Igreja procura papa com charme magnético e espírito combativo

Nenhum candidato ao papado tem tudo. Mas os cardeais que elegerão o próximo pontífice da Igreja Católica parecem estar procurando por alguém que combine o carisma do Papa João Paulo 2º com o espírito de luta do que um analista do Vaticano definiu –brincando, mas não muito– como “Papa Rambo 1º”.

Embora ainda seja cedo demais para comentar sobre possíveis favoritos, indicações quanto às características desejadas para o pontífice podem ser discernidas nos pronunciamentos dos cardeais que dedicaram a semana a reuniões no Vaticano.

Antes da quarta-feira, quando pararam de conceder entrevistas, os cardeais frequentemente mencionavam os atributos de que a Igreja precisa: um comunicador eficiente que conquiste almas com suas palavras e sua postura santa, e um xerife destemido que combata a desordem e os escândalos no Vaticano.

Essa atenção à capacidade de comunicação e à boa governança representa de muitas maneiras um reconhecimento das deficiências do Papa Bento 16, que partiu de helicóptero para uma inesperada aposentadoria, na semana passada, depois de um difícil pontificado de oito anos.

Mas também é um sinal de nostalgia pelo predecessor de Bento 16, João Paulo 2º, uma presença magnética que atraía os holofotes não só em suas viagens pelo mundo mas durante sua longa enfermidade.

Na gestão de Bento 16, a Igreja perdeu terreno na Europa, Estados Unidos e até mesmo na América Latina. A burocracia central em Roma, a Cúria, perdeu eficiência e há sinais de corrupção.

Cardeais de diversos países comentaram nesta semana que estavam muito preocupados com reportagens recentes da mídia italiana sobre um dossiê secreto que teria sido entregue a Bento 16 antes de sua renúncia e supostamente conteria provas explosivas de chantagem sexual e financeira. O dossiê supostamente será entregue ao novo papa.

Poucos candidatos podem oferecer o pacote completo de talentos requerido, e a mídia italiana chegou a aventurar a noção de que os cardeais estariam pensando em formar “chapas” que uniriam um papa pastoral a um secretário de Estado durão e experiente, que poderia agir como administrador e, se necessário, como verdugo.

O próximo pontífice talvez não precise reprimir as disputas internas e os delitos do Vaticano, mas terá de contar ao menos com a inteligência executiva necessária a apontar um subordinado destemido o bastante para enfrentar os interesses entranhados da burocracia do Vaticano.

“A primeira coisa que ele terá de fazer será colocar ordem na administração central da Cúria”, disse o cardeal Edward Egan, arcebispo aposentado de Nova York. “Ele terá de estar disposto a aceitar críticas”.

E ao mesmo tempo, “é preciso que seja um homem que compreende a fé e seja capaz de anunciá-la de maneira atraente e descomplicada”, disse o prelado, que votou no conclave que elegeu Bento 16 mas agora passou da idade limite para voto, 80 anos.

Os 115 cardeais elegíveis para votar já estavam em Roma na quinta-feira. Mas ainda não se sabe ao certo quando serão confinados à Capela Sistina para votar no próximo papa. Os cardeais vêm se reunindo sigilosamente na ala Paulo 6º do Vaticano, a cada dia desta semana, e ouvindo o que os colegas têm a dizer sobre os desafios que a Igreja enfrenta.

Para aqueles que foram considerados como “papáveis”, ou candidatos a papa, os discursos servem em parte como teste.

Qualquer candidato sério ao pontificado precisa se dedicar às orações, demonstrar competência teológica, e ser fluente em italiano, o idioma do Vaticano e de Roma, que é, afinal, a diocese do papa.

Diversos cardeais também afirmaram que o próximo papa precisa ter tido experiência como bispo diocesano.

A descrição excluiria alguns cardeais que serviram a maior tempo de seu tempo na Cúria, e aqueles que têm pouca experiência pastoral, a exemplo do cardeal Gianfranco Ravasi, um erudito italiano a quem Bento 16 conferiu a honra de pregar no Vaticano durante o recente retiro de quaresma.

O cardeal Donald Wuerl, arcebispo de Washington, disse em entrevista que “ser o pastor de uma igreja local, creio, representaria um fator muito importante para alguém que terá a tarefa de renovar a Igreja espiritualmente”.

Diversos cardeais enfatizaram também que o papa terá de reforçar o contato com outras fés, melhorar o relacionamento com os bispos de todo o mundo e apresentar vigorosamente os ensinamentos católicos.

Muitos dos mencionados entre os papáveis são prelados vistos como dotados de talento comprovado para a administração, em suas arquidioceses, na Cúria, ou em ambas. Entre estes estão os cardeais Angelo Scola, arcebispo de Milão; Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo; Peter Erdo, arcebispo de Esztergom-Budapeste e primaz da Hungria; Leonardo Sandri, um argentino com longa experiência na Cúria; e Marc Ouellet, canadense que comanda a poderosa Congregação para os Bispos, no Vaticano.

Mas diversos desses prelados também são conhecidos pela falta de carisma ou presença. Erdo e Quellet, de acordo com colegas e antigos alunos, se sentem mais confortáveis lendo um texto preparado do que discursando espontaneamente diante de multidões ou dando entrevistas.

Outros cardeais, enquanto isso, viram sua reputação melhorar por conta de sua capacidade de comunicação com as massas. Um deles é Luis Antonio Tagle, das Filipinas, 55. No entanto, o fato de ser relativamente jovem pode ser desvantajoso para ele. Tagle é o segundo mais jovem entre os cardeais, atrás apenas de Baselios Thottunkal, da Índia.

A idade é um critério importante, especialmente depois da renúncia de Bento 16, que tem 85 anos. Muitos cardeais concordam em que o Papa ideal estaria na casa dos 60 anos, e o cardeal sul-africano Wilfrid Napier foi mais específico: “No começo da casa dos 60”. Ele sugeriu em entrevista que era hora de um pontificado mais longo, para comandar por tempo suficiente os esforços de fortalecimento da Igreja.

“É preciso mais tempo para construir sobre essas fundações”, disse Napier. “Creio que precisemos de um pontificado mais longo a fim de gerar energia e manter esse ímpeto.” Ele acrescentou que “com base em conversas informais, posso dizer que alguns dos demais cardeais estão pensando o mesmo”.

No passado, seria impensável que um prelado norte-americano fosse candidato sério ao pontificado, mas os observadores do Vaticano dizem que, pela primeira vez, há entusiasmo por dois norte-americanos que exibem tanto carisma quanto competência administrativa: o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, um homem conhecido pela loquacidade, e o cardeal Sean Patrick O’Malley, de Boston, frade franciscano.

Embora continue a ser improvável que um deles se torne Papa, em larga medida porque os Estados Unidos ainda são percebidos como superpotência mundial cujos interesses nem sempre coincidem com os da Igreja, o conclave atual é o primeiro a romper o tabu.

“Pela primeira vez há norte-americanos sendo considerados, e isso é novidade”, afirmou Marco Politi, veterano vaticanista italiano.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje