Autobiografia de um torturado

Exatos 43 anos atrás, no Dia de Tiradentes de 1970, perto das 19h30, Paulo Alves, 21 anos, óculos para miopia, 1,71m de altura, entrou com uma pastinha de plástico preto em uma padaria na esquina das Ruas Vilela Tavares e Dias da Cruz, no Méier, no subúrbio carioca. Recostado ao balcão, depois de pedir um guaraná e, ironicamente, um sonho, preparou-se para esperar alguém que logo deveria chegar ao ponto de ônibus a alguns metros dali, para tratar de assunto urgente. Perto dele, um homem passado dos 30 o observava. Em frente, alguns rapazes – barbudos, cabeludos, de bermudas – conversavam, animados, em uma sorveteria, parecendo aproveitar o fim do dia sem trabalho para relaxar. Subitamente, porém, todas essas fantasias se desfizeram: o grupo atravessou a via às pressas, Alves tentou pegar algo na pasta, o homem que o olhava lhe deu uma gravata por trás gritando: “Tá em cana!”. E as coisas começaram a acontecer muito rapidamente para todos.

Primeiro, o preso, impossibilitado de tirar da pastinha a pistola Colt 45 que carregava, com um golpe de judô – era campeão brasileiro juvenil do esporte – jogou sobre o ombro o homem que o agarrara, o major Moacir Fontenelle, que desabou sobre o balcão. Os tais jovens – todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército – atacaram o preso com coronhadas de fuzil, socos e pontapés. E Alves – nascido Cid de Queiroz Benjamin, um dos guerrilheiros mais procurados do País, chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) – lutou, segundo seus captores (cujas ordens eram pegá-lo vivo), por 20 minutos. No fim, coberto de sangue, foi jogado em um carro, algemado e levado em meio a gritos de vitória dos repressores. Para trás ficou a padaria destruída e um agente com dentes quebrados, socorrido no Hospital Central do Exército (HCE).

A cena abre Gracias a la Vida, autobiografia em que Cid, hoje jornalista, professor e escritor, acaba de dar o ponto final. Nela, o ex-guerrilheiro, um dos fundadores do PT e atualmente crítico duro do partido e seus governos, se dedica a “mexer em casas de marimbondos” enquanto recorda sua vida e reflete sobre a política, atacando crenças da esquerda – algumas opostas a outras. “Vou levar porrada de todo lado”, diz, entre divertido e conformado, ao lembrar sua trajetória sob a ditadura militar (1964-1985), quando participou do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick. “Vou levar porrada do Tortura Nunca Mais; vou levar porrada dos marighellistas; vou levar porrada das viúvas da luta armada; vou levar porrada dos prestistas; vou levar porrada do PT; e vou levar porrada do PSOL.”

Em tempo de Comissão da Verdade, uma das “casas de marimbondo” em que Cid mexe é a sua constatação de que a tortura, que sofreu durante seu primeiro período no DOI, no quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, não foi praticada apenas por psicopatas sádicos e jovens militares extremistas da Guerra Fria, mas também por cidadãos “normais”. Eram bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, mas que tinham no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua “rotina” profissional – impossível não lembrar a descrição de burocrata banal feita por Hannah Arendt (1906-1975) para o criminoso nazista Adolph Eichmann (1906-1962). Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor, embora não deixassem, claro, de fazê-las sofrer mais.

“Não quero que pareça que estou humanizando o torturador. O fato de um ou outro torturador não ser um monstro é mais grave: pessoas normais são capazes de torturar”, diz Cid, tão torturado no DOI que reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima.

Polêmico? Pois fica ainda mais quando Cid se recorda no livro de um oficial do DOI, cujo nome preserva, que, em 17 de junho de 1970, no avião que levava para Argel os 40 presos políticos libertados em troca do embaixador Ehrenfried Von Holleben, da Alemanha Ocidental, sequestrado pela guerrilha urbana, sentou-se a seu lado. Em certo momento, disse mais ou menos o seguinte: “Você viu que não participei dos teus interrogatórios. Sou muito violento e gostei de você. Eu te respeito”. Já na capital argelina, outro ex-preso, Apolônio de Carvalho, do PCBR, cuja bravura no enfrentamento dos verdugos era venerada na guerrilha, contou-lhe outro episódio envolvendo o mesmo oficial. Um dia, ele quis tirar Apolônio da cela para algo que era proibido para os presos: um banho de sol de uma hora.

“Você é mais velho, está machucado, e eu respeito a tua coragem”, disse o torturador, antes que o dirigente do PCBR, diante da informação de que só ele teria o benefício, recusasse o privilégio. Para o autor, o gesto do militar era sinal claro de admiração pela coragem de Apolônio, típica da formação militar (o pai de Cid era do Exército). “Como se (o torturador) dissesse: ‘O cara é inimigo, se for o caso vou matá-lo, mas eu o respeito.”

Cid avalia que, quando foi preso, o sistema de repressão ainda não se profissionalizara totalmente. Isso permitia que se desenvolvessem relações pessoais entre torturadores e alguns torturados, uma espécie de elite dos presos políticos. “Era o cara que vinha e dizia: ‘Olha, você é um cara legal, não vou perguntar nada que leve à prisão de alguém. Tudo bem?’”, narra ele. Havia ainda recrutas que conversavam com os presos e identificaram torturadores pelos nomes.

O ex-guerrilheiro também surpreende ao falar do médico Amilcar Lobo, que participou das torturas e foi demonizado pelas esquerdas. “Considero que, nessa ocasião, nossa postura em relação a Lobo foi errada politicamente, além de ter sido desumana”, diz, no livro. “Houve algo de vendeta em nosso comportamento. Lobo já era um farrapo e, ainda assim, foi acossado. Teria sido mais humano, e mais produtivo do ponto de vista de se desvendar o que aconteceu nos porões da ditadura, se lhe houvéssemos estendido a mão, compreendêssemos sua angústia e o amparássemos.” Isso apesar de ter tido pontos na cabeça costurados sem anestesia pelo médico – no DOI, Dr. Carneiro -, que também lhe administrou pentotal na tentativa de fazê-lo abrir informações.

“Os torturadores devem ser punidos”, insiste Cid. “Eu numa boa anistiaria quem me torturou. Só não anistiaria porque o futuro da tortura está ligado ao futuro do torturador. É uma questão política, não pessoal.”

Não que o jornalista releve tudo. No livro, ele recorda que em 1989, no segundo turno das eleições presidenciais, bebia com amigos no Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio, e precisou ir ao banheiro. Lá, no mictório, encontrou o policial Luiz Timóteo, torturador que se jactava de dar choques nos pênis dos presos. Dezenove anos antes, submetera o autor ao tratamento.

“Ficamos os dois, lado a lado, no mictório. Não havia mais ninguém. Olhei fixamente para seus olhos e perguntei: ‘Está lembrado de mim, Timóteo? Sou o Cid.’

‘Estou, sim’, ele respondeu, visivelmente receoso do que eu pudesse fazer.

‘Quem diria, hein. Você cansou de me dar choques no pau e, agora, o Lula vai ser eleito presidente da República.’

‘Vamos ver, vamos ver’, disse, cauteloso.

‘As coisas mudam, não é?’, retruquei, antes de voltar para a minha mesa.”

Para as “viúvas da luta armada”, Cid reservou uma avaliação de que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Mas não deixou de admitir que o sequestro de Elbrick foi um “gol de placa”. E revela detalhes novos sobre o caso. Em meio à ação, conta, recebeu o apoio do pai, o oficial do Exército da reserva Nei Benjamin, janguista não ativo, que lhe enviou sua pistola de oficial, com a numeração raspada. Depois, quando foi preso (e, mais tarde, seu irmão César), Nei usou seus contatos militares para ajudá-los. Furtou na Bahia uma ficha que comprovava a prisão de César e, quando Cid estava no Dops, apoiou-o quando resistia a assinar depoimentos, dizendo-se orgulhoso de seu comportamento.

A recusa mandou Cid para a solitária, o “ratão”, cela estreita, onde só podia dormir na diagonal e à qual voltou mais de 30 anos depois, para fotografias. Mesmo preso no Dops, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca de Holleben (recebeu o pedido de nomes em um maço de cigarros). Já esperava o sequestro – o MR-8 preparava a ação, que acabou executada pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No exterior, passou nove anos e três meses por Argélia, Cuba (onde treinou guerrilha), Chile (de onde saiu depois do golpe), México e Suécia.

Assumidamente emocional, Cid revela no livro que chorou no dia do último comício de Lula em 1989 e de novo no dia da posse do presidente, em 2003, embora àquela altura já não acreditasse no velho PT. Poucos anos depois, porém, ao investigar o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, e obter informações que levavam a um esquema de corrupção ligado ao partido e a outros homicídios, não reconheceu o partido que ajudara a construir.

“Contei a dois amigos de confiança – ambos do PT, diga-se – o que tinha apurado”, relata, no livro. “Eles ficaram estupefatos. De um deles veio a sugestão: que eu gravasse as informações em CDs, os distribuísse para amigos, deixando claro que, se me acontecesse algo estranho – como morrer em um assalto na rua, por exemplo – as informações viriam à tona. Um terceiro amigo, também do PT, tinha audiência com um ministro todo-poderoso daí a alguns dias. Pedi que ele lhe desse o recado, o que foi feito (…) Não deixou de ser surpresa quando soube que a resposta tinha sido: ‘Tudo bem’. Confesso que esperava algum tipo de protesto. A advertência que fiz era também uma insinuação.”

Cid ressalta que não acredita em participação da cúpula do PT nos homicídios. Faz, porém uma impiedosa crítica ao partido.

“O PT diz que seus governos são melhores que os anteriores. É verdade”, afirma. “Mas não contribuem para a transformação social.” Para Cid, durante os governos petistas “a política se avacalhou mais”. “Mesmo o pessoal que vota na Dilma tem uma percepção pior da política, de malandragem, de sacanagem… O ciclo do PT pode ter se esgotado”, analisa o agora militante do PSOL.

Fonte: O Estado de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje