Cooptação de adversários: estratégia inteligente ou risco político? – Maurílio Lopes Fontes

A política é um espaço de permanente construção de maiorias. Nesse contexto, a cooptação de adversários para integrar o campo governista costuma ser vista como demonstração de habilidade política.
Em determinadas circunstâncias, ampliar a base de apoio reduz tensões, fortalece a governabilidade e amplia a capacidade de implementar projetos.
Contudo, a incorporação ao situacionismo de adversários nunca é uma operação isenta de riscos. Quem combateu determinado projeto político não abandona, necessariamente, suas convicções ao atravessar a fronteira.
Muitas vezes, muda artificialmente a posição, apenas na retórica de ocasião, mas preserva interesses, vínculos e estratégias que poderão ressurgir em um futuro mais breve do que se espera.
Existe, ainda, um custo interno frequentemente negligenciado. Os aliados que permaneceram leais nos momentos difíceis podem interpretar a ascensão de um antigo opositor como desvalorização da fidelidade.
Quando isso ocorre, a ampliação da base pode produzir, paradoxalmente, desmobilização entre aqueles que sempre sustentaram o projeto político.
A boa estratégia exige equilíbrio. Nem todo adversário incorporado representa uma ameaça, assim como nem toda resistência à cooptação revela maturidade política.
O critério deve ser o interesse público, a convergência em torno de um projeto e a capacidade de construir relações baseadas na confiança.
Na política, alianças são importantes, mas confiança é um ativo ainda mais valioso.
A história demonstra que acordos bem construídos fortalecem governos e também que acordos movidos apenas pela conveniência costumam produzir instabilidade quando surgem as primeiras dificuldades.
O tempo, sempre senhor da razão, mostrará os acertos e erros da cooptação.
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