Prisões expõem cérebro de rede da Odebrecht criada no exterior

Filho de pai suíço e mãe brasileira, o economista carioca Bernardo Schiller Freiburghaus, 47, é apontado pelos investigadores da Operação Lava Jato como o cérebro financeiro de uma rede que teria permitido à Odebrecht distribuir milhões de dólares em propina no exterior.

Quando apareceram os primeiros sinais de que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e o ex-gerente Pedro Barusco haviam decidido colaborar com as investigações, Freiburghaus deixou um apartamento próximo à lagoa Rodrigo de Freitas, zona nobre do Rio, e mudou-se para Genebra.

Em outubro de 2014, ele informou a mudança de país à Receita Federal e deixou o país sem sobressaltos. Só em fevereiro deste ano, o juiz Sergio Moro determinou que fosse conduzido à PF para depor.

Peça que falta para explicar dezenas de operações que abasteceram contas secretas de ex-dirigentes da Petrobras, o economista foi incluído na lista de fugitivos internacionais da Interpol por suspeita de lavagem de dinheiro.

Um de seus endereços na Suíça é um apartamento de andar inteiro no Quai des Forces-Motrices —com vista para um badalado centro cultural com o mesmo nome— avaliado por imobiliárias locais em R$ 9 milhões. A Folha visitou o imóvel em fevereiro, mas não encontrou o economista no local.

No despacho que determinou as prisões de executivos da Odebrecht nesta sexta (19), o juiz Moro afirmou que Freiburghaus tinha “papel equivalente” ao do doleiro Alberto Youssef, mas as semelhanças entre o economista e o operador do PP são poucas.

Enquanto Youssef se aproximou de políticos e ficou conhecido no escândalo do Banestado, Freiburghaus é um operador mais sofisticado: estudou na Suíça e seu foco é gestão de grandes fortunas. É um especialista em transações internacionais.

Tanto ele quanto sua empresa, a Diagonal Investimentos, são cadastrados como agentes de investimentos junto à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), mas um relatório de inteligência da Polícia Federal que embasou as prisões dos dirigentes da Odebrecht na sexta-feira aponta Freiburghaus como representante informal de pelo menos quatro grandes bancos de investimentos no Rio: PBK Private Bank, Pictec e os braços suíços do HSBC e do Royal Bank of Canada.

Segundo um dos investigadores do caso, Freiburghaus não tinha ligação com as instituições para quem captava clientes e montava operações para escoar divisas, através de empresas de fachada em paraísos fiscais, até o destino final, contas na Suíça.

Tanto Costa quanto Barusco afirmam que foi o diretor da Odebrecht Rogério Araújo que os apresentou ao dono da Diagonal Investimentos entre 2008 ou 2009. Araújo foi preso na sexta-feira.

Segundo o ex-diretor da Petrobras, o economista abriu as offshore Sygnus Assets S.A. e Quinus Services S.A. e as respectivas contas nos bancos suíços PKB e HSBC para que ele recebesse pagamentos da Odebrecht no exterior.

Em setembro de 2012, estas contas tinham saldos de US$ 20 milhões, que depois foram transferidos para outras contas em bancos suíços. Tudo indica que Freiburghaus, como procurador das contas, agiu dessa maneira para dificultar o rastreamento do dinheiro.

Costa e Freiburghaus encontravam-se a cada dois ou três meses para checar os investimentos na sede da Diagonal. Após a conferência, os extratos eram triturados.

No caso de Barusco, segundo a PF, Freiburghaus também abriu offshores e contas na Suíça das quais era procurador. No ano passado, mesmo depois da prisão de Costa, em março de 2014, Freiburghaus teria feito uma remessa de US$ 2 milhões para contas de Barusco no PBK.

A suspeita é que o operador também seja responsável por transferências de US$ 815 mil da Odebrecht para uma das contas do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, ligado ao PT.

Em abril deste ano, a Procuradoria-Geral da República encaminhou um pedido às autoridades suíças para vasculhar endereços de Freiburghaus e bloquear seus ativos no país.

Por causa do sigilo, a Procuradoria não informou sobre que providência os suíços tomaram desde então.

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje