Em 2018, o Brasil receberá a “Copa da Matemática”

A Copa do Mundo no Brasil ainda não começou. Ao menos para cerca de 5.000 matemáticos de todo o planeta. Nesta semana, o Rio de Janeiro será anunciado oficialmente como a sede do Congresso Internacional de Matemáticos de 2018. O encontro ocorre a cada quatro anos e é considerado o mais importante dessa ciência.

Realizado desde 1897, e atualmente em sua 27ª edição, o evento nunca teve como sede uma cidade latino-americana. O anúncio do Rio-2018 será feito pouco antes da abertura do congresso deste ano, nesta quarta-feira (13), em Seul, capital da Coreia do Sul.

Na ocasião, também serão revelados os novos donos da “taça”. Na abertura do congresso quadrienal se anuncia quem ganha a Medalha Fields, distinção popularmente conhecida como Nobel da matemática, que é concedida a cientistas abaixo de 40 anos que tenham se destacado recentemente.

O Brasil começou a almejar a copa matemática há seis anos, quando postulou a candidatura para receber o congresso de 2014. Montréal, no Canadá, e Seul também estavam no páreo. “Na época não botei fé nos coreanos”, admite Marcelo Viana, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática e organizador do evento de 2018. “Costuma haver uma alternância geográfica das sedes. E o congresso de 2010 seria realizado na Índia, ao lado da Coreia.”

Aos 52 anos, cabelos lisos batendo nos ombros e jeito “bon vivant”, Viana é considerado um dos principais matemáticos de sua geração. Carioca, criou-se em Portugal, o que lhe confere sotaque sutil, mas marcante. Retornou ao Brasil em 1986, para fazer o doutorado no Impa (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), no Rio. Não deixou mais a instituição, principal centro de excelência em matemática da América Latina, da qual ele é pesquisador.

Viana é a força por trás das duas candidaturas brasileiras.

Imediatamente após a escolha de Seul, a delegação brasileira renovou sua candidatura. “Troquei figurinhas com o pessoal de Montréal e eles me confidenciaram que não iriam voltar à disputa. Além disso, notamos uma boa vontade para realizar o evento novamente nas Américas”, diz Viana. A última vez havia sido em Berkeley, nos Estados Unidos, em 1986.

A nova candidatura foi oficializada em novembro de 2012.

O comitê brasileiro chegou a ser contatado por delegações de outros países que consideravam entrar no pleito. “A diretora do Comitê Nacional de Matemática dos EUA me escreveu perguntando sobre a nossa intenção. Disse a eles que éramos candidatos e estávamos avançados na organização. Deixei claro que não iríamos desistir”, conta Viana. Os EUA declinariam em favor do Brasil, que concorre sozinho.

A primeira coisa que chama a atenção no maior evento da matemática é o seu nome: Congresso Internacional de Matemáticos.

“Esse nome não é por acaso. Ele sempre foi visto como um evento para congregar seres humanos, como uma oportunidade de os matemáticos de todo o mundo se juntarem e contarem uns aos outros os avanços obtidos na área”, diz Viana. É o único evento do mundo a congregar matemáticos e temas de todas as áreas. “Ao longo do século 20, a matemática cresceu e se espalhou muito. A existência do congresso é uma das razões de ela não ter se fragmentado”, pondera.

Não há outro evento dessa natureza e importância em qualquer outro campo do conhecimento. “A grandeza do congresso reside em parte no apoio e engajamento dos maiores matemáticos da época quando do seu surgimento”, diz Jacob Palis, 74, pesquisador emérito do Impa e presidente da Academia Brasileira de Ciências.

HUMANOS

Mas, como insiste Viana, ele é um encontro com características bastante humanas e o seu surgimento se dá num contexto de rivalidade entre matemáticos franceses e alemães. O congresso de 1900, um dos mais célebres da história, realizado na Sorbonne, em Paris, é um exemplo dessas disputas. O maior matemático francês da época, Henri Poincaré, foi o presidente do congresso. O lado alemão era liderado por David Hilbert, o gigante matemático daquele país. Os dois defendiam pontos de vista conflitantes sobre diversas questões relativas aos fundamentos da matemática.

Ambos, Hilbert e Poincaré, dariam conferência plenárias, as mais importantes. Não se sabe se por descuido ou desatenção, Hilbert não enviou seu trabalho a tempo, e sua conferência foi cancelada. O alemão, contudo, acabou sendo convidado para dar uma palestra menor, numa sessão temática. “A ironia é que ela se tornou a mais conhecida e celebrada palestra de matemática de toda a história”, diz Viana.

Hilbert teve uma sacada de gênio: ele apresentou uma lista de 23 problemas. Questões em aberto que, segundo ele, o século 19 legava para o 20. A lista acabou influenciando decisivamente diversos campos da matemática. “Os problemas eram tão importantes assim? Nesta altura não importa, tornaram-se”, diz Viana.

Um problema da lista que ainda permanece aberto é a conjectura de Riemann, proposta pelo alemão Georg Bernhard Riemann. Uma das principais consequência da conjectura é estabelecer uma fórmula que descreve a distribuição de números primos, os números que só são divisíveis por 1 e por eles mesmos (como 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23…). Obter uma fórmula capaz de dizer quantos primos existem até um certo número poderia ter consequências que vão da segurança de computadores até as teorias sobre a origem do Universo.

TENSÃO

Viana descreve uma certa tensão que cresce a cada congresso e que se relaciona à excessiva especialização da matemática. “A pessoa vai num evento desses e não entende uma palestra que não seja da sua área. Há uma certa tensão interna. Vale a pena? Tenho colegas que não têm o menor interesse pelo congresso.”

Ele diz que um espírito de humildade deve nortear os participantes da reunião. “Esse é um evento para a matemática toda. Eu não vou entender tudo, mas eu vou ganhar uma ideia do que está acontecendo nesse mundo.”

Jacob Palis conta uma história que ilustra bem o nível de especialização da matemática. Durante as negociações para a realização do congresso na China, no fim dos anos 90, ele, na época presidente da IMU (International Mathematical Union) foi recebido, junto com uma comitiva formada por alguns dos maiores matemáticos do mundo, pelo presidente chinês Jiang Zemin, engenheiro e entusiasta da matemática.

A certa altura do encontro, o grupo foi surpreendido por Zemin. O presidente chinês sacou um problema de geometria e pediu que os presentes o resolvessem. Ele explicou que o seu neto trouxera a questão da escola e que havia pedido a sua ajuda para solucioná-la, sem sucesso.

“Era um problema de geometria elementar, mas desses intrincados.” Os participantes se debruçaram sobre a questão, mas, apesar de várias tentativas, não conseguiram resolvê-la. “Você consegue imaginar? Alguns dos maiores matemáticos do mundo estavam lá e ninguém conseguiu resolver o problema”, ri Jacob.

Marcelo Viana diz que a realização do Congresso no Brasil em 2018 é um reconhecimento de que o país pertence a uma elite e tem capacidade para organizar um evento desse porte. Segundo ele, no entanto, a principal razão para realizar uma reunião dessas no país é o incentivo aos jovens para seguirem a carreira matemática.

“Queremos que a garotada que está na escola agora saiba que existe uma coisa chamada carreira matemática, que alguns deles se tornem matemáticos e que outros, mesmo que não sigam a carreira, tomem gosto pelo tema. Quem sabe com isso mudemos o panorama dramático do ensino de matemático e engenharia no Brasil.”

FLORESTA

O Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada está localizado nas franjas da floresta da Tijuca, no Rio. Da varanda de alguns gabinetes dos pesquisadores é possível ver a lagoa Rodrigo de Freitas. Pássaros e macacos são presenças constantes nas árvores da mata que envolve o prédio.

A arquitetura do instituto é simples e funcional, com quatro andares atravessados por longos corredores de cimento queimado negro. Vistos de cima, os três módulos que compõem a construção se distribuem como um “S” incrustado na mata. Nos dois andares superiores ficam os gabinetes de seus 50 pesquisadores. Há quadros negros espalhados pelos corredores do prédio e nas salas de uso comum, e sempre é possível achar duas ou mais pessoas diante deles, giz branco à mão, discutindo algum problema ou teorema.

O Impa nasceu em 1952 em torno de três pessoas: seu primeiro diretor, Lélio Gama (1892-1981), e seus dois primeiros pesquisadores, Leopoldo Nachbin (1922-93) e Maurício Peixoto, 93. O início, no entanto, foi pouco glorioso. “Eu estava estudando na biblioteca quando os três [Gama, Nachbin e Peixoto] chegaram até a mim, exultantes, ‘acabou de ser criado o Impa’. Não havia nada, o instituto ocupava uma salinha do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas [instituto fundado em 1949]”, lembra Elon Lima, 85, pesquisador emérito e um dos primeiros alunos do instituto.

LIMBO

O Impa passou seus primeiros 15 anos com atividades intermitentes. Nachbin e Peixoto tinham também posições fora do Brasil. Os poucos membros do instituto viviam numa espécie de limbo, sem qualquer regulamentação profissional. “Os pesquisadores recebiam seus salários em envelopes, sem nenhum direito trabalhista”, diz Elon.

A partir do final dos anos 1960, começaram a retornar ao Brasil alguns matemáticos que haviam ido fazer doutorado nos EUA, como Jacob Palis e Manfredo do Carmo. Quando terminou o regime militar, em 1985, o Impa já estava consolidado como “a” instituição de pesquisa de matemática do Brasil.

PRÊMIO

A medalha Fields foi criada a partir das sobras financeiras do congresso de 1924, realizado em Toronto. A ideia era criar um prêmio de incentivo a jovens matemáticos talentosos. As primeiras foram entregues no congresso de 1936. “A medalha muda a vida de quem ganha, sem dúvida”, diz Jacob. “Ela confere um prestígio que dura a vida toda.” É um prêmio raro -só foram conferidas 52 medalhas até hoje- e para jovens.

O comitê que conferiu as duas primeiras medalhas interpretou a palavra jovem como alguém com menos de 40 anos e essa idade se tornou tradição. Apenas na década de 1960, esse limite se tornou uma regra escrita.

Apesar de sua importância, o cheque que acompanha a Fields é modesto, quando comparado com o do Nobel, que paga cerca de US$ 1,1 milhão aos premiados. A medalha matemática rende 15 mil dólares canadenses (R$ 31 mil) aos seus vencedores.

Nunca um brasileiro recebeu a distinção. Jacob conta que Ricardo Mañé, no fim dos anos 90, e Marcelo Viana, na década seguinte, chegaram perto da medalha. Hoje, os maiores candidatos brasileiros são Artur Avila e Fernando Codá. Todos foram formados pelo Impa.

O vencedor da medalha Fields é escolhido por um comitê secreto formado por 12 matemáticos de renome. Somente o nome do presidente do comitê é conhecido.

Os países que mais ganharam a medalha são Estados Unidos, com 12, e a França, com 10.”É como a Copa do Mundo, quem já ganhou tende a continuar ganhando.”

No próximo dia 13, em Seul, a torcida brasileira espera que essa tradição seja quebrada.

FERNANDO TADEU MORAES, 29, é jornalista da Folha.

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje