Geddel promete manter apoio à Bahia

Brasília - Ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima durante coletiva sobre a reunião dos líderes com o presidente interino,  Michel Temer (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília – Ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima durante coletiva sobre a reunião dos líderes com o presidente interino, Michel Temer (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Um dos homens fortes do governo do presidente interino Michel Temer, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, disse ter encontrado na pasta, até o momento, 1.400 cargos de comissão ocupados por petistas, o que chamou de “aparelhamento do estado”. Nessa entrevista exclusiva ao jornal A TARDE, ele fala dos primeiros dias do novo governo e do esforço para tentar colocar a economia do país no prumo, com o objetivo de dar confiança ao setor privado para voltar a investir no Brasil. Informou que o presidente Temer deve anunciar, nessa segunda, o primeiro pacote de medidas e os números da economia herdados da gestão da presidente Dilma Rousseff.

Fala-se em revisão do Minha Casa Minha Vida, em cadastros falsos dos programas sociais. Depois de uma semana de gestão já se tem ideia do rombo no governo?

Em primeiro lugar vamos reafirmar o compromisso do presidente Michel Temer de que os programas sociais precisam ser preservados, eventualmente ampliados, mas sobretudo aprimorados. Nosso desafio agora é evitar desperdícios de dinheiro público, portanto revisitar programas sociais para conferir cadastros, para evitar fraudes, para fazer com que o dinheiro público seja utilizado também de forma qualitativa e não apenas quantitativamente. Dentro em pouco estaremos apresentando resultados do que está sendo visualizado, como também o aprimoramento nos programas sociais e em outros programas do governo, melhorando a gestão.

Mas, para a nova gestão mexer nesse assunto vocês já tinham alguns indícios de problemas, de fraudes?

Evidente que nós temos essas informações. E é evidente que nesses últimos dias pré-impeachment, o governo agiu de forma impatriótica liberando recursos descontroladamente, nomeando pessoas sem critérios, avançando em prerrogativas que seriam do próximo governo, se tivesse tido um mínimo de patriotismo nessa saída. Portanto, estamos revisitando essas liberações, suspendendo empenhos, revisando essas nomeações para aquelas que não tenham se transformado ainda em ato jurídico perfeito, cancelarmos e fazermos com novos critérios, vinculados ao interesse público e não, sobretudo, ao aparelhamento do Estado, como vinha sendo feito.

O senhor qualificaria essa ação do governo Dilma de sabotagem?

Acho que é mais forte dizer que é impatriótico.

A presidente Dilma falava nos últimos discursos que o governo iria construir mais dois milhões de moradias no Minha Casa. Isso será cumprido pela nova gestão?

O governo falava que a meta de superávit seria de R$ 96 bilhões, foi para R$ 10 bilhões, R$ 5 bilhões. Agora foi a deficit de R$ 96 bilhões que apresentaram ao Congresso Nacional. Nós já estamos chegando a número do deficit de R$ 200 bilhões. A situação é gravíssima e são números contra os  quais não se pode brigar. Veja que herança eles deixam na Eletrobras, veja a questão sem solução dos estados em situação pré-falimentar. São esqueletos que nós vamos ter que tirar do armário e enfrentar com coragem, apresentando soluções.

Como administrar o governo com um rombo de R$ 200 bilhões?

Estou indo para Brasília cedo na segunda, quando o presidente fará uma coletiva onde, com a equipe econômica, vai anunciar o tamanho do rombo, a composição desse rombo e, já, algumas medidas que serão adotadas. A equipe econômica está blindada pelo presidente, é de absoluta competência e há de resgatar a credibilidade. Está faltando no país confiança. O Brasil se transformou num país barato, mas nenhum investidor internacional e nacional se dispõe a colocar seu dinheiro em empreendimentos produtivos capazes de gerar  emprego. Precisamos de interlocução transparente e correta com o Congresso,  enfrentando as dificuldades próprias de uma relação com a Casa Legislativa, mas aprovando medidas e mostrando que chegou um governo com disposição para acertar.

Em relação ao Congresso, como estão seus contados com as lideranças e dirigentes?

Quero inverter a lógica de que essa relação tem que se sustentar apenas na ocupação de espaços e cargos. Os partidos poderão participar, claro. Mas vamos ser rigorosos nas indicações, analisando os currículos. O presidente está estabelecendo metas do tipo: bancos públicos terão que ser funcionários de carreira, Petrobras não há indicações políticas, enfim uma série de ações para ir blindando toda essa estrutura gerencial-administraiva. E eu quero fazer, com os líderes, reuniões periódicas e antes das matérias irem para o Congresso, permitir que através de seminários, reuniões de bancada, os parlamentares possam dar suas contribuições de forma antecipada para não se declararem surpresos com as medidas que serão enviadas ao Congresso, que tem que se comprometer  com o que vai ser posto. Essa vai ser uma exigência da opinião pública ,que espero continue mobilizada, para nos ajudar a tirar o Brasil desse buraco.

O senhor falou em dois fatos consumados, o presidente da Câmara Waldir Maranhão (PP-MA) e o líder do governo André Moura (PSC-SE), réu em três ações da Operação Lava Jato. Como ficará essa interlocução?

A Casa Legislativa é um lugar onde você tem que conversar, conversar e se curvar por vezes a uma realidade que  meu pai me repetia: encarar a vida como ela é. Líder de governo não tem tropa. A tropa do líder são os partidos que dão sustentação. Trabalhei numa direção. Num determinado momento vem um documento assinado por 12 líderes da base sugerindo o nome do deputado André Moura. Fica sempre a dúvida na cabeça da pessoa que toma uma decisão: nós temos que olhar para a opinião pública, que é fundamental, ou olhar para a realidade que é aprovar medidas impopulares no Congresso Nacional, que é para que possamos dar resultados concretos que melhorem a vida das pessoas, que reduzam o desemprego e a inflação, façam a dívida pública voltar a ser algo administrável? No governo provisório nós optamos por dar resultados diretos na economia, ainda que isso nos custe queimar gordura perante a opinião pública.

O que será votado nos próximos dias no Congresso?

Gostaríamos que fosse a nova meta fiscal e a DRU – Desvinculação de Receitas da União. Quero ver até se embuto, através da articulação, uma novidade, que é deixar essa DRU sem prazo [de renovação]. No momento, de dois em dois anos tem que ser votada. Isso pode ser feito através de projeto.

O senhor disse ter encontrado na sua pasta um aparelhamento enorme. Isso está espalhado pelos outros ministérios?

É geral. É impressionante. O Ministério da Chefia do Governo é um órgão muito ligado à presidência da República, enxuto. Não há necessidade de ter nesse ministério 1.400 cargos de confiança, dos quais muitos não trabalham. É uma coisa absurda que fizeram com o país e a sociedade tem o direito de saber, e nós o dever de informar, não por espírito de revanche, mas para a sociedade saber.

Então a meta de cortar 4 mil cargos de confiança deve aumentar?

Só eu vou contribuir com um percentual grande. Ainda estamos levantando esses números, pois estamos priorizando agora a área econômica.

O senhor foi um dos primeiros a pregar o rompimento do PMDB com o governo. Demorou muito?

Demorou na avaliação de quem queria pressa, como eu. Mas surge no momento em que tudo estava maduro. O país não aguentaria mais um governo dirigido por uma pessoa inepta, sem compromisso com a realidade do país e sem força para enfrentar uma pressão insustentável de um partido que tinha uma preocupação de aparelhar o estado para colocar a serviço do seu projeto de poder. Isso prejudicou muito o Brasil e nos fez voltar muito para trás do que tínhamos conquistado.

O senhor foi ministro de Lula. Em que ponto a gestão petista derrapou?

Não tenho nenhum problema pessoal com o presidente Lula, lamento até que ele esteja vivendo esse inferno astral. Agora, o governo saiu da curva quando perdeu o controle e permitiu que os interesses do partido ficassem acima dos interesses da Nação.

Uma crítica que o senhor fazia era que a proximidade dos governadores Jaques Wagner e Rui Costa aos presidentes Lula e Dilma não se refletia em obras para a Bahia.

Eles podem ser amigos, não sou patrulheiro de amizade. É porque eles colocaram a amizade e o interesse partidário um grau sempre acima dos interesses da Bahia. Estou ministro do presidente Temer, cuja amizade tem 30 anos. Ele sabe que em nenhum instante deixarei de erguer minha voz na defesa da Bahia. Caso contrário não há razão de eu estar numa função onde trabalho até a 1 hora da madrugada. Estava numa vida tranquila. Volto ao redemoinho da política porque acho que posso dar uma contribuição ao meu país, mas sobretudo posso estar atento aos interesses do meu estado.

Mas a situação se inverteu e agora é o senhor que é próximo ao presidente Temer. Com esse cenário econômico ruim será possível atender aos pleitos da Bahia?

No que for possível ajudarei. No que não for possível direi que não posso ajudar porque a realidade está posta. Precisamos resgatar a economia do país. Precisamos fazer com que esse governo mostre à sociedade que não é um governo perdulário, que tem responsabilidades, que não vai sair gastando de forma populista. Isso não implica que podendo ajudar a Bahia eu não brigue, loucamente, para ajudar nosso estado, ou que eu coloque minhas relações com o presidente da República ou os interesses do meu partido um degrau acima dos interesses da Bahia.

E as relações com o governador Rui Costa?

Vou lhe dar essa notícia em primeira mão. Fiz uma ligação para o governador da Bahia. Conversei com ele, deixando bastante claro que temos divergências de ordem política mas isso não implica que, num diálogo frutífero, algum dos dois precise capitular. Temos que ter a capacidade de construir um caminho pelo qual possamos trafegar e que seja um caminho que ao fim esteja escrito Bahia. Nossos interesses podem convergir na defesa dos interesses da Bahia.

O projeto do metrô está tendo um fluxo bom de recursos. Vai continuar?

O metrô é um Projeto Público-Privado (PPP). O fluxo de recursos está andando porque a concessionária tem interesse de acelerar a obra para começar a ganhar dinheiro. Agora, existem outros projetos do governo que estão tramitando no governo federal que eu me coloquei à disposição para ser embaixador na defesa da continuidade, para que não haja entraves burocráticos. Já tive também com o prefeito de Salvador, estamos tratando daquele resgate do compromisso que não foi cumprido, e quando não se cumpre compromisso não é bom, do BRT de Salvador. Para que a gente possa ajudar a trazer investimentos e obras de forma que a Bahia possa alavancar seu desenvolvimento.

E a Ferrovia Integração Oeste Leste?

Precisamos nos inteirar. A Fiol é uma das demonstrações das irresponsabilidades populistas dos governos que eu combati. A Fiol começou sem um porto. E a ponte Salvador/Itaparica? É uma série de promessas eleitoreiras para ganhar eleição e não ser cumprida. Não me responsabilize sobre o que não prometi. Lutarei para ajudar a viabilizar, com outras forças políticas da Bahia. Me responsabilize por aquilo que eu disser que vou fazer. Não posso ser responsável pela megalomania de quem prometeu uma ponte Salvador/Itaparica sem uma engenharia financeira. De quem deu início a uma ferrovia sem ter um porto. Mas esse era um discurso que fazia e tinha obrigação de fazer quando não tinha responsabilidade de governo federal. Agora, esses são fatos, mas não me cabe mais ressaltar  essas falhas. Me cabe dar as mãos a todos que queiram me dar as mãos para ser mais um elo da corrente de solução dos interesses da Bahia.

O procurador-geral da República Rodrigo Janot pediu ao STF para investigar o ministro Romero Jucá e o presidente do Senado Renan Calheiros, ambos do PMDB. Isso não causa, no mínimo, constrangimentos ao governo?

Isso é uma questão de Justiça que tem que se manifestar no momento oportuno. Quem virar réu e for condenado não pode participar do governo. Não cria problemas ao governo não.

Quando se anunciava os futuros ministros, seu nome aparecia junto com a frase “citado na Operação Lava Jato”. Pode esclarecer isso?

Já mudaram porque não é verdade. Aquilo é uma sacanagem de quem se diz com compromisso ético e não tem compromisso com a verdade. Quando perguntado, por exemplo, sobre os diálogos que tive com o dr. Léo Pinheiro [diretor da OAS condenado na Lava Jato], eu disse que meus diálogos sempre foram absolutamente claros. Sem codinome. É uma pessoa que eu reputo próxima, que era um grande empresário baiano, sobre o qual não pairava nenhuma irregularidade. Uma das conversas tratada como algo irregular gerou, como contrapartida no consórcio que realizou o (condomínio) Costa Espanha, a obra da Praça Orungan. As conversas são claras. Estão, há dois anos, com o rigor do juiz Sérgio Moro e não geraram uma investigação. Isso é uma irresponsabilidade, uma leviandade que repilo com vigor.

Fonte: A Tarde

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje