A crise de identidade interna petista – Bruno Lima Rocha

As eleições diretas para todas as instâncias do Partido dos Trabalhadores apresentam os dilemas da crise de identidade. O direito a participação interna foi reinterpretado como um mecanismo de controle, conforme as evidências. Os números, trazidos à tona através de denúncia dos candidatos derrotados à presidência, Valter Pomar (Articulação de Esquerda) e Markus Sokol (O Trabalho), afirmam o conceito de exército eleitoral de reserva.

Em 2009, foram 510 mil eleitores e no domingo (10/11), apenas 480 mil de um universo de 806 mil. Curioso foi o aumento dos capacitados a voto. Segundo consta em matéria de O Globo (11/11/13), as mensalidades de 311 mil filiados foram pagas no último dia de habilitação. Ainda assim o comparecimento diminuiu.

No jargão de esquerda, esta manobra resulta na formação de “boiada”. Gente com baixa politização e arregimentada para um propósito único. No caso, a alegação das correntes derrotadas, o motivo seria reeleger Rui Falcão, apoiado por Lula e o Campo Majoritário.

Fica assegurado o controle do diretório nacional para uma prática que leva a intervenções em estados que não cumpram com as obrigações táticas na montagem das alianças eleitorais. Em suma, segundo a “esquerda” petista restante, perde espaço na política partidária, diminuindo a existência autônoma da sigla.

Quando fundado, a maior legenda reformista da América Latina vinha tanto de uma crítica ao stalinismo como rejeitava as organizações de vanguarda. O lema era construir um partido de massas, mas com democracia interna e direito a formação de tendências semi-autônomas.

Na esteira da redemocratização do país, o PT torna-se a hegemonia da década de ’80, acumulando os frutos do novo sindicalismo (denominado de autêntico) e deixando em segundo plano as antigas legendas que compunham o bloco pelego-sindical, como PCB e PC do B.

Uma década no Planalto e o desvio tornou-se característica. Seria leviano afirmar que toda a militância petista resume-se a sanha por cargos e posições nos governos e gabinetes. Ao mesmo tempo, não se pode dizer que a legenda continua à esquerda da política e a serviço das causas populares que motivaram sua fundação.

Ao que parece, a vocação para o poder dentro dos marcos da democracia representativa e do Estado capitalista, reorganizou as mentalidades, esvaziando a vida interna das correntes, reforçando os caciques. Assim, o dirigismo tão combatido na década de fundação, torna-se o padrão de comportamento, mesmo para a “esquerda” do partido.

Bruno Lima Rocha é cientista político.
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@gmail.com)

Fonte: Blog do Noblat 

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje