As ruas e os sinais – Janio de Freitas

Quem era jovem ou moço na altura em que se processou a redemocratização desde então viveu sua cidadania em um tempo sem apelos à militância das ruas, do cara a cara com a polícia. Até aqui foram 30 anos, mais ou menos, em que uns poucos embates eleitorais, escândalos de corrupção e desatinos da economia bastaram para impedir a percepção de que o país viveu, na verdade, uma calma de mais de um quarto de século.

Daí vem uma diferença essencial de vivências entre aquelas gerações e os sobreviventes das anteriores, vividas sob uma democracia tumultuosa até 1964 e depois sob a ditadura. Diferença que é a provável explicação para o contraste observável, nitidamente, entre as maneiras de ver as recentes manifestações de massa, pelos que estão até a meia idade e pelos mais velhos. Ainda que sem diferença no apoio às manifestações.

As passeatas têm recebido designações como fenômeno social, ou político; marco de uma nova maneira de militância política, sem partidos e sem lideranças próprias; e introdução da democracia direta, entre outras inovações. São dadas também como conquistas irreversíveis, a partir das quais o Brasil nunca mais será o mesmo. Pois, como escreveu uma ilustre articulista carioca, “tomamos posse da nossa política”.

Assim se expressa nos jornais e na internet o consenso dos que experimentam o contato inicial com um movimento de insubordinação caudalosa. A origem de tudo? Nesse ponto o consenso apenas seguiu a regra, já bem consolidada entre nós, de superestimação da juventude como valor em si mesma. Todo o fenômeno foi revelado e prosseguirá como obra da juventude.

Nesse consenso podem estar verdades absolutas ou premonições admiráveis. A confirmação, ou não, compete ao tempo.

A recepção das gerações mais velhas às manifestações, sem ser comedida e muito menos reticente no apoio, mostrou-se como uma espécie de naturalidade diante de outra naturalidade. Já porque, embora não pareça, foram jovens e, quando jovens, viveram tempos de todos os tipos de manifestações em um Brasil permanentemente revolto, dividido, desorientado. E, ainda mais do que por sua juventude íntima da agitação sonhadora e indignada, pela persistente resistência deste país a mudanças. Vinte e um anos de ditadura dizem muito a respeito. Vinte e oito anos de democracia que não sai dos primórdios dizem o mesmo ou mais.

O Brasil já deu motivo a todo tipo de manifestação pública. Até com um aspecto curioso: nenhum deu mais motivo a agitações fortes do que os preços de passagens. Nem as fases de desabastecimento, a falta sistemática de água ou de luz, a miséria inqualificável das favelas de então –nada, no século passado, causou mais manifestações urbanas, quase sempre com quebra-quebras formidáveis, do que os aumentos de passagens.

No Rio, além dos trens, ônibus e bondes comuns a outras cidades, as barcas Rio-Niterói foram causa de manifestações e de tumultos violentíssimos. Nem a ferocidade da ditadura venceu a idiossincrasia vinda ainda do Império. Os trens da Paulista também conquistaram a honra histórica de encher as ruas de manifestantes e de policiais.

O que deslumbra nas passeatas da juventude atual não lhes tira, portanto, certo compromisso com a tradição. Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, como legítimos representantes do Brasil que não muda, emitiram um sinal também de tradição. Esperemos que as ruas não parem nos sinais.

Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na versão impressa do caderno “Poder” aos domingos, terças e quintas-feiras.

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje