A Europa morreu? – Carlos Fino

Essa é, pelo menos, a convicção do ex-primeiro-ministro francês Michel Rocard. Profundamente desapontado com o atual rumo da União Europeia (UE), o velho líder socialista, desde sempre partidário de uma solução federal para o velho continente, desabafou há dias em entrevista à CNN: “L’Europe est morte!”.

O desânimo de Rocard ecoa o de milhões de outros europeus ao cabo de seis anos de duras políticas de austeridade e estagnação económica impostas por uma maioria de governos de índole neoliberal, que deixaram um pouco por todo o lado um lastro de pesadas consequências sociais: desemprego em massa, em particular entre os jovens, acelerado empobrecimento das classes médias e aumento das desigualdades.

Pior do que isso – perdeu-se o sentido de solidariedade e esperança e aumentou o fosso entre as populações e as organizações comunitárias sediadas em Bruxelas, percepcionadas como um conjunto de burocratas privilegiados, comissários não eleitos designados pelos respectivos governos, tecnocratas em geral indiferentes aos anseios das populações, mas sempre prontos a satisfazer as exigências da alta finança e das grandes corporações.

Por outro lado, a entrada na UE dos países do leste europeu, todos eles favoráveis a uma aliança mais estreita com os Estados Unidos, também fez pender a balança para o Atlântico Norte, desvanecendo a esperança, alimentada durante muitos anos pela França, de a Europa se afirmar com uma política externa mais independente.

A revelação de que Bruxelas teria negociado com Washington um acordo de livre comércio em que se derrogam uma série de normas ecológicas e sanitárias vigentes na Europa em favor das pretensões das multinacionais só veio agravar ainda mais a sensação de mal-estar.

O descontentamento leva as pessoas a desinteressarem-se do processo de construção europeia, ora abstendo-se em números recorde de votar nas eleições para o Parlamento Europeu, ora apoiando cada vez mais, em cada país, as forças nacionalistas que, à esquerda e à direita, questionam a integração e a moeda única.

Enquanto, há menos de uma década, a questão que se colocava era a de um novo avanço no sentido de uma maior unidade política, hoje, quando muito, aquilo a que os europeístas e federalistas como Rocard podem aspirar é manter o que já foi adquirido. E mesmo isso não é líquido que seja conseguido.

Uma situação tanto mais preocupante quanto é certo que a superação da crise exigiria, nalgumas áreas (banca, fiscalidade) não menos, mas mais Europa.

Mais de meio século depois de ter corporizado com sucesso o único grande projeto de paz, desenvolvimento e democracia do século XX, estará a ideia de união europeia em perigo?

Anunciar a morte da Europa ainda é, certamente, prematuro. Muitos dos seus avanços anteriores fizeram-se aliás em clima de crise.

Mas aquilo que se vive hoje é mais grave porque não é apenas resultado do compreensível choque de interesses nacionais sobre esta ou aquela questão. É um clima geral de descrença resultante de uma continuada degradação da situação económica, a que os atuais líderes não foram até agora capazes de responder com sentido de esperança e futuro.

A resposta acentuadamente tecnocrática à crise tem levado, como dizia há dias o Papa Francisco, a uma crescente desumanização, que desfigura o rosto da Europa, cansada e esquecida das suas raízes.

“A Europa – afirmou o Sumo Pontífice – está cansada. Temos de a ajudar a rejuvenescer, a encontrar as suas raízes. Renegou as suas raízes; temos de a ajudar a reencontrá-las.”

Carlos Fino é um jornalista internacional português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, tendo coberto diversos conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. Costuma ser lembrado como “aquele repórter do furo mundial”, por ter sido o primeiro a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na última Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012), onde atualmente reside.

 

Fonte: Blog do Noblat

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje