Por que as redes sociais estão morrendo e a internet está uma caca – Lúcia Guimarães

O termo “merdificação” circula há algum tempo no hemisfério norte como “enshittification”, em inglês. Foi cunhado pelo canadense Cory Doctorow, autor de um livro detalhando como a internet está uma caca só.

No último fim de semana, o rei da titica Elon Musk deu nova contribuição para o fedorento status quo, atualizando a plataforma X com a geolocalização dos perfis, o que permite aos usuários saber se uma conta está sediada num país diferente do que o citado. Bingo! Descobrimos que influenciadores da direita americana insistem em morar em Bangladesh ou na Nigéria.

Horas depois da atualização, o chefe de produtos da plataforma postou: “preciso de uma bebida.” No shit, diriam americanos sóbrios. Pelo menos uma conta do tipo ultrapassava 1 milhão de seguidores e várias defecavam propaganda para centenas de milhares. Ao comprar o velho Twitter, Musk apenas acelerou o declínio agora evidente da rede social.

Quem passou o último sábado (22) monitorando as reações à prisão do capitão soldador podia testemunhar a distorção oferecida por atores operando longe de Brasília, com amplificação oferecida por sites brasileiros bolsoviques que estenografam qualquer flatulência emitida até por fugitivos da Justiça do Brasil.

Não é novidade que as redes são cada vez mais antissociais na agressividade permitida pelos monopólios. A tensão política em vários países e a invasão de conteúdos de inteligência artificial agravaram o desconforto com o scroll infinito.

Hoje, as redes sociais não passam de mídia de massa, só que de má qualidade. Foi-se o tempo em que uma plataforma como o Twitter funcionava como agência de notícias em tempo real. A migração para o Bluesky foi um sintoma da insatisfação com a cloaca algorítmica de Musk.

Aplicativos apelidados de “mídia aconchegante” (cozy media) estimulam a formação de pequenos grupos de contatos e servem também como filtro para indicar conteúdos de interesse específico online, como games ou análise política.

A hostilidade que aumenta o engajamento também tornou usuários mais receosos de postar opiniões que possam atrair ameaças. O crescimento de aplicativos de conversa como Signal e WhatsApp deve ser um sinal do cansaço do público com a falta de privacidade e de controle que marca a experiência nas redes sociais.

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

Menu de Topo