Waldir Pires no debate com Nelson Sampaio sobre o primeiro ano do governo Balbino – Maurílio Lopes Fontes


O primeiro ano do governo Antônio Balbino (7 de abril de 1956) foi submetido a um amplo escrutínio na Assembleia Legislativa.

Obras, estradas, agricultura, funcionalismo, tributação, gastos públicos e até a maneira como o governo divulgava suas realizações entraram no debate.

No centro da crítica estava o deputado Nelson Sampaio (foto). Entre os parlamentares que contestaram seus argumentos estava Waldir Pires.

O registro publicado no Diário da Assembleia de 3 de maio de 1956 (ver abaixo) preserva o confronto.

O próprio documento informa que se tratava da continuação de discurso iniciado por Nelson Sampaio na sessão de 25 de abril.

O objeto principal de sua análise era a mensagem em que Balbino apresentava à Assembleia um balanço de sua administração.

Nelson Sampaio construiu sua intervenção a partir de uma crítica abrangente. Para ele, a mensagem não se limitava a prestar contas dos atos governamentais.

Havia nela, segundo argumentava, exageros, imprecisões e uma linguagem destinada a exaltar a administração.

O deputado questionou também a utilização da Imprensa Oficial e de publicações destinadas à divulgação das realizações do governo.

É nesse ponto que Waldir Pires aparece pela primeira vez de maneira mais significativa no debate.

Ao ouvir a crítica de Nelson Sampaio à publicação de obras e realizações administrativas, Waldir discordou: “Não vejo nisso nenhum mal.”

E explicou a razão. Para ele, aquelas páginas continham o anúncio de obras públicas realizadas e informações sobre a situação administrativa do Estado.

A divergência parecia pequena, mas revelava uma questão política relevante: onde terminava o dever de informar e começava a propaganda governamental?

Waldir não sustentou que qualquer modalidade de propaganda oficial fosse aceitável. Ao contrário, recordou que a própria Assembleia já havia condenado determinados métodos utilizados pelo governo.

Sua objeção era outra: não se poderia transformar a simples divulgação de obras e ações administrativas em prova de uso indevido da máquina pública.

Era uma distinção importante. Da propaganda para o conteúdo da administração.

Nelson Sampaio prosseguiu examinando a linguagem da mensagem. Considerava excessivos alguns dos adjetivos empregados e ironizava a maneira como o governo apresentava suas realizações.

Outros deputados passaram a participar do confronto, entre eles Antônio Carlos, Wilson Lins, Marques Chagas, João Borges e Oldack Neves.

Waldir voltou a intervir.

Em determinado momento, diante das críticas dirigidas à linguagem empregada pelo governador, afirmou que Nelson estava sendo inexato e observou que os objetivos das manifestações em discussão eram diferentes.

Quando o oposicionista intensificou a ironia contra Balbino, Waldir reagiu novamente, lembrando a origem popular do governador.

A intervenção é reveladora porque Waldir não procurava apenas defender números administrativos. Havia também uma reação ao tratamento político dispensado a Balbino.

Mas o momento mais interessante viria quando a discussão avançou para o conteúdo concreto da mensagem.

Nelson Sampaio pretendia demonstrar que existiam discrepâncias entre a propaganda e aquilo que efetivamente havia sido realizado.

Waldir, por sua vez, insistia para que a controvérsia chegasse aos fatos.

Depois de Nelson voltar a mencionar os folhetos governamentais que criticava, Waldir o interpelou: “Afinal, qual é a análise que V. Excia. vai fazer, para que entremos na polêmica do assunto?”

A frase ajuda a compreender a posição assumida por Waldir naquele debate.

Não bastava, para ele, discutir os adjetivos da mensagem ou a apresentação pública das realizações. Se a oposição sustentava que o balanço governamental era inexato, deveria confrontar seus dados.

Nelson aceitou o desafio e respondeu que passaria à mensagem, embora insistisse que os folhetos apenas reforçavam os exageros e as hipérboles que identificava no documento.

A discussão entrou, então, em terreno mais objetivo.

As estradas transformaram-se num dos principais pontos de confronto.

Nelson Sampaio questionava os números apresentados pelo governo para a construção e recuperação da malha rodoviária.

A discussão passou a distinguir quilômetros de estradas novas, trechos recuperados, pavimentação e asfaltamento. Antônio Carlos participou intensamente dessa parte do debate, assim como outros parlamentares.

O plenário praticamente passou a conferir as contas da mensagem.

Nelson procurava demonstrar que os números não sustentavam a dimensão atribuída pelo governo às realizações.

Os defensores da administração contestavam sua interpretação e discutiam o significado dos dados apresentados.

Waldir tentou intervir durante uma dessas contas. Nelson inicialmente pediu que aguardasse porque estava concluindo o raciocínio.

Quando finalmente recebeu o aparte, Waldir sintetizou em poucas palavras o objetivo de sua intervenção: “Negar as inexatidões do discurso de V. Excia.” A formulação merece atenção. Waldir não se limitava a declarar apoio ao governador.

Invertia a acusação. Se Nelson apontava inexatidões na mensagem de Balbino, Waldir sustentava que havia inexatidões também na argumentação construída para atacá-la.

Era uma disputa sobre a interpretação dos fatos e sobre quem poderia reivindicar para si a consistência dos números.

O debate não terminou nas estradas. Nelson Sampaio avançou sobre outros setores da administração. Agricultura, funcionalismo, despesas públicas, tributação e diferentes iniciativas do Executivo apareceram sucessivamente em seu discurso.

Em determinado momento, a própria comparação com o governo anterior, de Régis Pacheco, tornou-se objeto de controvérsia.

Nelson acusava Balbino de criticar o antecessor enquanto procurava valorizar seus próprios resultados. Outros deputados contestavam essa leitura.

Ao final, Nelson manteve a essência de sua acusação. Para ele, a mensagem governamental era marcada por “imprecisão”, “inexatidão” e “equívoco”.
A extensão do debate mostra que não estava em jogo apenas um documento administrativo.

A mensagem do governador havia se convertido em terreno para uma disputa política mais ampla sobre o significado do primeiro ano do novo governo.

E é exatamente nesse contexto que deve ser compreendida a participação de Waldir Pires.

Waldir não é o parlamentar que mais fala nessas páginas. Seria incorreto transformar seus apartes em protagonismo que a documentação não sustenta.

Nelson Sampaio conduz o discurso e outros deputados, particularmente Antônio Carlos, têm participação extensa no confronto.

Mas a posição de Waldir é inequívoca. Ele está entre os parlamentares que fazem a defesa do governo Balbino. E sua maneira de fazê-la merece atenção.

Waldir não responde à longa intervenção oposicionista com um elogio genérico ao governador.

Seus apartes procuram identificar pontos determinados da argumentação de Nelson: a diferença entre propaganda e divulgação administrativa, o emprego político dos adjetivos, a interpretação dos números e, principalmente, a necessidade de confrontar as acusações com aquilo que efetivamente constava da mensagem.

Há uma preocupação recorrente em obrigar o debate a chegar ao mérito.

A frase – “Afinal, qual é a análise que V. Excia. vai fazer, para que entremos na polêmica do assunto?” – talvez seja a melhor síntese dessa postura.

Ela mostra um parlamentar interessado em deslocar a discussão da ironia para a controvérsia substantiva.

Isso ganha significado quando observado no contexto mais amplo daqueles primeiros anos da trajetória parlamentar de Waldir Pires.

Ele havia chegado à Assembleia em 1955 e participava de debates decisivos sobre os rumos da Bahia, num período em que o governo Balbino procurava introduzir novos instrumentos de planejamento e desenvolvimento econômico no Estado.

As discussões sobre a Comissão de Planejamento Econômico, a CPE, e sobre a criação do Banco de Fomento do Estado da Bahia, das quais Waldir também participou, pertenciam ao mesmo ambiente político: a tentativa de dotar o Estado de instrumentos capazes de intervir de maneira mais planejada no desenvolvimento baiano.

Por isso, o debate de 1956 não deve ser lido isoladamente.

Ele permite observar Waldir Pires no exercício cotidiano do mandato, no confronto direto com a oposição e na defesa de um governo ao qual estava politicamente vinculado, mas sobretudo em torno de uma questão que atravessaria sua trajetória pública: a exigência de que o debate político pudesse ser submetido ao exame dos fatos.

Nas páginas do Diário da Assembleia, entre apartes, números, ironias e contestações, é possível acompanhar um pouco da formação daquele estilo parlamentar.

Nelson Sampaio fez do primeiro ano de Balbino objeto de um duro confronto parlamentar.

Waldir Pires participou dele sem recorrer a uma defesa protocolar do governo. Preferiu enfrentar as críticas onde elas poderiam ser confirmadas ou desmentidas: nos fatos, nos números e nas realizações.

É nesse terreno que sua presença naquele debate de 1956 adquire relevância histórica.





Comentário: Não há, no site da Assembleia Legislativa, foto do deputado Waldir Pires jovem. A foto do deputado Nelson Sampaio publicada neste artigo foi extraída do site da Assembleia Legislativa.

Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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