A insatisfação na internet é real e não deve ser ignorada – Ronaldo Lemos

Lição para governantes brasileiros: não ignorem a internet. As manifestações demonstram que por trás de cada “xingar muito no Twitter” existe alguém com insatisfações reais. Quando ignoradas por muito tempo, basta um estopim para as pessoas se organizarem.

As demandas das ruas já eram visíveis na rede, ainda que dispersas. As manifestações marcam o momento em que a internet não pode mais ser tratada como “perfumaria”. A rede tornou-se parte inelutável da nova opinião pública expandida.

Foi o que aconteceu. A rede tomou as ruas. As manifestações da semana do dia 17 pareciam a timeline do Facebook materializada. Uma hora vinha o grupo da diversidade sexual, depois o da reforma política, o da corrupção e assim por diante. Todos com agendas próprias, muitas contraditórias.

Por conta disso, muita gente voltou para a rede dizendo que vai “bloquear quem falar sobre o assunto X ou Y”. Nada mais errado. É nesse momento de tensão social que é necessário ouvir opiniões divergentes. O Facebook, por natureza, já nos oferece nossa própria imagem.

Bloquear quem pensa diferente significa rompimento e radicalização. O todo misturado divide-se em grupos homogêneos, que se fecham para o diálogo.

É algo que começa a ocorrer nas próprias ruas. As passeatas “timeline” estão ficando para trás e vários protestos agora são feitos por grupos específicos. A divisão nas ruas é profecia de divisões na rede (a “balcanização” on-line é um fenômeno que já acontece globalmente).

O fato é que há insatisfação geral com os “termos de uso” do sistema político. A mesma tecnologia que colocou milhares nas ruas pode aperfeiçoar a participação pública. A sociedade já se comunica em rede. Só os governos não escutam.

Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV e do Creative Commons no Brasil. É professor titular e coordenador da área de Propriedade Intelectual da Escola de Direito da FGV-RJ. Foi professor visitante da Universidade de Princeton. Mestre em direito por Harvard e doutor em direito pela USP, é autor de livros como “Tecnobrega: o Pará Reiventando o Negócio da Música” (Aeroplano). Escreve às segundas na versão impressa de “Ilustrada”.

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje