Fatos e Lembranças – Iraci Gama Santa Luzia

Neste ano de 2013 algumas datas importantes de nossa comunidade se “arredondam”. O dia 13 de fevereiro tem uma marca fortíssima: 150 anos da primeira viagem de trem Salvador/Alagoinhas, que aconteceu em 13 de fevereiro de 1863, dez anos depois da instalação do primeiro Conselho Municipal, o que aconteceu a 2 de Julho de 1853, portanto, há 160 anos. A presença da ferrovia foi o elemento impulsionador do desenvolvimento do nosso município e da região, o que colocou Alagoinhas no patamar de maior entroncamento ferroviário do Nordeste.

Em tempos mais modernos, temos uma data “redonda” que precisa ser lembrada pela importância daquele momento e daquele evento: quarenta anos da posse do Prefeito Judélio Carmo, em sua gestão – 1973/1976, que se completam hoje, 1º de fevereiro. Judélio era um jovem jornalista que venceu as eleições pela superação de grupos políticos tradicionais, o que lhe valeu o cognomine “a zebra”.

Na época, a figura da zebra aparecia nos meios de comunicação para identificar a vitória inesperada de um time nos torneios esportivos de futebol. E aquela vitória de Judélio era mesmo surpreendente, pelas circunstâncias do processo. E muitas ações desse alagoinhense foram mesmo imprevistas, como a busca de empreendimentos industriais para alavancar o progresso de Alagoinhas – a exemplo da BRESPEL e dos postes CAVAN e, nesse sentido – ele repetia o feito da ferrovia, em 1863.

Judélio foi Prefeito novamente entre 1983 e 1988, num período elastecido de dois anos além do normal. Apoiou o candidato Chico Reis que governou entre 1989 e 1992 tendo indicado o vice desse período, João Fiscina. Este foi por ele apoiado no processo eleitoral de 1992, visando nova gestão, sem sucesso dessa vez, mas com sucesso total no período 1997/2000 com esse mesmo candidato a Prefeito, sendo ele o Vice.

Concorreu ainda a outros cargos eletivos, como Deputado Estadual e Federal e, mesmo sem alcançar esses propósitos, não se afastou dos meios políticos até que a morte o surpreendeu e estarreceu a todos nós com um infarto fulminante na manhã de abril de 2009. Foram, portanto, quase quarenta anos de intensa atividade política que deixou muitas marcas inapagáveis na vida de nosso município.

Não sendo cientista política, mas uma educadora social atraída/envolvida pelas ações culturais, devo enfatizar o que foi realizado por Judélio, nesse tempo de movimentação entre nós. Começo falando da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas – FFPA, cujo convênio foi assinado, por ele, com o Governo do Estado da Bahia, para utilização do prédio ”Centro Cultural” da Prefeitura, na praça Ruy Barbosa, em 1973. A FFPA ficou nesse prédio por vinte e um anos até 1994, quando deslocou-se para a área da “Fazenda do Governo”, atual “Campus Universitário de Alagoinhas” – Campus II da UNEB.

Nesse período da sua segunda gestão, deu-se a ampliação com as salas de aula do fundo do prédio, pois o espaço interno não mais comportava o conjunto de atividades da instituição. E quando a primeira Amostra de Arte aconteceu, em 1978, a discussão sobre Preservação do Patrimônio de Alagoinhas começa a ganhar corpo, pela organização efetiva do trabalho dentro da Faculdade, a cidade vai percebendo um novo clima criado por essa comunidade cultural/artística sempre realizando eventos, buscando parceiros e patrocinadores. E Judélio, nesse meio, sendo buscado para diferentes ações. Assim, em 1980, quando o Grupo Pró-Memória nasce, nasce também a ideia de um Centro de Cultura que seria instalado na Igreja Inacabada de Alagoinhas Velha, já considerada “bem intocável” por Indicação do Vereador Antonio Fontes, em 1973.

Não foi possível o alcance desse objetivo, mas a ideia de Centro de Cultura foi assumida pela Fundação Cultural do Estado da Bahia que montou projeto específico para as maiores cidades da Bahia e o espaço de instalação do de Alagoinhas foi entregue por Judélio, quando Prefeito, na área do antigo Matadouro Municipal que é de 1914.

Em 1986, o movimento popular teve outro embate com Judélio quando da realização da GREVE GERAL. Aqui, em Alagoinhas, estivemos à frente do processo, com a Unidade Sindical de Alagoinhas que coordenou o movimento de paralisação. As lojas foram sendo fechadas, sem problemas, pelos sindicalistas mas a Prefeitura mantinha funcionamento normal. Recebemos proposta de entrar no prédio para falar com o Prefeito e o fizemos, mas a conversa não foi amigável e descemos as escadas organizando as ideias, para não inflamar aquela comunidade – massa de trabalhadores – organizada em frente à Prefeitura contra a instituição. A polícia militar acompanhava aquela movimentação e nos ladeava. Assim subimos e descemos as escadas com um capitão de cada lado: o capitão Batista que dizia: “professora, veja bem o que a senhora vai dizer para essa gente”; e o capitão Rosário (que havia sido meu aluno no Ginásio de Alagoinhas) retrucava: “não se preocupe, ela sabe como vai falar”.

A explicação dada ao grupo falava em democracia, em respeito ao direito à divergência, naquela hora, mas não incluía o que verdadeiramente aconteceu no diálogo entre a sindicalista e gestor público. A explicação não convenceu os militantes, mas eles a aceitaram com boa vontade e continuaram a caminhada até a Praça Rui Barbosa, onde o grupo se dispersou.

No ano seguinte, surgiu a informação de que a abóboda da Estação São Francisco seria cortada e, nós incluímos essa discussão no 6º Encontro de Cultura e buscamos o Prefeito para se posicionar. Judélio foi ao Encontro de Cultura debater o tema, mas trouxe o Secretário de Cultura do Estado – José Carlos Capinam – que foi o primeiro Secretário de Cultura da Bahia e foi depois, conosco, ao Superintendente da Rede Ferroviária Federal – Dr. Lanat e, por essas intervenções e abaixo – assinado da comunidade, evitamos a mutilação da Estação São Francisco.

Em 1988, novamente, pela nossa procura para apoiar as atividades culturais sugeriu que pensássemos em um setor que cuidasse da cultura e nós pensamos numa Secretaria, preparamos um anteprojeto que ele recebeu, transformou em projeto e enviou para a Câmara, sem alterar uma vírgula. Criada a Secretaria, nos procurou para assumi-la e o grupo de articuladores da cultura indicou a Casa da Cultura para responder pela Secretaria na figura de sua presidente o que aconteceu. Era o último semestre da gestão dele e tivemos ainda uma grande realização que foi a participação na Feira do Interior e a vitória como a “Barraca mais típica da exposição”; e ele veio receber o troféu das mãos de dona Iolanda Pires – mulher do Governador Valdir Pires e com ele tomar licor de laranja feito com fruta própria da terra – seu orgulho declarado naquela época.

Em 1989, quisemos sua força de jornalista para a questão do Campus Universitário e lá estava conosco a recepcionar as autoridades que vieram da área educacional do Estado – Universidade e Secretaria, além da Secretaria de Agricultura e EBDA. E quando, em 1997, estávamos em campanha pela reitoria da UNEB, fora de Alagoinhas, recebemos uma ligação dizendo: “preciso de você aqui amanhã, para jantar com o Dr. Ronaldo, Diretor-Presidente da Ferrovia Centro Atlântica, pois conseguimos uma audiência para falar sobre a restauração da Estação São Francisco e não vou falar com ele sem a sua presença”. “Mas, Judélio, eu estou em campanha política pela Reitoria da UNEB”. “É um dia só e a sua cidade precisa de você aqui”. Eu larguei tudo lá, vim para o jantar que aconteceu no Horto Neanderthal e voltei, pela manhã, para Salvador. E perguntei-lhe: Judélio, como você me achou, se nosso grupo estava recolhido em um local preparando textos de campanha?”, e ele me disse: “Isso não posso revelar, faro de jornalista, fonte de informação não se revela”.

Aquele jantar aconteceu pela madrugada, pois a comitiva chegou depois de meia-noite e ele todo eufórico falava de Alagoinhas, da ferrovia, da Estação e do futuro. Das perspectivas que seu tino apurado pressentia. E empolgava quem ouvia porque ele demonstrava conhecimento do que abordava e sentimento forte por Alagoinhas. E destacava o meu trabalho, o meu exemplo para impressionar o Dr. Ronaldo que deixou comigo todos os seus números de telefone e me orientou a escrever sobre aquilo que expus oralmente, para formalizar o pedido de apoio à FCA e outras instituições que podiam ajudar na viabilização dos nossos propósitos. Por essa orientação, escrevi o texto “Alagoinhas e suas Ferroviárias”, para pedir apoio pela recuperação do patrimônio.  Esse o Judélio que quero guardar na minha memória, para sempre, como alguém que contribuiu grandemente para o desenvolvimento das questões culturais de nosso município.

Certamente que não só pelas ações que expus nesse texto, poderia falar de muitas outras coisas, mas no espaço que Maurílio reservou para mim não vai caber todas as lembranças. Enfatizo, por isso, o polêmico que alternava ações populares com impopulares, que, às vezes bancava o irresponsável, mas com noção exata do que era importante para Alagoinhas e tinha uma memória prodigiosa, lembrando nomes de pessoas, lugares e de episódios já remotos, o que o aproximava de todos à sua volta e impressionava quem o já conhecia..

Um ser político, indiscutivelmente. Um amante de Alagoinhas.

Iraci Gama é professora da UNEB, presidente da Fundação Iraci Gama, que atua para preservar a memória de Alagoinhas, ex-secretária de Cultura, Esporte e Lazer em três governos e ex-vereadora.

JUDELIO CARMO
Judélio assina termo de posse no primeiro dia de Fevereiro de 1973

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje