Futebol e barbárie – Fernando Rodrigues

No começo do primeiro mandato de Lula, há cerca de dez anos, havia uma propaganda paraestatal na TV cujo bordão era “o melhor do Brasil é o brasileiro”. Sempre tive dúvidas a respeito desse slogan. Essa história de haver um “povo bom”, “ruim” ou “melhor” é regressiva e preconceituosa.

Nesta semana, brasileiros presentes ao Itaquerão xingaram a presidente da República. Políticos de oposição e do governo condenaram o ato dos torcedores durante o jogo de estreia do Brasil na Copa do Mundo.

Nesta sexta-feira (13), a própria Dilma Rousseff falou sobre o assunto: “O povo brasileiro não sente da forma como esses xingamentos expressam. O povo brasileiro é um povo civilizado e é um povo extremamente generoso e educado”.

Discordo da avaliação da presidente. Embora o xingamento ouvido por Dilma no Itaquerão seja um ato de extrema falta de educação (“ei, Dilma, vai tomar no c…”), trata-se de algo barbaramente comum em estádios de futebol e em alguns espaços públicos. Nesses momentos fica exposto o grau de atraso civilizatório dos brasileiros, ricos ou pobres.

Os governistas mais empedernidos dirão: mas nada justifica o xingamento à presidente da República na frente de um punhado de chefes de Estado e na abertura de um evento internacional como a Copa do Mundo. É verdade. Só que é então necessário completar: nada justifica esse tipo de xingamento contra ninguém num estádio de futebol.

Dilma deu azar. Com a popularidade em baixa (rejeição de 46% entre paulistas), teve de ir ao lugar errado e na hora errada.

O episódio não subtrai nem agrega votos à petista. Mas é útil para se constatar duas coisas. Primeiro, que a reeleição de Dilma nas redondezas do Trópico de Capricórnio será difícil. Segundo, que vigora uma barbárie mental latente nos estádios. Nessas horas, o slogan lulista se inverte: “O pior do Brasil é o brasileiro”.

Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje