Mulheres negras relatam dificuldade para encontrar maquiagem no Brasil

Uma cena fictícia: a ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante deste ano, eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista “People” e capa da “Vogue” dos EUA deste mês, Lupita Nyong’o, vem ao Brasil e esquece seu estojo de maquiagem. Fica sem base, pó e corretivo.

Comprar os produtos por aqui não seria uma tarefa fácil. Lupita não encontraria cosméticos para sua cor nem mesmo da Lancôme, grife da qual é garota-propaganda. Lupita, aliás, é a primeira garota negra a se tornar o “rosto” da marca.

De acordo com a Lancôme, há bases para negras à venda no Brasil, mas alguns tons mais escuros são encontrados apenas no exterior.

A assistente de atendimento Jaque de Paula, 27, de São Paulo, confirma que não é fácil encontrar as bases mais escuras no Brasil, país onde 7,6% das pessoas se declaram pretos e 43,1%, pardos, de acordo com o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Por isso, muitas modelos acabam trabalhando de cara limpa. “Na maioria dos trabalhos, os maquiadores fazem uma maquiagem mais pesada no olho, passam batom e pronto”, diz Nerida Cocamaro, 22.

A modelo Mari Fernanda, 35, da agência HDA, especializada em modelos negros, tem um estoque de bases desde os 20 anos. “É comum que a base fique com uma cor cinza no rosto”, conta.

As modelos contam que aprenderam desde cedo a fazer misturas para encontrar o seu tom e guardam um estoque de diferentes cores.

A dificuldade é maior para encontrar bases nacionais, mais baratas. As marcas gringas que fazem parte do acervo de bases de Jaque também estão à venda no Brasil, mas o preço é maior: a base da M.A.C sai por R$ 119 e a da Make Up Forever, R$ 177. Essas duas marcas têm os maiores portfólios de cores de base.

“Fui recentemente para Nova York e me abasteci de produtos. Lá, em qualquer shopping ou farmácia tem uma prateleira de produtos só para peles negras. Não dá para comparar com as lojas daqui”, diz Jaque.

Priscila Sena, 34, também modelo, diz que já não se importa com a textura ou a marca do produto. “Se vejo que tem uma base da minha cor na perfumaria, eu compro”, diz. Para as meninas negras, também é mais difícil escolher a base por detalhes, como o nível de oleosidade da pele, ou por outros atributos, como a presença de protetor solar e efeito antirrugas.

MARCAS
O Boticário não possui tons mais escuros em sua linha principal, a Make B. Já a marca Quem Disse, Berenice?, do mesmo grupo e aberta há poucos anos, tem um tom que se assemelha ao da pele da atriz Lupita Nyong’o. A Natura tem um tom mais escuro na linha Aquarela.

“Essas cores não existiam no mercado até pouco tempo atrás”, afirma Carolina Schomer, da Quem Disse, Berenice?, que participou do processo da criação dos tons de base da marca. Segundo ela, é comum encontrar apenas dois tons para pele negra nos portfólios das bases, e normalmente elas são de baixa cobertura.

Schomer conta que os tons mais escuros não são os que mais vendem. “Muitas meninas estão descobrindo e tendo acesso a esses produtos agora”, afirma. “Essas bases vendem menos, mas a gente vê uma procura crescente.”

A Avon afirma que sua linha passou por mudanças no final do ano passado e que as consumidoras podem não conhecer todas as cores ainda. “Relançamos toda a nossa linha de maquiagem pensando na pele da brasileira”, afirma a assessoria da marca.

“Hoje em dia está mais fácil de achar base na cor certa. Eu uso duas marcas: uma que vende na farmácia, mais barata, e outra que comprei no shopping”, diz Élida Aquino, 22, uma das autoras do blog Meninas Black Power.

Ela ressalta, porém, que, para meninas com a pele mais escura, a procura ainda é árdua. “Mas as coisas estão melhorando”, diz.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje