Nova lei de doação favorece quem é rico, conhecido e consegue mobilizar

URNA

A nova legislação eleitoral favorecerá três tipos de candidatos: os que já têm mandato, aqueles capazes de financiar a própria campanha e nomes lançados por igrejas, sindicatos e estruturas com base eleitoral formada.

A proibição de doações por empresas barateará campanhas, preveem políticos, mas pode estimular o caixa dois.

A duração da campanha reduzida à metade e as restrições da lei para veiculação de propaganda exigirão ação rápida e cirúrgica.

Nesse cenário, quem tem mandato deve se beneficiar do gabinete para reativar sua base e arrecadar fundos.

Um vereador paulistano que tenta a reeleição aposta que colegas da Câmara Municipal pedirão doações aos servidores que “não vão querer perder seus empregos”. Ele calcula arrecadações de R$ 145 mil dessa forma.

Pessoas físicas podem doar até 10% dos rendimentos declarados no ano anterior.

As campanhas a vereador em São Paulo custarão em média R$ 300 mil, estimam candidatos. “Haverá manutenção de grande parte da Câmara”, aposta o vereador Mario Covas Neto (PSDB), que tenta se reeleger.

Outro tipo de candidato que larga com vantagem é aquele que tem capital próprio, tanto em patrimônio quanto em popularidade. A nova legislação não estabelece limite para o autofinanciamento.

Nessa categoria, João Doria, que disputa a Prefeitura de São Paulo pelo PSDB, bancou a pré-candidatura e deverá custear parte da campanha. Ele não revelou o valor, mas prevê orçamento de R$ 15 milhões. Seu patrimônio é estimado em R$ 170 milhões.

O adversário Celso Russomanno, do PRB, se beneficiará não só de seu mandato como deputado federal, mas também da popularidade como apresentador de TV.

Puxador de votos, Russomanno tende a ser recompensado com o repasse do Fundo Partidário. O diretório municipal espera receber R$ 5 milhões do nacional.

Nomes de segmentos também saem na frente. O deputado Paulo Pereira da Silva, presidente do Solidariedade e da Força Sindical, aposta em candidatos ligados à Polícia Militar, escolas de samba e sindicatos. “Esses têm mais viabilidade”, afirmou.

Seu irmão, Valdir Pereira, candidato a vereador, espera obter R$ 300 mil com sindicalizados de sua categoria.

O pastor Wilton Acosta, articulador político do PRB para igrejas evangélicas, também vê vantagem para os candidatos do segmento.

“Tem pessoas que podem gastar milhões e não se elegem, tem pessoas que gastam muito pouco e se elegem. Quem tem base organizada tem mais vantagem, e eu acho que nós temos”, disse.

As dificuldades de arrecadação pelas vias legais deve estimular o caixa dois, dizem especialistas e políticos.

No entanto, o cerco acirrado pela Operação Lava Jato já dificulta até mesmo as doações não declaradas.

Um vereador de São Paulo que não quis se identificar disse que um amigo tentou sacar R$ 300 mil para doar em espécie, por fora, a um candidato. Foi barrado pelo gerente do banco, que queria denunciar a transação “atípica”.

Um assessor do PMDB lembra que ouviu pedidos de até R$ 5 milhões para pastores declararem apoio a candidatos na eleição para governador em 2014. Mesmo que a prática volte a ocorrer, as somas serão muito menores, ele afirmou.

Fonte: Folha de São Paulo

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje