Bento XVI deve liberar Vatileaks para cardeais

Antes do conclave a ser realizado no mês que vem, os cardeais que elegerão o novo líder da Igreja Católica Romana terão acesso ao relatório oficial da investigação interna sobre o vazamento de documentos sigilosos do Vaticano, chamado de Vatileaks.

 

Segundo o jornal italiano La Stampa, antes que Bento XVI vá para Castelgandolfo, na tarde de quinta-feira, ele deve autorizar os três cardeais responsáveis pela investigação – Julian Herranz, Josef Tomko e Salvatore De Giorgi, que não participarão do conclave por já terem completado 80 anos – a divulgar o conteúdo de seu relatório, até agora mantido sob sigilo, para os outros cardeais.

Ou seja, após meses de suspeitas, ressentimentos e suposições, os cardeais eleitores finalmente conhecerão a versão oficial sobre o furto e a divulgação de documentos secretos do apartamento de Bento XVI, levado a cabo por seu ex-mordomo, Paolo Gabriele, que foi condenado à prisão e depois perdoado pelo pontífice. Gabriele havia afirmado que o motivo de suas ações foi revelar ao mundo – e ao papa – “o mal e a corrupção” que ele via dentro do Vaticano.

Segundo a Santa Sé, esse dossiê sobre o Vatileaks contém informações sobre disputas de poder e outros conflitos dentro da hierarquia da Igreja, mas não relata nada sobre escândalos sexuais ou chantagens.

Motivos. Antes do início do retiro espiritual da Quaresma, que o papa e a Cúria Romana encerraram hoje, o jornal da Santa Sé, L’Osservatore Romano, publicou em sua primeira página, no artigo O tempo do silêncio, declarações que Bento XVI havia feito a uma revista semanal alemã, dizendo que a decisão de renunciar não havia sido influenciada, de forma alguma, pelo furto de seus documentos secretos.

O autor dessa entrevista, o jornalista e escritor Peter Seewald – que já publicou três livros sobre Joseph Ratzinger, dois deles quando o atual papa ainda era cardeal, e agora prepara sua biografia, que deve ficar pronta no ano que vem -, havia perguntado no ano passado a Bento XVI o que o mundo ainda poderia esperar de seu papado. O líder católico respondeu que estava ficando muito velho e que já havia feito o suficiente. O comentário é considerado uma antecipação de seu plano de renunciar, já que ele citou o declínio de suas forças como motivo para a decisão, que anunciou no dia 11 deste mês.

De acordo com o jornalista alemão, o Vatileaks “não perturbou o papa nem o levou a sentir o peso de seu ministério, mesmo que ele tenha considerado todo esse caso incompreensível. Entretanto, para o papa foi importante que o caso fosse resolvido por um sistema de Justiça independente dentro do Vaticano, sem a interferência de um monarca”.

Transferência. O Vaticano negou ontem que a decisão de Bento XVI de transferir um importante membro da Igreja para um novo posto na América Latina tivesse alguma relação com o escândalo do Vatileaks.

A imprensa italiana, que desde o dia 11 publica rumores sobre conspirações, segredos e lobbies dentro do Vaticano que teriam provocado a renúncia do papa, sugeriu que a promoção do monsenhor Ettore Balestrero – um italiano que ocupa um cargo equivalente ao de um vice-ministro das Relações Exteriores – ao posto de embaixador da Santa Sé na Colômbia teria relação com algum escândalo ainda não revelado.

O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, afirmou que essas especulações são “absurdas, totalmente sem fundamento”. Ele também disse que a decisão foi tomada pelo pontífice há semanas e só foi anunciada agora porque a Igreja aguardava a aprovação do governo colombiano ao nome de Balestrero.

Bogotá é considerado como um dos postos de maior prestígio para um embaixador do Vaticano, pois é a sede do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam). Fontes: O Estado de São Paulo/REUTERS

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje