Estratégias para a construção da imagem de gestores públicos – Maurílio Lopes Fontes

A percepção coletiva não nasce automaticamente dos fatos. Ela não é um reflexo fiel da realidade, nem consequência natural da boa gestão. Ela é construída. E, como toda construção, depende de direção, método e intenção.

Quando esse processo não é conduzido com estratégia, ele não deixa de existir – apenas muda de mãos. Passa a ser conduzido por adversários, por interpretações fragmentadas ou por leituras enviesadas da realidade. O resultado é previsível: gestores que fazem, mas não são reconhecidos; que entregam, mas não são lembrados; que governam, mas não são percebidos como bons governantes – e, por isso, não alcançam níveis de aprovação que lhes permitam renovar o mandato ou alçar novos voos.

A construção de imagem positiva exige, antes de tudo, uma ruptura conceitual. É preciso abandonar a ideia de que comunicação é etapa final do processo administrativo e assumir que ela é parte estruturante da própria gestão. Não se trata de divulgar o que foi feito, mas de orientar, desde o início, como aquilo será compreendido.

A primeira estratégia, portanto, não está na fala – está na clareza. Gestores que não definem com precisão o que estão fazendo, por que estão fazendo e qual transformação pretendem gerar, criam um vazio interpretativo. E o vazio, na política, nunca permanece enquanto tal. Ele é sempre ocupado.

Clareza estratégica significa transformar ações dispersas em direção reconhecível. Não basta realizar múltiplas iniciativas se elas não apontam para um mesmo sentido. A população não acompanha processos administrativos. Ela percebe trajetórias. E trajetórias só existem quando há coerência entre decisões.

A segunda estratégia é o controle do significado, não do discurso. Há uma diferença decisiva entre falar muito e fazer com que o que se fala seja compreendido. O erro mais comum é investir em volume de comunicação sem garantir entendimento. A consequência é ruído.

Controlar o significado exige capacidade de traduzir. Políticas públicas são, por natureza, complexas. Mas a percepção pública não se forma na complexidade – ela se forma naquilo que é inteligível. Se a ação não pode ser explicada de forma clara, ela dificilmente será reconhecida como relevante.

A terceira estratégia é a antecipação. A percepção não se constrói apenas na resposta; ela se constrói, sobretudo, na preparação. Cada decisão relevante carrega potenciais interpretações – positivas e negativas. Ignorar isso é agir no escuro.

Antecipar significa perguntar, antes de agir: como isso pode ser percebido? Quais leituras podem surgir? Quem pode distorcer? E, a partir dessas respostas, preparar o ambiente interpretativo. Quem chega primeiro ao sentido, geralmente o define com claras vantagens competitivas.

A quarta estratégia é a coerência visível. Não basta ser coerente – é preciso que a coerência seja percebida. Muitas gestões fracassam não por incoerência real, mas por incoerência percebida. Pequenas contradições não explicadas corroem a imagem com rapidez.

A coerência visível exige alinhamento entre discurso, decisão e comportamento. O cidadão não analisa apenas políticas públicas. Ele observa atitudes, prioridades e sinais. E são esses sinais que consolidam ou fragilizam a confiança.

A quinta estratégia é a presença qualificada. Estar presente não é aparecer em excesso, nem ocupar todos os espaços indiscriminadamente. É ocupar os espaços certos, nos momentos certos, com mensagens que façam sentido.

A ausência prolongada cria um problema silencioso: permite que outros definam a imagem do gestor. E, quando isso acontece, a gestão passa a reagir a percepções já estabelecidas, em vez de construí-las.

A sexta estratégia é a gestão das expectativas. Poucos fatores impactam tanto a percepção quanto o descompasso entre o que se espera e o que se entrega. Expectativas elevadas sem correspondência geram frustração. Expectativas mal geridas produzem desgaste, mesmo diante de resultados positivos.

Gerir expectativas não é reduzir a ambição. É alinhar promessa, capacidade e tempo. É garantir que a população compreenda o ritmo das transformações e os limites da ação pública.

Por fim, há uma estratégia que atravessa todas as outras: consistência. A imagem positiva não se constrói em momentos isolados, nem em ações pontuais. Ela se forma na repetição coerente de sinais ao longo do tempo. É a soma de pequenas percepções que, acumuladas, se tornam uma convicção coletiva.

Gestores que compreendem isso deixam de tratar a imagem como algo externo à gestão. Passam a incorporá-la como parte do próprio ato de governar.

No fundo, a disputa política contemporânea não ocorre apenas no campo das realizações, mas no campo dos significados atribuídos a essas realizações. E quem não participa dessa disputa abre mão de definir como será visto.

A imagem positiva não é fruto do acaso, nem resultado automático da boa ação administrativa.

Ela é consequência de estratégia.

E estratégia, na política, é a diferença entre ser reconhecido ou ser substituído.

Maurílio Lopes Fontes é especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha)

 

Imagem gerada por IA 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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