O tempo também governa – Maurílio Lopes Fontes


Ao longo de muitos anos de atividade profissional tive a oportunidade de trabalhar em diferentes governos municipais. Essa experiência me ensinou algo que nem sempre é percebido por quem chega ao poder: o tempo parece adquirir uma dinâmica própria para governos e para quem governa.

Quatro anos parecem muito quando vistos do lado de fora. Não são. No exercício do poder, o tempo corre numa velocidade impressionante.

Entre a posse, a formação da equipe, a organização administrativa, a definição das prioridades, os primeiros projetos, as crises inesperadas e as demandas cotidianas, os meses começam a desaparecer do calendário.

Quando se percebe, o primeiro ano terminou. Pouco depois, metade do mandato já passou.

E aquilo que parecia distante começa a se aproximar rapidamente: o momento em que a sociedade fará um balanço do governo.

Talvez por isso uma das maiores ilusões de quem governa seja imaginar que sempre haverá tempo para corrigir amanhã aquilo que deveria ter sido enfrentado hoje. Nem sempre haverá. Governar exige decisões, mas exige também percepção do tempo.

Há problemas que podem esperar. Outros, quando adiados, tornam-se maiores. Há projetos que podem amadurecer lentamente. Outros precisam começar cedo para que seus resultados sejam percebidos ainda durante o mandato. E existem decisões cujo momento é tão importante quanto a própria decisão.

Na política e na administração, fazer a coisa certa no momento errado pode produzir resultados muito diferentes daqueles que seriam alcançados se ela tivesse sido feita no tempo adequado.

O planejamento governamental deveria considerar essa dimensão com muito mais atenção. Não basta estabelecer o que será realizado.

É preciso definir quando cada iniciativa deve começar, quanto tempo será necessário para sua execução, quando seus efeitos poderão aparecer e de que maneira esses resultados serão percebidos pela sociedade.

Há momentos, porém, em que o tempo político parece correr ainda mais depressa.

Isso acontece quando dificuldades inicialmente dispersas começam a se acumular: a interlocução com as forças que participaram da construção da vitória se enfraquece, a avaliação popular se deteriora, a narrativa oficial perde capacidade de organizar a percepção da sociedade e o governo passa a reagir aos acontecimentos em vez de conduzi-los.

Cada problema, isoladamente, poderia ser administrável. Quando se combinam, porém, produzem um efeito mais profundo: reduzem progressivamente a margem de manobra de quem governa.

É nesse ponto que o tempo deixa de ser apenas uma medida do mandato e se transforma em variável política.

Alianças que não são cuidadas podem se desfazer, insatisfações que não são enfrentadas tendem a se consolidar e narrativas que não conseguem produzir sentido deixam espaços que rapidamente são ocupados por adversários, críticos e pela própria interpretação cotidiana da sociedade.

Governar exige, portanto, perceber o tempo antes que seus efeitos se tornem evidentes.

Porque algumas oportunidades políticas não desaparecem de uma vez: estreitam-se lentamente, até o momento em que já não podem mais ser recuperadas.

Existe ainda outra característica do tempo. Ele não corre da mesma maneira para quem governa e para quem espera.

Uma obra exige estudo, projeto, licitação, contrato e meses de execução. Para quem precisa da ação governamental, o tempo é contado pela necessidade, via de regra, urgente.

Para o governo, determinadas mudanças exigem procedimentos. Para a sociedade, muitas vezes, existe apenas a pergunta: quando acontecerão?

Essa diferença entre o tempo administrativo e o tempo social é uma das tensões permanentes de qualquer governo. Quanto maior a distância entre os dois, maior o risco de crescer a sensação de que as coisas não estão acontecendo na velocidade esperada.

Há também um tempo da comunicação. Um governo pode realizar e não conseguir transformar suas realizações em percepção pública. Pode anunciar antes da hora e criar expectativas que depois não consegue atender. Pode demorar a explicar uma decisão e permitir que outras interpretações ocupem o espaço.

Na política, o vazio raramente permanece sem ocupação e preenchimento de espaço. Se um governo não constrói sentidos para aquilo que faz, outros os construirão por ele.

Por isso, governar também significa administrar diferentes relógios ao mesmo tempo: da gestão, da política, das alianças, da comunicação e, principalmente, o relógio das expectativas da sociedade. Eles nem sempre têm o mesmo compasso.

A capacidade de perceber essas diferenças pode determinar muito do êxito ou do fracasso de uma administração.

O poder costuma produzir uma perigosa sensação de permanência. A agenda cheia, as reuniões, as solenidades, as decisões e a movimentação cotidiana podem criar a impressão de que haverá sempre uma próxima semana, um próximo mês, uma nova oportunidade para corrigir rumos.

Mas o calendário é indiferente ao poder. Ele continua avançando. Talvez uma das maiores demonstrações de inteligência política seja compreender essa inexorável dinâmica temporal.

Porque governar não significa apenas escolher prioridades, tomar decisões e realizar.

Significa saber em que momento agir, reconhecer quando é necessário mudar e perceber que determinadas escolhas não podem ser indefinidamente adiadas.

Governos administram cidades, estados e países. Mas existe uma força silenciosa que também participa de todos os governos: o tempo.

É uma dimensão incontornável do exercício do poder.

E os governos que demoram a compreender isso – que o tempo também governa – quase sempre descobrem quando já resta pouco tempo para mudar o próprio destino.

Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha/Itália)

Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA)

Especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL)

Especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

Especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)

MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP)

Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ e Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe – CAF)

Imagem elaborada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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