Economia está dando dois passinhos para trás, diz presidente do Boticário

Nos últimos anos, o grupo O Boticário criou três marcas, abriu uma segunda fábrica na Bahia e um centro de pesquisa e inovação no Paraná. O faturamento duplicou desde 2010. Mas agora a economia brasileira estancou.

O presidente Artur Grynbaum, 45, diz que observa “com dó” o atual momento: “Estamos dando dois passinhos para trás”. Seu mercado é mais resistente, acredita ele, pois depende menos do crédito, mas não vê o mundo cor de rosa: “Se a economia tiver que sofrer em 2015, que a gente passe por isso para poder colher coisas melhores em 2016 e 2017. Mais crescimento e mais estabilidade”. Leia entrevista à Folha.

Folha – Economistas dizem que o Brasil terá que mudar de um estímulo ao consumo para o investimento. Sua empresa vive do consumo. O que acha da mudança?

Artur Grynbaum – Por mais que tenhamos tido excelentes anos de crescimento através do consumo, se isso não é sustentável, é um jogo que não interessa a quem está aqui no longo prazo. Agora, tem que qualificar melhor as ações para que possa haver crescimento sustentável. Não adianta crescer 7% em um ano e zero no outro. É bom manter o passo constante.

Mas o consumo vai moderar? Já sentem isso no seu negócio?

As taxas de crescimento do consumo vão se reduzir. Porque de onde vem o consumo? Boa parte vem de uma inflação baixa e da manutenção do emprego. Quando se olham os dois pontos à frente, não são simples de ser atingidos.

Todo o mundo fala em índice de confiança, mas eu, como varejista, falo em humor do consumidor. São coisas diferentes. Para sair de casa, entrar em uma loja ou tomar um café, é preciso que o consumidor esteja de bom humor. E, neste momento, o humor está prejudicado.

Na economia, não se consegue dizer ainda quais serão os caminhos. Ninguém sabe qual será o tamanho de 2015 –se será melhor do que zero ou 1%. E o que acontece em 2016 e 2017? Tem que plantar as sementes hoje.

O cenário ainda é nebuloso?

Está nebuloso, para o empresário e para o consumidor. E isso faz com que a taxa de crescimento do consumo caia um pouco. A venda continuará crescendo, mas não em ritmo tão acelerado quanto antes. É uma maturidade desse processo.

A saída será cortar preço ou cortar custo?

Vai ter que fazer um pouco de cada um, porque vai ter que mexer no custo para manter a operação saudável. Mas será necessário também fazer ofertas que sejam necessárias para o consumidor. Não adianta adotar uma fórmula burra. É só baixar o preço que o consumidor vem? Se você cortar 30% de tudo, em algum momento o consumidor pode pensar que não foi suficientemente bom para ele.

Por outro lado, o cosmético brasileiro não deixa a desejar em termos de tecnologia, benefícios e performance. Então o consumidor consegue um produto de alto valor agregado por um baixo valor econômico. Não precisa financiar em 24 meses para comprar um cosmético.

Não depender de crédito deixa o setor de cosméticos imune?

Ninguém é imune. Mas isso faz com que tenhamos uma resiliência maior. E isso só se consegue com movimentos anteriores, investimos muito em planejamento, infraestrutura, laboratórios. Você pode perguntar: Vai cortar investimentos?’. Eu já fiz investimentos. Nossa visão é de longo prazo. 2015 vai ser mais duro, mas depois vêm 2016, 2017, 2018.

Os economistas falam que pode haver dois anos de baixo crescimento. O que espera?

Estou preocupado como todo o mundo está. O mundo não é cor de rosa, vão ser momentos difíceis. Mas, para quem viveu as dificuldades do passado… eu já esse filme. Dá dó, estamos dando dois passinhos para trás.

Quem entrou no mercado sobretudo a partir de 2000 viveu momentos bons, os ventos eram favoráveis. E agora estão se perguntando: Por que temos que fazer ajustes?’. Esse é um mundo desconhecido para eles. Mas a gente já fez isso antes.

O que é pior: dólar alto, crescimento baixo ou inflação?

A parte tributária é muito delicada para o setor, ainda mais agora que o consumidor está mais sensível a preço. O baixo crescimento e a inflação também são importantes porque estão relacionados ao custo. A alta do dólar afeta os insumos, mas os importados também ficam mais caros.

Agora, dizer que a gente ganha competitividade só pela moeda [desvalorização do real e dos custos locais]… competitividade não vem por aí. Vem de uma mão de obra mais eficiente, menor custo de componentes, de fornecedores de longo prazo.

Abriram fábrica, criaram marcas e o crescimento murchou. Foi um mau momento?

Estou preparado para os anos futuros. Minha vida não acaba em 2015, nem em 2016. Eu tinha que abrir a fábrica, isso não é algo que você cria do nada. Meu maior investimento é o meu negócio.

Teme uma paralisia em razão da turbulência política e do escândalo da Petrobras?

Vai haver uma paralisia. As pessoas vão ficar com medo de assinar até cartão de aniversário. Tem coisas que me cortam o coração. Outro dia estava no aeroporto Afonso Pena [Curitiba]. As obras estão paradas e não estão beneficiando a população.

Tudo o que a gente passa, tem que vislumbrar algo melhor à frente.

Então, se a economia tiver que sofrer em 2015, que a gente passe por isso para poder colher coisas melhores em 2016 e 2017. Mais crescimento e mais estabilidade.

RAIO-X DO GRUPO BOTICÁRIO

O PRESIDENTE

Artur Grynbaum, 45, nascido em Curitiba (PR) e formado em administração, ingressou na empresa em 1986 e detém 20% do capital do grupo

A EMPRESA

Maior franquia do país, com 3.912 pontos de venda em 1.752 cidades. Tem lojas em outros seis países. Previsão de faturamento em 2014: R$ 9,3 bi, com as marcas O Boticário, Quem Disse, Berenice?, Beauty Box e Eudora

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje