Waldir Pires: o centenário que a Bahia parece esquecer – Maurílio Lopes Fontes


No dia 21 de outubro de 2025, quando Francisco Waldir Pires de Souza completaria 99 anos, o jornal A TARDE publicou artigo de minha autoria intitulado “2026: centenário de Waldir Pires”.

No artigo (ver abaixo), chamava a atenção para o centenário de um dos personagens mais importantes da história política da Bahia e do Brasil na segunda metade do século XX e início do século XXI.

Escrevi, então, uma frase que hoje, com o correr do tempo, parece reveladora do descaso: “Diante da proximidade do centenário de Waldir Pires, o silêncio não é uma opção para a Bahia.”

Passaram-se onze meses. Amanhã, 21 de setembro, faltarão apenas 30 dias para o centenário. E, até onde se tornou público, não se conhece uma programação articulada, de dimensão estadual, capaz de celebrar a trajetória de Waldir Pires à altura de sua importância histórica.

É difícil compreender esse silêncio.

Não estamos falando apenas de um ex-governador da Bahia. A trajetória de Waldir atravessou mais de seis décadas da vida pública brasileira e alguns dos momentos decisivos da nossa história política.

Ainda muito jovem, foi secretário de Governo de Régis Pacheco. Em 1955, chegou à Assembleia Legislativa e participou de importantes debates sobre o desenvolvimento da Bahia. Em 1958, elegeu-se deputado federal. Foi consultor-geral da República no governo João Goulart, teve os direitos políticos cassados pelo regime instaurado em 1964 e partiu para o exílio.

Com a redemocratização, retornou plenamente à vida política. Em 1982, vinte anos depois de disputar o governo da Bahia, candidatou-se ao Senado, mas não foi eleito.

Em 1985, assumiu o Ministério da Previdência Social e, no ano seguinte, deixou o cargo para novamente disputar o governo baiano.

Eleito governador em 1986, numa eleição que marcou profundamente a história política do Estado, renunciou ao cargo em 1989.

Voltou à Câmara dos Deputados em duas oportunidades, nas eleições de 1990 e 1998. Depois, foi ministro-chefe da Controladoria-Geral da União e ministro da Defesa. Já aos 86 anos, submeteu-se novamente ao voto popular e foi eleito vereador de Salvador.

Pouquíssimos homens públicos brasileiros tiveram uma trajetória tão longa e tão diretamente relacionada às transformações da democracia brasileira.

Mas há algo em Waldir Pires que não cabe numa relação de cargos.

Sua biografia política foi construída também por escolhas. Escolhas feitas em circunstâncias difíceis, quando permanecer fiel a determinados princípios podia significar perder posições, interromper carreiras e enfrentar perseguições.

Democracia, liberdade, justiça social e respeito às instituições não aparecem em sua trajetória apenas como palavras pronunciadas em discursos. Foram referências permanentes de sua vida pública.

Por isso, celebrar seu centenário não significa construir uma unanimidade artificial em torno de sua memória.

Waldir foi um homem da política, participou de disputas, enfrentou adversários, venceu e perdeu eleições. Sua trajetória deve ser estudada com o rigor que a história exige.

O que não parece razoável é o esquecimento.

Há um ano, defendi que universidades, instituições governamentais, entidades da sociedade civil e demais organizações se articulassem para preservar e difundir seu legado.

O centenário poderia ter estimulado seminários, exposições, publicações, documentários, recuperação de documentos, organização de acervos e debates sobre os diferentes períodos da vida pública de Waldir Pires.

Seria também uma extraordinária oportunidade para apresentar sua trajetória às novas gerações.

O centenário não pertence a um partido político, a um governo ou a um grupo. Pertence à memória política da Bahia.

Há quase um ano escrevi que o silêncio não era uma opção para a Bahia.

A trinta dias do centenário, o silêncio tornou-se ainda mais difícil de explicar.

Segundo informou o jornalista Levi Vasconcelos, na semana passada, em sua coluna diária no programa Café das 7, na rádio A Tarde FM, a Assembleia Legislativa, por iniciativa do deputado Ângelo Almeida, prepara uma sessão solene para homenagear Waldir Pires, o que é uma boa notícia.

Entretanto, um evento protocolar não dará conta de registrar a grandeza de Waldir Pires e ficará restrito às paredes do palácio da Assembleia Legislativa.

Em seu centenário, Waldir Pires merece muito mais.

Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História, bacharel em Marketing, mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha), diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University), especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Estratégia e Liderança Pública (FESPSP), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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