Belo Monte e o modelo de desenvolvimento – Bruno Lima Rocha

Muito já se escreveu sobre os conflitos em torno da Usina de Belo Monte. Pessoalmente, considero esta obra no Pará, assim como Jirau, em Rondônia, como a síntese do modelo de desenvolvimento aplicado neste país nos últimos dez anos.

Para cumprir a meta de melhorar a infra-estrutura e oferta de energia, se privatizam portos, aeroportos, rodovias e campos de petróleo. Em paralelo, o Estado financia toda obra considerada estratégica.

É preciso reconhecer que qualquer desenvolvimento é melhor do que nenhum, e neste sentido, a última década proporcionou uma melhoria de vida para os brasileiros – em termos materiais – infinitamente superior ao período áureo do neoliberalismo e do alinhamento automático com o Consenso de Washington. Por outro lado, estamos mais próximos do modelo chinês do que nunca.

Belo Monte é comparável a Três Gargantas, a maior hidrelétrica do planeta, construída a partir da gigantesca barragem no Rio Yang-Tsé, cujo delta concentra 20% do PIB da economia que mais cresce no planeta. A diferença entre as obras foi o nível de resistência externado. As gargantas do Rio Yang-Tsé são comparáveis com a Volta Grande do Rio Xingu, cujo desvio é o cerne da mudança de padrão de vida de povos ribeirinhos e originários.

Como a república de Deng Xiaoping coaduna capitalismo selvagem com ditadura de partido único terceirizada para os dirigentes provinciais, lá a contestação é mais difícil. Já no Brasil atual, o governo pós-reformista admite toda a gritaria possível, desde que não altere nada de seus planos originais.

Munidos de razão de Estado, antes Lula e agora Dilma, utilizam do arsenal de financiamento direto – via BNDES – e indireto – através de fundos de pensões onde o Poder Executivo tem hegemonia na influência dos votos de conselhos administrativos, para jorrar o caixa deste empreendimento e similares.

A obra cujo lago vai represar parte significativa do Rio Xingu terá um custo total estimado de R$ 29 bilhões (cerca da metade da usina chinesa já citada), sendo que o empenho até a inauguração em dezembro de 2014 será de R$ 20 bi. Ou seja, vale o bordão de que quando o tema é considerado estratégico, os recursos aparecem, ou para esta função são destinados.

Infelizmente não se trata de novidade. A lógica do desenvolvimento das forças e capacidades produtivas nunca levou em conta as vontades específicas das coletividades humanas. Para o modelo aqui implantado, os povos da floresta são considerados – no máximo – como sendo parte do dano colateral.

 

Bruno Lima Rocha é cientista político e professor de relações internacionais.
(www.estrategiaeanalise.com.br / blimarocha@gmail.com)

 

 

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje