dos entrevistados aprovem seu governo, apenas 38% declaram, neste momento, intenção de votar em sua reeleição.
Reduzir essa distância talvez seja o principal desafio estratégico da campanha governista em agosto e setembro.
Entre 5 e 7 pontos percentuais em curva ascendente fariam uma grande diferença, pois não restam muitas alternativas para o crescimento de ACM Neto no primeiro turno (mantidas as condições normais de temepratura e pressão).
Maurílio Lopes Fontes é mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha/Itália), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washinghton University – EUA), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

