Depois de ter família ameaçada, ex-deputado Luiz Argôlo cogita fazer delação

LUIZ ARGOLO 2

Depois de saber de uma suposta ameaça contra sua família, o ex-deputado federal Luiz Argôlo, preso desde abril na Operação Lava Jato, cogita fazer uma delação premiada com a Justiça.

A defesa do ex-parlamentar baiano já teve uma conversa preliminar com o Ministério Público Federal, na semana passada. Os procuradores demonstraram interesse em ouvi-lo.

Segundo o advogado Sidney Rocha Peixoto, Argôlo tomou a decisão após ouvir o relato do publicitário Aricarlos Nascimento, que trabalhou em suas campanhas na Bahia. Em depoimento à Justiça na semana passada, Nascimento disse que recebeu uma ameaça destinada a Argôlo feita pelo deputado federal Mário Negromonte Júnior (PP-BA).

“Ele me disse que, se o Luiz ficasse pianinho, quietinho e não entregasse ninguém, assim que ele saísse de Curitiba seria ajudado para ter um retorno breve à vida política. Mas, se ele não fizesse, já sabia qual era o destino de delator”, contou o publicitário.

No depoimento, o advogado de Argôlo pediu mais detalhes à testemunha sobre “o destino de delator”, no diálogo com Mário Negromonte Júnior. “[Ele] Disse isso, que delator tinha família, tinha mãe, tinha pai, e depois quando aconteciam as coisas, não sabia por quê”, relatou Nascimento.

Filho do ex-ministro das Cidades, Mário Negromonte Júnior é do mesmo partido ao qual pertencia Argôlo, o PP, até 2013. A sigla é apontada como uma das principais favorecidas pelo esquema de corrupção na Petrobras.

Negromonte Júnior chegou a fazer uma “dobradinha” com o investigado na campanha de 2010 na Bahia –Argôlo saiu como candidato a deputado federal, e Mário, como deputado estadual.

A Folha entrou em contato com Negromonte Júnior e sua assessoria sobre o fato, mas não obteve retorno até as 17h desta terça (11).

O depoimento de Nascimento sobre a ameaça foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, responsável por investigar aqueles com prerrogativa de foro.

RELUTANTE

Segundo Peixoto, o ex-deputado ficou “muito abalado” com a notícia. “Ele levou a sério [a ameaça]. Ficou muito mexido, porque tem dois filhos pequenos, uma esposa”, disse o defensor à Folha.

Argôlo, de acordo com o advogado, está relutante a admitir crimes numa eventual delação, mas diz que pode apontar quem participava do esquema. “Ele não tem o que confessar, mas tem informações do tipo ‘eu não participei, mas sei como funcionava'”, afirma Peixoto.

O ex-deputado é acusado de ter recebido vantagens indevidas do doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema de corrupção na Petrobras.

Segundo o Ministério Público Federal, o doleiro pagou móveis, gado, um helicóptero e até cadeiras de roda para Argôlo. Do outro lado, Argôlo teria agido para favorecer os negócios do doleiro na Bahia, a quem chamava de “amor”.

O ex-parlamentar é réu sob acusação de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro.

Sua defesa nega envolvimento no esquema e diz que o relacionamento do ex-deputado com Youssef era puramente comercial.

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje