O estranho interesse de dois institutos de pesquisas eleitorais pela disputa da Prefeitura de Alagoinhas – Maurílio Fontes

Pesquisas são comuns em campanhas políticas. Mais do que isso: fundamentais para a definição das linhas estratégicas de candidatos ao Executivo no decorrer das disputas. 

Lido com elas há vários anos, para ser exato, há quase três décadas. 

Analisei pesquisas muito boas, outras ruins e algumas péssimas. Erros acontecem, algo normal na rápida dinâmica das campanhas.

Há profissionais que erram, mas com boa fé, reconhecem seus erros e seguem em frente, remodelando métodos e aprendendo com as imprecisões.

Outros, erram ao gosto dos fregueses, deformando resultados que beneficiam os contratantes reais ou ocultos. 

Na eleição de 2020 jabutis chamados pesquisas eleitorais subiram em cima das árvores (se eles estão lá alguém os colocou, pois jabutis não sobem em árvores): institutos estão bancando pesquisas com recursos próprios.

Segundo matéria publicada no dia 4 de novembro em O GLOBO, “o vice-procurador-geral eleitoral, Renato Brill de Góes, encaminhou ofício aos procuradores regionais eleitorais pedindo que sejam apurados se há ilícitos na proliferação de pesquisas de intenção de voto bancadas pelos próprios institutos”.

O GLOBO mostrou o crescimento expressivo desta prática (aumento de 174% em relação a 2016) e a suspeita de fraudes na execução dos levantamentos.

“As alegações sugerem possível ocorrência de ilícitos que, se confirmados, possuem potencial para influir negativamente na transparência e integridade do processo eleitoral, razão pela qual demandam a devida apuração”, escreveu o vice-procurador-geral eleitoral.

Alagoinhas

 Na reta final da campanha, dois institutos – Eleva e LR Consultoria e Pesquisas Ltda – resolveram fazer aferições quantitativas em Alagoinhas, bancadas com recursos próprios. 

Os resultados da ELEVA deverão ser publicados na quarta-feira (11) e da LR na quinta-feira (12), três dias antes dos eleitores irem às urnas. 

A Eleva tem endereço comercial em Salvador e gastará, segundo o plano amostral disponível no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), R$4.133,00.

A Eleva informou ao TSE que sua amostra é de 524 entrevistas (pequena para Alagoinhas e mais ainda na reta final da campanha).

A LR tem sede em Madre de Deus e foi registrada na Receita Federal em 10/01/2017.

Portanto, está realizando pesquisas em campanhas municipais pela primeira vez.  O valor da pesquisa da LR é de R$6.000,00.

Com 422 entrevistas (amostra ainda mais insignificante para Alagoinhas), a pesquisa da LR tem margem de erro de 4 pontos percentuais para mais ou para menos, totalizando 8 pontos percentuais, elevadíssimos para a reta final da campanha.

No limite, com base nas margens de erro da LR, um candidato que tenha 30% de intenções de voto pode ter entre 26% e 34%. 

As chances dos resultados das pesquisas não “baterem” com os índices das urnas são altíssimas, em função da grande “mobilidade das margens de erro”, ainda mais em disputas que se mostram acirradas na última semana. 

No decorrer de 2020, avaliei uma dezena de pesquisas com mais de 600 entrevistados.

Recentemente, analisei pesquisa realizada em Alagoinhas (não registrada) com 50% a mais de questionários. 

Quais os interesses de duas empresas de pesquisas investirem recursos próprios em Alagoinhas? 

Santa Catarina 

O procurador regional eleitoral de Santa Catarina, André Stefani Bertuol, em recurso ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC), argumentou “que a pesquisa eleitoral impugnada está sendo alvo de diversas representações em todo o Estado e, embora seja incontroverso que as pesquisas possuem registro perante à Justiça Eleitoral, incontroverso também que elas não apontam a origem dos recursos para sua contratação, remanescendo dúvidas quanto ao real patrocinador da pesquisa”. 

Bertuol prossegue sua argumentação afirmando que, “ademais, há indícios de subfaturamento e presumível irregularidade da “autocontratação” de pesquisa eleitoral sem origem dos recursos e com indícios de ocultação do contratante ou de outra modalidade de fraude”. 

Jabutis

Quem colocou jabutis nas árvores de Alagoinhas? Lembrem-se: eles não sobem em árvores.

Mãos invisíveis estão em ação.

Elas não querem explicar e sim confundir a opinião pública alagoinhense. 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje