A espetacularização da morte dos políticos – *Maurílio Lopes Fontes

A espetacularização da morte de políticos, no Brasil, está registrada na história, com as guardadas proporções inerentes às épocas dos acontecimentos. No decorrer do velório e enterro de Getúlio Vargas, em 1954, jornais cariocas foram atacados por fazerem cerrada oposição ao líder carismático e serem responsabilizados por seu suicídio.

A morte inesperada do ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, em 1976, por uma série de circunstâncias – cassação, exílio e perda completa dos direitos políticos por dez anos – também causou comoção pública. JK, o construtor de Brasília, seria o mais forte candidato à presidência da República em 1965, mas a longa noite ditatorial retirou-lhe esta possibilidade.

Não se pode dizer o mesmo sobre as mortes dos ditadores de 1964. Felizmente, para o registro histórico, suas mortes mereceram pouca atenção da população brasileira.

Na Bahia, em 1950 (11 de Setembro), o engenheiro alagoinhense Lauro Farani Pedreira de Freitas, candidato ao governo da Bahia pelo PSD, morre em acidente aéreo no exercício de mandato de deputado federal e quase no final da campanha eleitoral que o levaria ao comando do estado (era o grande favorito).

Seu substituto, o deputado federal conquistense Régis Pacheco em menos de três semanas ganha a eleição e governa a Bahia entre 7 de Abril de 1951 e 7 de Abril de 1954, sendo sucedido por Antônio Balbino de Carvalho Filho, também do PSD.

A morte e o enterro de ACM, em 2007, também se inserem neste contexto de espetacularização da trajetória dos políticos. 

Marcos de Barros Freire, ex-prefeito de Olinda e ex-senador por Pernambuco (se elegeu em 1974 pelo MDB), na década de 80, mais precisamente em 1987, morreu em um trágico acidente aéreo no Pará, mas a comoção nacional foi muito menor do que agora, por questões objetivas da política, mas também pelo mundo de hoje estar interligado 24 horas, em que cada portador de celular se transformou em repórter de si mesmo, registrando para a rede situações inusitadas e até mesmo inaceitáveis, a exemplo dos selfies do velório de Eduardo Campos, que demonstraram um completo desrespeito ao momento de consternação familiar.

Políticos em campanha, que gostam tanto de flashes, também tentaram tirar uma lasquinha do velório e enterro, mesmo que não tivessem proximidade com o morto. No caso da Bahia, caravanas de políticos se deslocaram até Recife para apresentar condolências à viúva. Os fotógrafos das campanhas e das assessorias estavam de prontidão para registrar o encontro dos políticos com “Dona Renata” e a proximidade com o caixão de Eduardo Campos.

Nada mais fake. Luto é algo interior e não pode (não deveria) ser falsificado.

A lista de políticos que estiveram presentes é quase incontável, tal o interesse de faturar com a midiatização da morte do presidente nacional do PSB. Em pouco tempo, após o final da eleição, Eduardo Campos será mais um, que morrendo em acidente aéreo, entrará para história mais pela trágica morte do que pela performance (naturalmente superestimada), que embora longa, estava circunscrita a um estado nordestino sem muita expressão no cenário político nacional.

*Editor do Alagoinhas Hoje

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje