Deputado Waldir Pires em defesa de Rômulo Almeida, secretário da Fazenda do governo Antônio Balbino – Maurílio Lopes Fontes

Deputado respondeu às críticas feitas por Clemens Sampaio ao secretário da Fazenda e reconstruiu, da tribuna, a trajetória de Rômulo Almeida no serviço público brasileiro

Em 21 de junho de 1956, Waldir Pires ocupou a tribuna do parlamento estadual para fazer a defesa de Rômulo Almeida (foto).

Não se limitou a contestar as críticas dirigidas ao então secretário da Fazenda do governo Antônio Balbino.

Preferiu percorrer sua trajetória profissional e política, como se os cargos exercidos e os trabalhos realizados por Rômulo constituíssem, eles próprios, a resposta às acusações.

O discurso, publicado em sua versão retificada no Diário da Assembleia Legislativa da Bahia de 11 de julho daquele ano (ver abaixo), tinha endereço certo.

Waldir respondia ao deputado Clemens Sampaio (foto), que havia feito críticas ao secretário.

Havia no episódio uma circunstância política que merece ser ressaltada: Rômulo Almeida e Clemens Sampaio pertenciam ao PTB. A controvérsia, portanto, demarcava questões internas do partido.

Waldir iniciou sua argumentação recuperando a vida profissional de Rômulo.

Recordou sua passagem pelo Acre, os trabalhos realizados no Ministério do Trabalho, a atuação na Confederação Nacional da Indústria e outras funções exercidas antes de chegar ao núcleo de assessoramento econômico do governo Getúlio Vargas (1951-19154).

A cada referência, Waldir procurava demonstrar que o homem atacado na Assembleia já possuía uma extensa folha de serviços prestados à administração pública e à formulação econômica brasileira.

Esse percurso levaria Rômulo Almeida a uma posição decisiva no segundo governo Vargas.

Como chefe da Assessoria Econômica da Presidência da República, coordenou uma equipe que trabalhou na formulação de alguns dos principais projetos econômicos daquele período. Entre eles estava o projeto que resultaria na criação da Petrobras.

A participação de Rômulo nesse processo precisa ser registrada com precisão.

A Petrobras não foi obra individual de um técnico ou de um assessor. O projeto nasceu do trabalho de uma equipe e de uma decisão política do governo Vargas.

Rômulo, entretanto, ocupava posição central nesse núcleo de formulação.

Estudos sobre a história da questão do petróleo no Brasil o identificam como um dos principais responsáveis pela redação do projeto enviado ao Congresso.

A Assessoria Econômica trabalharia também em questões relacionadas à energia, ao desenvolvimento regional e à criação de instituições que teriam papel importante nas décadas seguintes.

Nesse ambiente, Rômulo consolidou uma concepção de desenvolvimento na qual planejamento, conhecimento técnico e ação do Estado estavam estreitamente associados.

Waldir conhecia essa trajetória e fez dela o núcleo de sua intervenção.

Seu argumento era simples e politicamente forte: antes de se lançar uma acusação contra Rômulo Almeida, era preciso confrontá-la com a vida pública do homem que estava sendo acusado.

Por isso, ao mencionar os diferentes postos ocupados por Rômulo, Waldir não pretendia apenas produzir uma biografia resumida do secretário. Estava construindo uma defesa.

O discurso ganha maior densidade justamente nesse ponto.

Waldir desloca a discussão da divergência política para outro terreno: o da responsabilidade de quem acusa.

E desafia Clemens Sampaio a apresentar elementos capazes de comprometer a correção moral ou funcional de Rômulo Almeida.

Era uma maneira de estabelecer um limite para o confronto parlamentar. Divergências administrativas e políticas eram legítimas. Acusações contra a conduta de um homem público exigiam provas.

A defesa feita por Waldir também permite observar a proximidade política entre os dois naquele momento.

Rômulo havia sido eleito deputado federal pela Bahia em 1954 pelo PTB e chegara à vice-liderança da bancada do partido na Câmara dos Deputados.

Em abril de 1955, afastou-se do mandato para assumir a Secretaria da Fazenda no governo Antônio Balbino.

Na Bahia, sua presença no governo estava associada ao esforço de reorganização da administração estadual e de introdução do planejamento como instrumento permanente de governo.

É nesse contexto que aparecem a Comissão de Planejamento Econômico e outras iniciativas às quais seu nome ficaria ligado.

Mas esse não é o centro do discurso de Waldir em junho de 1956.

O que torna aquele pronunciamento particularmente revelador é a escolha feita pelo deputado para defender Rômulo.

Waldir poderia ter respondido apenas às questões administrativas levantadas por Clemens Sampaio. Poderia ter defendido o governo Balbino ou discutido isoladamente os atos da Secretaria da Fazenda.

Fez algo diferente. Reconstituiu a trajetória do secretário.

Do Acre à administração federal, da CNI à Assessoria Econômica de Getúlio Vargas, dos grandes projetos nacionais ao retorno à Bahia, Waldir apresentou uma sequência de responsabilidades públicas para sustentar sua argumentação.

Vista quase sete décadas depois, essa parte do discurso adquire interesse adicional.

Alguns dos projetos aos quais Rômulo esteve ligado deixaram de ser apenas propostas de governo e passaram a integrar a estrutura econômica brasileira.

A Petrobras é o exemplo mais evidente.

Waldir estava participando de uma disputa política e respondendo a um correligionário do PTB. Seu discurso precisa ser lido dentro dessas circunstâncias.

É justamente por isso que o documento é tão significativo.

Naquela sessão, Waldir Pires não pediu que Rômulo Almeida fosse poupado da crítica política. Propôs outra coisa: que a crítica fosse sustentada por fatos.

E, para responder às acusações que haviam chegado à tribuna, colocou diante da Assembleia aquilo que considerava a melhor defesa do secretário: a própria trajetória de Rômulo Almeida no serviço público brasileiro.




Waldir Pires (1926-2018)
Rômulo Almeida (1914-1998)
Clemens Sampaio (1924-2013)

Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

Menu de Topo