TikTok tenta se ‘ocidentalizar’ contra barreiras internacionais

Zhang Yiming, fundador do extremamente popular TikTok, recentemente alvo dos Estados Unidos, fez de tudo para colocar o aplicativo de vídeos nos mercados globais, para aliviar as crescentes pressões políticas. Mas ele parece estar cada vez mais encurralado, segundo um investidor chinês na empresa controladora do app, ByteDance.

Com mais de 2 bilhões de downloads, o TikTok enfrenta bloqueios ou ameaças de proibições em muitos países, sob acusações de violação da privacidade dos usuários. Sua crescente influência popular o transformou numa força que não pode ser ignorada por nenhum governo. Nos Estados Unidos, o TikTok foi incluído no debate político. A eleição de novembro será um desafio, disse o investidor da ByteDance.

“Não há muita discordância entre democratas e republicanos sobre as sanções atuais contra as empresas chinesas”, disse ele. “Depois da ZTE e da Huawei, o TikTok será o próximo alvo.”

Os Estados Unidos estão considerando proibir os aplicativos de redes sociais chineses, incluindo o TikTok, disse o secretário de Estado Mike Pompeo em 6 de julho. Ele citou a proteção da segurança nacional e da população americana, para que suas informações não acabem nas mãos do Partido Comunista Chinês.

Os comentários de Pompeo se seguiram ao comparecimento de um público desanimador no comício de campanha do presidente Donald Trump em 20 de junho em Tulsa, Oklahoma. Vários usuários do TikTok tentaram sabotar o evento postando vídeos em que pediam às pessoas que se registrassem para os ingressos, mas não comparecessem.

Apenas 6.200 pessoas estiveram presentes em um estádio com 19.200 lugares, depois de o diretor da campanha de Trump, Brad Parscale, ter-se gabado no Twitter de que recebeu mais de 1 milhão de reservas de ingressos.

A pegadinha mostrou como o aplicativo de três anos se tornou influente em alguns mercados fora da China. As versões internacionais de outros apps chineses têm como alvo principalmente usuários chineses no exterior, como o WeChat, da Tencent. Mas o TikTok tem visado usuários locais em mercados internacionais, não apenas chineses que moram no exterior.

Desde 2019, o TikTok está no topo da lista de aplicativos mais baixados nos mercados globais. Foi o primeiro em seis anos a ultrapassar 2 bilhões de downloads em todo o mundo, atrás de WhatsApp, Instagram e Messenger, todos do Facebook.

Em maio, o TikTok lançou um recurso de transformação de roupas em que os usuários parecem mudar o que estão vestindo ou alterar sua aparência com um deslize do dedo, enquanto limpam um espelho ao som da música “Wipe It Down”, de Kenneth Coby, também conhecido como BMW Kenny. O desafio “limpe-o” atraiu mais de 1 bilhão de cliques e a participação de muitas celebridades, incluindo o ator Will Smith.

Zhang passou a metade de 2019 em Washington tentando fortalecer as relações com o governo americano. Enquanto isso, o TikTok localizou suas operações gerais, incluindo branding e RH.

Os funcionários e negócios da empresa TikTok são separados dos de sua controladora ByteDance, disse à agência Caixin um assessor de um investidor estrangeiro da ByteDance. Zhang discutiu opções com investidores para abordar as preocupações do governo americano, incluindo um novo conselho, com Zhang abrindo mão de seu poder de supervoto e executivos chaves mudando suas nacionalidades.

Zhang não pode viajar para os EUA agora devido à pandemia de Covid-19, mas os investidores estrangeiros da TikTok, incluindo KKR e General Atlantic, estão ativamente fazendo lobby pela empresa, disse a pessoa próxima de um investidor.

A escala e a popularidade do aplicativo estimularam especulações de que ele poderia se tornar um alvo de aquisição viável para o Facebook.

“É apenas uma especulação do mercado”, disse um investidor. “Zhang não tem interesse em vendê-lo. E se o TikTok for banido nos Estados Unidos seus usuários desaparecerão. Não faz sentido comprá-lo.”

Os investidores estão cada vez mais nervosos. Em 2019, o TikTok e a versão chinesa do aplicativo Douyin contribuíram com 60 bilhões a 70 bilhões de yuans (US$ 8,58 bilhões a US$ 10 bilhões) para sua controladora, mais da metade da receita total da ByteDance.

Em sua última rodada de financiamento em 2018, a ByteDance levantou US$ 3 bilhões de um grupo de investidores liderado pelo SoftBank Group, KKR e o General Atlantic. Isso avaliou a empresa em US$ 75 bilhões, mais que o dobro da avaliação da rodada anterior de financiamento, menos de um ano antes. O valor da companhia no papel aumentou pelo menos um terço, para mais de US$ 100 bilhões em transações recentes de ações privadas (de uma empresa de capital fechado). Mas esse número agora é apenas teórico, já que ninguém quer comprar, dizem os investidores.

“No ano passado, muitos potenciais investidores fizeram uma consulta sobre oferta pr​ivada de ações de investidores existentes, mas ninguém queria vender, porque uma oferta pública inicial era esperada para breve”, disse o investidor chinês. Agora, com a ameaça de proibição nos EUA, Zhang não tem ânimo para promover uma IPO.

Ao contrário do fundador e presidente da Huawei, Ren Zhengfei, que repetidamente defendeu sua empresa na mídia ao enfrentar sanções dos EUA, Zhang é discreto. O empresário de 37 anos raramente fala com a imprensa. Os executivos e funcionários da empresa também estão estritamente impedidos de fazê-lo.

Durante o Fórum Econômico Mundial em janeiro em Davos, na Suíça, os repórteres da Caixin encontraram Zhang e Alex Zhu, então diretor da TikTok, em uma cafeteria. Zhang recusou um pedido de entrevista, dizendo que aguardaria outras oportunidades depois de retornar à China. Um repórter alemão próximo manifestou surpresa por Zhang se recusar a falar com os repórteres da Caixin.

“Esse é o chefão do TikTok?”, perguntou o jornalista alemão. “Muitas pessoas estão usando o TikTok agora. Ele não pode ser um ‘chinês misterioso’.”

Concluindo que os mercados estrangeiros precisam de um rosto confiável para representar o TikTok, Zhang escolheu em maio o ex-veterano da Disney, Kevin Mayer, como novo presidente. Ele também recrutou toda uma equipe de executivos ocidentais, que incluem o ex-diretor jurídico de propriedade intelectual da Microsoft, Erich Andersen, como conselheiro-geral global, o ex-executivo da ADP Roland Cloutier como diretor de segurança da informação, o ex-diretor da marca Hulu, Nick Tran, como diretor de marketing para a América do Norte e o ex-executivo sênior do Facebook e Yahoo, Blake Chandlee, como diretor de parcerias estratégicas. No mês passado, o TikTok também contratou o ex-executivo do Google, Lee Hunter, como gerente-geral de seu recém-inaugurado escritório australiano.

Enquanto toda a equipe administrativa era substituída por rostos locais, a ByteDance retirou todos os funcionários chineses do exterior e os substituiu por contratados locais.

Além da localização de pessoal, Zhang também avaliou mudar a sede da operação internacional para o exterior. Ele considerou locais como Londres, Cingapura e Dublin, disse uma pessoa próxima à administração da ByteDance à Caixin no final de 2019.

No início deste mês, a TikTok anunciou planos de transferir a responsabilidade de proteger os dados pessoais de seus usuários europeus para suas filiais na Irlanda e no Reino Unido, em meio a preocupações crescentes com a privacidade. A empresa também abriu um centro de transparência de moderação de conteúdo em Los Angeles. Isso deu aos especialistas externos uma visão panorâmica das operações diárias da TikTok como parte de seus esforços para aliviar as preocupações dos legisladores dos EUA sobre o tratamento dos dados de usuários pelo aplicativo e se ele censura conteúdo a pedido de Pequim.

Mas esses esforços parecem ter sido ineficazes para reverter posturas políticas hostis. Na semana passada, o consultor comercial da Casa Branca, Peter Navarro, chamou o novo presidente da TikTok, Mayer, de “fantoche americano”, dizendo que a estratégia de colocar um cidadão americano no comando “não vai funcionar”. Espera-se que Trump tome “medidas fortes” sobre o TikTok e outros aplicativos chineses, disse ele.

 

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje