Paulo Fábio diz que vaga ao Senado terá mais disputa que a do governo

Tese do acirramento do embate entre os pré-candidatos ao Senado, Geddel Vieira Lima (PMDB) e Otto Alencar (PSD), deverá dar o tom da campanha eleitoral.

O cientista político Paulo Fábio Dantas, em entrevista exclusiva à Tribuna, acredita que os três principais líderes das últimas pesquisas ao governo serão os protagonistas do processo.

Pela avaliação de Paulo Fábio, Lídice da Mata (PSB) teve as chances de polarizar a eleição em torno dela enquanto a oposição estava indefinida, contudo, Paulo Souto (DEM), apesar de toda fragilidade demonstrada na decisão articulada pelo prefeito ACM Neto (DEM), conseguiu assumir a dianteira e deixar o governista Rui Costa (PT) para trás, candidato com um dos maiores potenciais decrescimento para o quadro que surgirá.

O cientista acredita que pode haver influência nos dois lados federais, mas esta eleição vai refletir o desagrado ou não do governo de Jaques Wagner (PT).

Tribuna da Bahia – Como você avalia a fase de pré-campanha este ano? A antecipação da disputa trouxe mais prejuízos ou mais benefícios?
Paulo Fábio Dantas – Eu acho que de alguma maneira todos os partidos e possíveis candidatos pensaram que este ano de 2014 haveria este evento da Copa do Mundo, em meados do ano, e que de alguma maneira iria causar uma certa interrupção nos processos e não permitiria que continuasse uma pré-campanha formal, emendada com as convenções. Sobre as antecipações, acho que pode ter a ver com isso e o clima político que se instalou no Brasil ano passado a partir daquelas manifestações, e que, de alguma maneira, pressionaram as forças políticas para se colocarem no quadro com um pouco mais de presença. No meu modo de ver, isso só ajuda. Acho que há um prolongamento do período de discussão política no país. Acho que isso é proveitoso e permite a maior possibilidade de esclarecimento e expõe os candidatos e partidos para avaliação dos próprios eleitores. O processo tende a ficar melhor após as convenções e o início do horário eleitoral.

Tribuna – Qual a sua expectativa para esta eleição? Ela será polarizada entre DEM e PT, ou a senadora Lídice da Mata tem fôlego para criar uma terceira via?
Paulo Fábio – Vamos por partes: eu creio que a tendência e marco zero da pré-campanha levavam a uma possibilidade de polarização entre PT e DEM. Isso foi pensando pelo contexto histórico da política baiana: ela se viu muito fortalecida após a vitória do DEM nas eleições de 2012 para prefeitura de Salvador, e isso criou uma situação que normalmente tenderia à polarização. Entretanto, houve, no meio do percurso, tanto do governo, quanto da oposição, problemas da articulação dos seus times e que poderiam ter levado a uma mudança dessa expectativa. Primeiro: do lado do governo, é evidente que as coisas convergiram para um nome, um candidato que não tem expressão política forte e que necessita de um apoio e sustentação da máquina governamental e por parte do esquema político do PT nacional. O Rui Costa tem uma candidatura que, ao invés de ser facilitadora, é dependente fortemente do apoio do governador e da presidente da República. Isso é um traço de fragilidade. Segundo: da oposição nós tivemos aqueles prolongados meses de indefinição e praticamente ficou exposta a olhos vistos uma situação de dificuldade política e culminou com a decisão da candidatura de Paulo Souto (DEM), mas em muitos instantes essa aliança esteve por um triz, como nós acompanhamos. Nesse momento em que resistências havia ao nome do Rui dentro do esquema de governo e um momento de dificuldade de articulação com a oposição, eu creio que houve muito mais do que há hoje um espaço para uma terceira candidatura. A candidatura de Lídice surgiu e poderia ter caminhado para disputar claramente com o DEM o espaço de oposição ao PT. Essa, entretanto, não foi a estratégia da pessebista. No momento em que a oposição estava com dificuldades de escolher o nome, Lídice poderia ter se imposto e ampliado seu nome. Isso não aconteceu. Mas, de todo jeito, não seria fácil ao PSB.

Tribuna – Você acredita que a candidatura da senadora Lídice da Mata (PSB), após se afastar da base governista, vai dificultar a vida do PT na corrida pelo Palácio de Ondina?
Paulo Fábio – Não. Acho que ajuda o PT. Ela está ajudando, pois a polarização se estabeleceu. Lídice é um nome forte e sua pré-campanha ficou aquém desse nome no estado. Um nome muito amplo e poderia entrar no processo para dificultar e forçar o segundo turno. Quanto mais a senadora Lídice da Mata cresce, para forçar um segundo turno, no meu modo de ver, ela ajuda o PT. Quem hoje está pensando em vencer no primeiro turno é a oposição.

Tribuna – A chance de Paulo Souto aumenta por ter a oposição unida?
Paulo Fábio – Sim, claro. A unidade é sempre algo que potencializa. Hoje, por exemplo, foi invertida a lógica de seis meses atrás. Antes se pensava que, em relação da candidatura de Lídice, se ela conseguisse um patamar expressivo de votos, forçando um segundo turno, ela prejudicaria o PT, que pensava em vencer no primeiro, e hoje é ao contrário. Hoje é importante ao PT a candidatura de Lídice ganhar corpo. Se o PT consegue segurar a vitória na eleição presidencial, o segundo turno será travado em condições mais favoráveis ao candidato do PT. Pode ser que isso mude, mas hoje eu creio que Lídice não deveria preocupar o PT. A senadora absolve aqueles que desaprovam o PT e segura a debandada deles para Souto.

Tribuna – Rui Costa é um candidato desconhecido do grande público. Ele vai ter dificuldade de se tornar conhecido e se viabilizar?
Paulo Fábio – A questão de se tornar conhecido eu creio que não terá dificuldades, pois existe uma campanha para isso. Ele será conhecido. Eu não tenho dúvida. Mas o candidato ser conhecido não é o suficiente. O importante é qual será o efeito da mensagem da campanha dele perante o eleitorado. O eleitorado pode conhecê-lo e rejeitá-lo ou acolhê-lo. Por ser desconhecido e ter um trabalho em torno, pode provocar um potencial avanço e de crescimento. O que está em julgamento numa candidatura de Rui é o governo, pois ele é mais governo do que candidato. Ele terá aquilo que for a avaliação que se fizer do governo.

Tribuna – Como você avalia o governo Wagner? Ele conseguirá garantir a transferência de votos e prestígio para Rui?
Paulo Fábio – Eu não tenho elementos para afirmar isso seguramente. Creio que está acontecendo nas pesquisas uma tendência que indica ser favorável a Paulo Souto, e isso por dois fatores: primeiro que isso não deve ficar como está, a tendência é de se estabelecer uma polarização concorrida, e, segundo, se é verdade isso, portanto, se não devemos colocar as fichas da avaliação nesses números e pesquisas ainda nessa fase de pré-campanha. Por outro lado também, digamos que não são confiáveis, do ponto de vista eleitoral, esses argumentos de que Rui conta com apoio de centenas de prefeitos. Isso é tão relativo quanto a liderança das pesquisas.

Tribuna – O que é mais importante: o número de partidos ou de prefeitos aliados na movimentação da campanha?
Paulo Fábio – A história eleitoral mostra que o peso de prefeitos nas eleições de governadores é pequeno. É mais razoável pensar que o prefeito tende a se posicionar na reta final da disputa de acordo como ele percebe que é a tendência do seu eleitorado. Ele vai disputar uma eleição ou o grupo ao qual pertence vai para as urnas daqui a dois anos. O raciocínio é sempre estar articulado com aquele que ele acha que vai ganhar. O prefeito dificilmente é alguém que vai enfrentar ou reverter uma tendência. Ele faz isso com deputado, pois a relação é mais horizontal. Não digo que os apoios sejam desimportantes, mas não é algo que você deva colocar como linha de definição. O candidato permanecer disparado em pesquisa é uma situação também passageira e não refletirá o quadro, como acontece com Souto (DEM).

Tribuna – Qual deverá ser a prioridade do próximo governador?
Paulo Fábio – Eu não sei, pois tornou-se um hábito que os governos se orientem através de pesquisas. Mas uma coisa que vai ser dita, o que as pesquisas indicam, o que a população gosta de ouvir. O exercício do governo é outra coisa. Aquele eleitor que considera que Saúde, Educação e Segurança são sua bandeira, escolherá aquele candidato que melhor defenderá essas áreas. Todos falam mais ou menos a mesma coisa sobre esses assuntos, mas todos nós somos capazes de adivinhar, basta também acompanhar o noticiário. Saber, exatamente, de conhecer o perfil e a coalizão de quem governará.

Tribuna – Uma disputa que deverá ser acirrada será a do Senado. Quem, na sua opinião, leva vantagem na corrida?
Paulo Fábio – Eu acho que o senso comum acha. Paulo Souto está bem melhor na pesquisa que Geddel. Se Souto fosse o candidato, era claro que a disputa seria mais acirrada contra Otto do que com Geddel. Mas eu acho que a chamada força eleitoral do vice-governador, na sua nova fase da carreira política, ele se transformou em um influente chefe partidário e um expoente quadro de liderança de prefeitos, isso deve pesar. Mas isso está para ser avaliado e julgado. Antes disso o que ele fez foi disputar uma eleição como vice de Wagner. Otto está mais dependente do êxito de influência desses prefeitos sobre os eleitores. Devemos ver com prudência esse trabalho dos prefeitos e temos que nos apegar à tendência da opinião do eleitorado que pode mudar o posicionamento dos alcaides. O desempenho dele é uma incógnita e não será resolvida de imediato. Será uma eleição acirrada, inclusive mais do que a de governo. Geddel, por exemplo, é um político experimentado, tem capilaridade partidária, mas sabe que tem um índice de rejeição alto. O eleitorado que não votaria nele para governador pode ver um bom nome para o Senado e da história do voto casado. Em 2010 o PT soube utilizar isso. Mas vale lembrar que tradicionalmente, na Bahia, um candidato ao Senado ganha seguindo a vitória do governador. Basta pegar o processo histórico. Isso já aconteceu no passado. Em 1962, na Bahia, Josaph Marinho e Antônio Balbíno se elegeram senadores derrotando os candidatos da chapa de Lomanto Jr. Waldir perdeu e os dois foram eleitos. Mas isso não se repete na política contemporânea. Se você pegar os processos que envolveram a eleição governador e senado: em 1982, João Durval venceu e o senador foi de sua chapa; em 1986, venceu Waldir e os dois acompanhantes de urna; 1990 foi de ACM e Josaph; 1994 foi Paulo Souto e os outros dois do mesmo partido, e assim sucessivamente. Quando, em 2006, o PT venceu, além de Souto perder, Tourinho não emplacou e João Durval ganhou. 2010, o PT emplacou a reeleição de Wagner e os nomes de Walter Pinheiro e Lídice da Mata.

Tribuna – Até que ponto a eleição nacional influenciará na campanha local?
Paulo Fábio – Em 2010, havia uma mútua relação entre a campanha de Wagner e a campanha de Dilma e ambos se ajudaram, eu diria que a candidatura presidencial foi mais beneficiada pelo governador do que ao contrário. Acho que temos um quadro oposto de 2010. O governo estadual passa por um processo natural de desgaste em relação com que tinha e o candidato d’agora tem um peso menor que Wagner para reeleição. A dependência do sucesso da campanha presidencial é maior do lado do governo. Se essa situação nacional para reverter o quadro é duvidoso. A política nacional define muita coisa nas articulações das candidaturas. Geddel, por exemplo, em 2010, perdeu grande parte de seu potencial por conta do acordo nacional do PMDB com o PT. A influência foi imensa na Bahia em 2010 e continuará sendo importante agora.

Tribuna – Você acredita que o Bolsa Família vai ter influência grande na eleição?
Paulo Fábio – Fica complicado responder. O Bolsa Família é um programa institucional. O PT pode tentar fazer uma campanha de dizer que o programa pode acabar, caso o PSDB vença, mas cada dia menos o eleitorado pode ser convencido disso. Porque o Bolsa Família é uma política social institucionalizada que o grande efeito político que ela teve foi lá atrás. Ela quebrou a intermediação necessária que existia entre as elites políticas estaduais e o atendimento ao eleitorado dos municípios. Hoje, quando os beneficiários recebem aquela bolsa, eles se tornam pessoas que são mais independentes dos canais tradicionais da política. Não vejo característica clientelista no Bolsa Família. Há efeito eleitoral, de opinião. Não creio que seja um fator de decisão, pois cada dia deverá ser menos. A população perceberá que o programa se tornou importante e não terá modificações com qualquer um que seja o presidente eleito. Cada dia mais o Bolsa Família deixará de ser o patrimônio eleitoral do PT como vemos e analisamos nos últimos tempos e nas últimas eleições. Ainda é uma bandeira, mas quando todos os candidatos assumem o compromisso com isso, essa estratégia do discurso do medo tende a perder espaço e também desaparece da oposição qualquer tipo de crítica ao programa Bolsa Família. Não acho que seja um elemento decisivo.

Tribuna – Diante dos fatores, você arrisca um palpite de quem poderá ser o governador da Bahia?
Paulo Fábio – Eu acho que teremos uma eleição polarizada entre Souto e Rui. O candidato do DEM tem hoje uma vantagem que pode se traduzir numa vantagem ponderável, mas está longe de ser a definição. Não é o caso de arriscar palpite e muito menos de expressar desejos. O PT pode ter dificuldades, e enfrenta então o desconhecimento de Rui para tentar reverter a situação, como eu já disse.

Tribuna – Para finalizar, nós vimos as manifestações que aconteceram ano passado respingar na popularidade da presidente Dilma. Neste ano, acredita que a Copa influenciará, de alguma maneira, na eleição?
Paulo Fábio – Eu acho que a Copa tem um papel na conjuntura política de agora. Por exemplo, o sucesso da seleção ou da Copa pode determinar se as pessoas vão pra rua fazer protesto ou não, mas sobre eleições eu acho que essa relação é diferenciada. É um espetáculo de futebol. O Brasil teve seis eleições presidenciais pela nova Constituição: a primeira não foi em ano de Copa, a de Collor em 1989. Em 1994 era Itamar Franco, candidato Fernando Henrique. O Brasil foi campeão e FHC eleito. Isso poderia sugerir que o certame foi fator que facilitou? Acho que não. Em 1998 era FHC o presidente, perdemos e ele venceu a reeleição. Em 2002, FHC era o presidente e o Brasil venceu, mas Lula ganhou. Em 2006, Lula foi presidente, assim como 2010, a seleção saiu perdedora e o petista conseguiu reeleição e elegeu Dilma, respectivamente. Não há motivo para achar que sucesso de Seleção e Copa vão influenciar o voto do eleitor. Isso é especulação pura. A Copa tem uma importância por ser feita no Brasil. O insucesso da Seleção agora, logo, nas oitavas, pode levar que mais gente se anime a ir pra rua fazer protesto, mas não tem nada a ver com voto. Eu acho que o governo está torcendo pela Seleção, mas não pelas urnas, mas para poder apaziguar os ânimos da população.

Fonte: Tribuna da Bahia

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje