Histórias e memórias de uma tarde de domingo – José Jorge Andrade Damasceno

O arrazoado que se segue foi escrito e publicado em 2013, quando o Alagoinhas Hoje se iniciava nas lides do jornalismo eletrônico. Composto a partir do rememorar do seu autor, reflete um momento histórico que não é só seu, embora seja ele quem se dispõe a lembrar e a trazer à lume fragmentos de uma história vivida por milhares de seus coetâneos, quer nas grandes, quer nas pequenas urbes brasileiras de um tempo que já longe se vai…

É evidente que os leitores e/ou os (re) leitores destes escritos terão outras lembranças, outras histórias e outras memórias para escrever; as omissões, os esquecimentos e os silêncios que possam ser apontados no texto são partes constitutivas do que lembrar, do que é esquecer, do que é silenciar no contexto daquilo que Maurice Halbwachs chama, não sem contestação de outros estudiosos, “a memória coletiva”.

Boa leitura e/ou (re) leitura para todos. Sugere-se que cada leitor faça o seu próprio (re) memorar à medida em que percorra as linhas que se seguem.

Os anos sessenta e setenta foram marcados por grandes movimentos sociais e culturais, envolvendo várias gerações de jovens, de ambos os sexos, que desejavam “revolucionar” os costumes e rasgar toda e qualquer tentativa de regramento de seus impulsos e/desejos e, sacudir para longe de si, todo corolário de construções normativas, que até os meados dos anos 50 trazia os “novos rebeldes”, ou, como foram denominados os “rebeldes sem causa”, como que “represados” no que respeita ao comportamento sexual, às expressões culturais e às manifestações artísticas.

 No campo da expressão musical, o “rock and roll”, personificado nos “quatro rapazes de Liverpool”, que deram ao mundo o estrondoso sucesso aos Beatles e no cantor norte-americano Elvis Presley – para citar apenas estes -, encontra campo amplo e terreno fértil para sua difusão, trazendo consigo a implosão de grande parte dos arcabouços que forjaram um “modus vivendi” construído e apreendido, por longos séculos de dominação de uma cultura burguesa conservadora.

Portanto, o “rock and roll”, a ousadia, a intrepidez e o destemor do novo foram as marcas daquela geração que, enfim, segundo suas premissas, reconfiguraria a sociedade ocidental, no sentido de demonstrar suas propostas de novas formas de convivência social, não mais sobre estruturas sólidas e “petrificadas”, exigindo uma flexibilidade que permitisse a coexistência de uma ampla gama de “micro-sociedades”, o que promoveria, forçosamente, maior empenho coletivo, no intuito de obter cada vez mais espaços de liberdade social e participação política.

No Brasil, o movimento tem suas especificidades que não cabe discutir neste espaço. Mas a “Jovem Guarda”, com sua música sob a forte influência dos Beatles, Rolling Stones e seus similares, provoca uma “revolução” em alguns setores da juventude brasileira, fazendo explodir pelo país, para além do eixo Rio-São Paulo, os conjuntos musicais, com o instrumental elétrico.

Sob a inspiração dos conjuntos nacionais de grande sucesso entre os jovens dos “anos dourados”, como os de Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, entre outros, muitas cidades do interior e/ou capitais de menor porte, viram nascer e sobreviver por alguns anos, os conjuntos formados basicamente por órgão, guitarra, contrabaixo e bateria, estribados em uma aparelhagem possante, que faziam a alegria das festas juvenis. Alagoinhas teve alguns conjuntos com estas características, sendo Os Milionários, Os Caciques e o Grupo Manifesto os mais lembrados dentre eles.

Tais conjuntos se apresentavam com excelentes cantores, também denominados de “crooners”, como Enéias Santana, cuja lembrança daqueles que o ouviram, sempre se apresenta nítida, ao recordar o grande momento vivido pelos Caciques, conjunto que levou sempre a sua marca, até sair para criar e dirigir o conjunto “Os Magníficos”, segunda geração daquele tipo de grupo musical, pouco a pouco reorientado, até se tornar “banda”, modo como passou a ser denominado a partir dos meados dos anos 1980.

Nas décadas em que a jovem guarda e a “dance music” assumiram lugar de proa no gosto musical da juventude brasileira em geral e baiana em particular, pelo menos quatro grandes clubes de Alagoinhas se constituíam em lugares de encontro, lazer e entretenimento, onde algumas gerações alagoinhenses viveram grandes momentos, com festas arrojadas, muitas vezes trazendo conjuntos de outras cidades, que rivalizavam com os locais, sendo o mais memorável deles, o conjunto “Los Guaranis”, ainda hoje em atividade, no vizinho estado de Sergipe.

O Alagoinhas Tênis Clube, a Associação Atlética Banco do Brasil, a Associação Cultural e Recreativa de Alagoinhas ou (clube Acra), como todos o conheciam e a Associação Cultural Vencedor (na Praça Maestro Santa Isabel), marcaram as noites dos sábados e as tardes-noites dos domingos, promovendo concorridos e animados bailes, apesar dos limites de seus espaços físicos e, evidentemente, o custo dos ingressos, que, para grande parte da população era um fator inibidor do desejo de participar ativamente das festas promovidas por aquelas agremiações.

Durante os primeiros anos de existência e funcionamento, os clubes se constituíam em espaços privilegiados dos sócios e familiares, onde eram promovidos os encontros sociais, aniversários, recepções e outros tipos de eventos reservados, dispondo de espaços de convivência, como bar, restaurante e piscina, cujo acesso era restrito aos sócios em dia com suas obrigações financeiras.

Em alguma longínqua tarde de domingo, em algum mês de 1978 ou 1979, tocavam Os Caciques, ou eram os Milionários… Certo mesmo é que o Tênis promovia uma animada festa, talvez exclusiva para os seus sócios…

Lá estava um sujeito, que não era sócio, não tinha dinheiro para o ingresso, nem mesmo para a bebida, ainda que não alcoólica: estava ali, como se dizia, um “penetra”. Ele importunava as damas, procurava convencer a alguma dentre elas a dançar consigo, mediante abordagens desajeitadas, inoportunas, deselegantes mesmo, ao ponto de se sentir acuado, diante da ameaça de alguma delas pedir a intervenção do namorado ou, quiçá, do marido, a fim de interromper aquele abuso!

Constrangido, humilhado e, porque não dizer, amedrontado, o penetra procurou um lugar onde se refugiar, contentando-se em ouvir as músicas que o conjunto executava, com a qualidade que era a marca daqueles grupos.

Em dias como aqueles, a ainda pacata Alagoinhas, via surgir as gentes, chegando das ruas no entorno do Tênis, cuja frente era voltada para o largo do estádio Carneirão, de onde se via o Ginásio Alagoinhas e o “Estadual”; a lateral esquerda dava para os fundos do Hospital Dantas Bião.

Embora fossem poucas e dispersas as residências que circundavam aquele clube social, que não distava muito do seu oponente, o ACRA, ele era frequentado pela fina flor da elite alagoinhense. A Rua Elvira Dórea tinha seu início na esquina da Rua Marechal Deodoro e se estendia até a esquina do Dantas Bião. Nela se localizava a Clínica Cetro (clínica de traumatologia), a Santa Casa de Misericórdia, a maternidade, o Instituto Mauá e, era habitada por gente como o então prefeito Miguel Fontes, o dentista paulista doutor Faria, entre outras famílias de algum prestígio na cidade.

Havia algumas poucas ruas transversais a Elvira Dórea, sem calçamento e, ainda menos habitadas. Pois foi da casa de uma delas, que Maria Isabel se arrumou e saiu para também ir abrilhantar aquela tarde de festa.

Aquela jovem esbelta, de estatura mediana, senhorita envolta em agradável perfume, de trato amável, de palavras doces e gestos gentis, se dispusera a tirar aquele anônimo da suprema humilhação de quedar-se só, como se fora ela, uma princesa que, vinda de límpida fonte, resolvera dar um pouco de água fresca àquele plebeu sedento.

Sem tomar conhecimento do desalinho do cavalheiro, sem censurar visível descompasso dos passos de quem escolhera para par na dança, aquela moça deu ao rapaz solitário e escanteado, o prazer de bailar consigo, várias daquelas excelentes melodias tocadas pelos exímios músicos que animavam o lugar.

De estilo todo próprio, aqueles conjuntos apresentavam o que havia de mais moderno em aparelhagem, acessórios e instrumental, o que impulsionava seus músicos a esmerar-se na execução das melodias do modo mais aproximado que pudessem, de suas gravações originais, sendo seus crooners os responsáveis por fazer o público viajar nas boas letras que se produziam na ocasião, evidentemente, excetuando-se as músicas em inglês, cuja pronúncia arranhada e forjada da língua de Shakespeare, seguramente, a violentava, palavra pós palavra!

Foram tornadas clássicas e de execução obrigatória, algumas composições nacionais da Jovem Guarda como Diana, versão imortalizada por Carlos Gonzaga, Coração de Cristal, Coração de Papel, Ave Maria no Morro, versão de Eduardo Silva. No repertório também apareciam composições internacionais.

Apesar de alguns apreciarem muito a “chançon française”, as músicas tocadas pelos conjuntos eram quase sempre em inglês, tais como Marie Julie, Daniel, Happy Man, Tell me once again, Felling’s, We Said Goodbye.

Entretanto, o ponto mais alto da festa foi o momento da magistral execução de uma das músicas de maior sucesso nos salões dos clubes, no repertório dos conjuntos e perene lembrança na memória daquele dançarino descompassado: “Do you wanna dance”, que foi, precisamente, a música que lhe propiciou o indescritível prazer de dançar com aquela gazela delicada, de quem nunca mais esquecera e, poucas vezes encontrara, após aquela tão memorável e já longínqua tarde de domingo.

José Jorge Andrade Damasceno é doutor em História Social (Universidade Federal Fluminense) e professor da UNEB (Alagoinhas)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje