Surpreendente 2013 – André Singer

Para a política brasileira, o ano que se encerra foi marcado por três fatos que mudaram o quadro previsível 12 meses atrás. O mais importante foi a inesperada sequência de manifestações que eclodiram em junho. Abriu-se, assim, um novo ciclo de lutas sociais, radicalizando a agenda que vai desaguar no próximo pleito presidencial.

Consistiu também numa surpresa a solução encontrada em outubro por Marina Silva para resolver o impasse entre dedicar-se à proposta de construir um partido renovador das instituições nacionais ou permanecer na disputa pela Presidência da República. Ao entrar em agremiação que já tem candidato, ela fica dentro e fora da eleição ao mesmo tempo.

A ex-senadora parece ter interpretado o fracasso do seu partido como obra do PT. Por isso, tendo se juntado a Eduardo Campos, que já vinha conversando com Aécio Neves, deu um passo na direção de formar um potencial bloco de oposição a Dilma Rousseff no segundo turno.

Completando a sequência de eventos, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, aproveitou o feriado de 15 de novembro para colocar na prisão três importantes ex-dirigentes do PT, os quais têm direito ao regime semiaberto. Ainda que a detenção decorra de um processo que remonta a 2005, cujos possíveis desdobramentos foram amplamente discutidos em diversos fóruns, parece claro que o ministro relator decidiu usar o poder que lhe cabia para produzir um efeito simbólico de larga repercussão futura.

Vistos em perspectiva eleitoral, a tríade de acontecimentos representa dificuldades para a candidatura Rousseff, que navegava em águas calmas no final de 2012. Com uma aprovação de 62% e Lula aparentemente fora da disputa, a presidente tinha caminho desimpedido, apesar de algumas dificuldades na economia. Agora, ela precisará enfrentar, com uma popularidade que caiu para 41%, a voz das ruas, a ira de Marina e as repercussões do mensalão.

Nenhum dos obstáculos é intransponível e, deve-se dizer, o lulismo vem enfrentando de maneira competente esse conjunto de dificuldades nada desprezível. Mas a síntese de 2013 é o crescimento de pressões em direções opostas, o que projeta uma conjuntura complicada nos próximos meses.

Embora contraditórios e, por vezes, confusos, os protestos expressam um desejo de que investimentos públicos levem as cidades do país a uma condição social verdadeiramente digna, com mobilidade, moradia, saúde, educação e segurança para todos. Na outra ponta, forças oposicionistas, de vários matizes, exigem uma contração do Estado, em nome da responsabilidade fiscal ou da restauração da moralidade.

Vejamos que soluções para tais impasses nos trará 2014.

andré singerAndré Singer é cientista político e professor da USP, onde se formou em ciências sociais e jornalismo. Foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula. 

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje