A revolta da cidade – Marcos Augusto Gonçalves

Embora não se possa descartar que fatores políticos e econômicos tradicionais, como o aumento da inflação e o desgaste dos governos, tenham atuado na eclosão das manifestações, o berço dos protestos é o mal-estar na cidade. É sobretudo no processo selvagem e precário da urbanização brasileira que se deve buscar a origem da insatisfação difusa que tomou as ruas.

A cidade é o palco onde a vida transcorre e as contradições se materializam. É no trânsito bloqueado e na viagem diária de quatro horas de busão para ir e voltar do trabalho que a ineficiência do Estado deixa de ser um tema abstrato –ou um slogan de empresários– para apresentar-se em sua cruel concretude no cotidiano das pessoas.

E o mesmo vale para o mau atendimento nos hospitais e postos de saúde; para a escola que não ensina; para a favela que não se saneia; e para o faroeste estúpido da insegurança pública.

São situações que de maneira diferente afetam a todos, inclusive os felizes beneficiados pela ascensão social dos anos Lula. Neguinho já comprou TV de plasma e smartphone, mas a vida de neguinho não é só isso. Neguinho quer mais.

Na procura por alternativas, a lógica e as mediações tradicionais nos levariam rumo à estação da política institucional –cujo ponto final é o terminal Brasília.

Não creio, porém, que as demandas das ruas possam ser absorvidas ou equacionadas por uma pauta política de tipo federal. A resposta não é reforma política ou tributária. É preciso encurtar as mediações e buscar arranjos locais para encontrar soluções factíveis para os problemas reais –mesmo que em nenhuma hipótese elas venham da noite para o dia.

Não, não estou aderindo à perspectiva autonomista radical do Movimento Passe Livre, ao repúdio à democracia representativa em nome de uma utopia coletivista “horizontal”. O que estou dizendo é que parece possível encontrar novas formas de articulação local para decidir sobre os problemas das cidades –e depois encaminhar as demandas, se for o caso, às esferas que se mostrarem necessárias.

Esses arranjos não partidários por certo se politizariam no debate das questões específicas, mas deveriam evitar de antemão a surrada disputa do tipo “petralhas x demotucanos” –que, aliás, tomou uma merecida surra da massa.

No transporte, por exemplo, decisões relativas à expansão do metrô, à modernização dos trens ou aos corredores de ônibus, que dependem de investimentos do Estado e da prefeitura, precisam ser tomadas de modo coordenado, com debate e participação direta dos cidadãos.

Vai nessa direção um documento da organização Rede Nossa São Paulo, que sugere a criação de um conselho municipal para consolidar as propostas em debate com vistas à formulação de um plano de mobilidade urbana na capital. A ideia é que as opções sejam apresentadas e o modelo final definido por referendo.

É uma iniciativa que ampliaria a participação direta em tema crucial para o cotidiano da cidade, evitando que a decisão final ficasse nas mãos (ou nos bolsos) de parlamentares capturados pelo lobby das empre$as –uma das razões evidentes do desprestígio das instâncias representativas nos protestos. Claro que caminho análogo poderia ser seguido em outras áreas.

Enfim: imaginação no poder, reconfiguração da cidade, mais ação e menos blá-blá-blá.

marcos augusto gonçalvesMarcos Augusto Gonçalves, 55, é editorialista e repórter da Folha. Escreveu o livro “1922 – A Semana Que Não Terminou” (Companhia das Letras).

 Fonte: Folha de São Paulo

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje