A ministra, a “mídia boa” e o combate à corrupção

Ernesto Marques

Foi preciso fazer um tremendo esforço para levantar de uma confortável poltrona do teatro Eva Herz, na livraria Cultura. Estava encantado com a fala incisiva e ao mesmo tempo plácida de Mãe Stella. Mas um alarme programado para as 13h30 lembrou do compromisso das 14h: ouvir a ministra Eliana Calmon, o promotor federal Sidney Madruga, a jornalista e professora Malu Fontes e Marco Antônio Vila, historiador, sobre o combate à corrupção na política em evento na sede do MPF. Somados, o atraso inicial e a necessidade de sair antes do engarrafamento me subtraíram a oportunidade de ouvir Malu e Vila.

Madruga é a personificação do excesso de formalismo que Eliana cutucou em sua fala. Criou dificuldades para Lídice por ter dito numa entrevista em janeiro de 2010, que desejava candidatar-se ao Senado. É um servidor exemplar, extremado no rigoroso no cumprimento de suas funções. Mal comparando, um verdadeiro Lineu. A mulher corajosa que falou nos “bandidos de toga” sabe que o mesmo formalismo de que se arma o tenaz promotor Madruga, é meio igualmente eficiente para quem atua no “mercado” de decisões e pareceres.

Como o tema enseja inúmeros debates, concentro-me noutros pontos despercebidos na pouca cobertura que teve o evento. Primeiro, o escopo, definido no seu título: combate à corrupção na política (grifo meu). Entendo ser essa, uma forma reduzida de angular o combate à corrupção, de fato. Mais ainda se entendermos como locus da atividade política tão somente os espaços aos quais se ascende pela via eleitoral, ou a partir dela. Como se não se fizesse política – em sentido mais elevado e não partidário – no dia a dia dos promotores, juízes e jornalistas. Serve muito pouco à nossa caminhada civilizatória, alimentar uma ideia maniqueísta, segundo a qual toda virtude está fora da atividade política em seu sentido mais estreito, e toda virtude fora dela. A imprensa, por exemplo, guarda em sua história, exemplos pouco dignificantes do exercício profissional e empresarial em favor de causas menos edificantes ainda.

Certamente não foi por acaso que a ministra, depois de se referir à “mídia” de forma geral, fez a ressalva ao destacar “a mídia boa” como parceira indispensável das instituições de controle no combate a essa chaga que é a corrupção. Ora, se existe uma boa, por certo haverá, sob o raciocínio de Calmon, uma mídia não boa, ou simplesmente má. Onde está? Quem a gerencia e alimenta?

Seria parte da mídia má, o Estado de São Paulo, impedido pelo Tribunal de justiça do Distrito Federal e Territórios, em meados de 2009, de falar sobre nomeações de parentes do suprasenadorpresidente Sarney em atos secretos? Ou haveria ali uma justiça não boa, representada pelo autor da decisão, ex-consultor jurídico do Senado e atual desembargador do TJDFT? Dácio Vieira é gente da copa e da cozinha do Matusalém donatário da capitania do Maranhão, a quem deve sua incrível ascensão no Judiciário. Diferente da nossa ministra, que chegou lá por seus méritos, embora não negue ter se socorrido da força de Edson Lobão, Jader barbalho e ACM para ser indicada ao STJ.

Era piada no meio jurídico a existência de três tipos de justiça, no Brasil: a boa, a má e a da Bahia. Eram os tempos terríveis em que ACM, manietava o Judiciário, submetia o Legislativo com a lealdade canina de sua bancada e governava com e para os amigos, quer fosse ele mesmo o mandatário, quer quando, dos seus dedos partiam os cordões com os quais dava ordens às mãos de seus dóceis vassalos, eleitos como se postes fossem. E ainda tinha o império midiático da família para dar ares de verdade às suas versões sobre as coisas da Bahia.

A dinâmica do evento só permitia da plateia, aplausos. Nada mais. Sem chance de questionar, guardei a dúvida sobre a “mídia boa”. Quem é ela e quem é a outra? Quem arbitra empresas jornalísticas e profissionais que pertencem a uma ou outra mídia? Continuo convicto dos riscos de delegar a togados – bandidos ou não – o poder de distinguir qual é a “mídia boa”. Com todos os riscos, prefiro o julgamento do distinto público, destinatário final dos nossos escritos. A imprensa não tem que ser justa, tem que ser livre – e obviamente responsável pelo uso que fizer dessa liberdade. Quem tem que ser justa é a Justiça. Humanos como somos nós, jornalistas, juízes e juízas são susceptíveis a todo tipo de fraqueza. A lição de humildade que nos ensina sabiamente Mãe Stella, reverberada nos terreiros do Candomblé, é remédio para muitos males da vida. Serve também para combater a corrupção, desde a nossa casa, até os espaços de poder.

Ernesto Marques

Jornalista

Exclusivo para Alagoinhas Hoje 

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje