Governar: entre a explosão dos 100 metros e a resistência da maratona – Maurílio Lopes Fontes

Há quem imagine que governar seja como disputar uma corrida de 100 metros rasos: largada explosiva, velocidade máxima e chegada em poucos segundos. Na política, porém, essa lógica costuma conduzir ao erro. Governar está muito mais próximo de uma maratona do que de uma prova de velocidade.
Nos 100 metros, praticamente tudo é decidido na largada. Um pequeno atraso pode comprometer toda a prova. Não há tempo para corrigir a estratégia, recuperar posições ou administrar o desgaste. O objetivo é simples: correr o mais rápido possível até a linha de chegada.
A administração pública segue uma lógica oposta. O governante precisa administrar recursos escassos, enfrentar crises inesperadas, conviver com limitações orçamentárias, negociar com diferentes atores políticos e adaptar suas decisões às mudanças da conjuntura. A cada etapa do percurso, novas circunstâncias exigem revisão de prioridades e redefinição de estratégias.
Na maratona, os atletas mais experientes sabem que não se vence nos primeiros quilômetros. Quem parte em ritmo excessivamente acelerado costuma pagar um preço elevado na segunda metade da prova. Os vencedores são aqueles que conhecem seus limites, distribuem o esforço com inteligência, sabem quando acelerar, quando preservar energia e quando responder aos movimentos dos adversários.
Na política ocorre o mesmo.
Governar exige capacidade de planejamento, mas também flexibilidade para corrigir rumos sem perder de vista o destino final. Um bom governo não se mede apenas pelo impacto de suas primeiras decisões, mas pela capacidade de manter consistência, produzir resultados ao longo do tempo e concluir o mandato com a confiança da sociedade preservada ou ampliada.
Isso não significa governar lentamente ou sem iniciativa. Assim como na maratona existem momentos de aceleração decisiva, a gestão pública também demanda ações rápidas diante de crises ou oportunidades. A diferença é que essas acelerações fazem parte de uma estratégia maior, e não de um impulso momentâneo.
Muitos governos fracassam justamente por confundirem as duas provas. Agem como velocistas quando a realidade exige resistência. Gastam seu capital político nos primeiros meses, multiplicam promessas, aceleram sem planejamento e chegam à parte mais difícil do mandato sem fôlego para enfrentar os desafios restantes.
Governar é, em essência, administrar o tempo, os recursos e as expectativas.
É compreender que o sucesso não depende apenas da velocidade da largada, mas da inteligência com que se percorre todo o caminho.
Afinal, na política, como nas grandes maratonas, a história raramente se lembra de quem saiu na frente.
Costuma consagrar quem cruzou a linha de chegada e subiu no pódio, que para governantes é o índice de aprovação e, em muitos casos, a reeleiçao sem dificuldades excessivas.
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