Grandeza histórica – André Singer

ANDRE SINGER

Os vaivéns da semana –entra CPMF, sai CPMF, entra orçamento deficitário, sai orçamento superavitário, sai Levy, fica Levy– deram mais uma volta no parafuso da crise. O governo passou a transmitir perigosa imagem de descontrole. É urgente dar um freio de arrumação e resolver o impasse econômico politicamente.

O empresário Abílio Diniz criou imagem eloquente a respeito. Diz que seria necessário trancar Michel Temer, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso em um quarto e jogar a chave fora. Neste momento, há uma pessoa capaz de produzir tal situação e, por paradoxal que pareça, ela se chama Dilma Rousseff. Nenhum dos três recusaria chamado da presidente da República para dialogar.

Há exatos 13 anos, o então presidente Fernando Henrique Cardoso levou Lula –o grande opositor– ao Planalto para tratar da delicada situação nacional. Com o dólar já acima de R$ 3 e em elevação, mesmo após fechado acordo de US$ 30 bi com o FMI, FHC colocou os quatro candidatos presidenciais no seu gabinete.

O gesto, dirigido ao conjunto dos pleiteantes ao cargo, na verdade apontava para o líder histórico do PT. Foi uma audácia. Poderia ser entendido, do lado governista, como sinal de fraqueza. A campanha de José Serra desaconselhou o então mandatário a dar tal colher de chá ao adversário. Também do ângulo petista, aceitar poderia ser interpretado como adesismo.

As duas coisas eram verdadeiras. Tanto o governo precisava de ajuda quanto auxiliá-lo significava dar melhores condições para o governismo na campanha que entrava em fase decisiva. No entanto, todos os candidatos aceitaram o convite e na segunda-feira, 19 de agosto de 2002, Lula, Serra, Ciro Gomes e Anthony Garotinho foram ao palácio ouvir e falar com o chefe de Estado.

As reuniões deram estabilidade ao período eleitoral e à transição que se seguiu, o que não foi pouco. Era a primeira vez que o país iria ter verdadeira alternância no poder. Nunca a esquerda ganhara eleição presidencial no Brasil.

A instabilidade atual não interessa a nenhum grupo majoritário, mas a maneira de estabilizar os divide. Há os que entendem ser necessário seguir no corte de gasto público, o que comprometerá programas sociais. Há os que consideram esse caminho inaceitável.

É preciso negociar para evitar a catástrofe. Com todos os defeitos, os partidos vocalizam a sociedade, e Temer, Lula e Cardoso são representantes inequívocos dos três maiores. Dilma precisaria ter a humildade de chamá-los, e eles, de sentarem para costurar um acordo. Sairiam todos engrandecidos perante a história.

Ainda há tempo para isso. Mas não muito.

Fonte:Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje