O domínio do espaço e do tempo – Maurílio Lopes Fontes


Na política, não basta saber o que fazer. É preciso saber onde e quando fazer. Governar exige domínio do espaço e do tempo. O espaço, nesse caso, não é apenas geográfico.

É evidente que quem administra uma cidade precisa conhecê-la. Precisa saber onde estão suas maiores carências, quais bairros cresceram, onde a infraestrutura não acompanhou a expansão urbana, onde estão os principais equipamentos públicos e quais regiões concentram determinadas demandas.

Mas existe também um espaço político. Nele estão as forças que sustentam ou contestam um governo, as instituições, os partidos, a Câmara Municipal, as lideranças comunitárias, os movimentos sociais, os setores econômicos e os diferentes grupos que participam da vida da cidade.

Governar exige saber movimentar-se nesse espaço.

Significa compreender onde existem convergências possíveis, onde estão as resistências, quais conflitos precisam ser enfrentados e quais podem ser administrados.

Há ainda o espaço simbólico, talvez menos perceptível, mas igualmente importante. É nele que se formam as percepções sobre um governo.

Uma administração pode realizar muito em determinada área e, ainda assim, não conseguir transformar suas realizações em reconhecimento social.

Pode também concentrar esforços em questões que considera prioritárias enquanto parte significativa da população espera respostas para problemas completamente diferentes.

Nesse momento surge a outra dimensão fundamental do exercício do poder: o tempo.

Toda decisão política possui um tempo. Há decisões que precisam ser tomadas imediatamente. Outras exigem amadurecimento. Algumas produzem efeitos rápidos. Muitas necessitam de meses ou anos para apresentar resultados.

A própria administração pública impõe seus ritmos. Projetos precisam ser elaborados, recursos precisam ser assegurados, licitações realizadas, contratos executados e políticas públicas acompanhadas.

Por isso, quem governa precisa compreender que quatro anos não representam simplesmente 48 meses disponíveis para realizar um programa de governo.

O tempo administrativo e o tempo político não caminham necessariamente na mesma velocidade.

Uma obra iniciada tarde pode estar administrativamente correta, mas politicamente atrasada.

Uma política pública importante pode necessitar de tempo suficiente para produzir resultados perceptíveis.

Uma decisão adiada durante meses pode chegar quando já perdeu parte de sua capacidade de responder às expectativas da sociedade.

Planejamento, portanto, não significa apenas definir o que será feito. Significa estabelecer prioridades e compreender o tempo necessário para transformar decisões em resultados.

É por isso que a gestão municipal trabalha necessariamente com horizontes de curto, médio e longo prazo.

Mas existe algo ainda mais difícil: perceber o momento político. Há oportunidades que permanecem abertas durante pouco tempo.

Um governo pode possuir, no início do mandato, capital político, confiança social, maioria parlamentar e disposição dos aliados para colaborar.

Essas condições não são permanentes. O poder modifica relações. O tempo também.

Aliados podem se afastar. Adversários podem se reorganizar. Problemas aparentemente pequenos podem crescer. Expectativas podem transformar-se em frustração.

Uma sociedade inicialmente disposta a esperar pode tornar-se impaciente.

Por isso, determinadas decisões tomadas no primeiro ano talvez já não possam ser tomadas com a mesma facilidade no terceiro.

É nesse ponto que espaço e tempo se encontram.

O governante precisa saber onde estão suas possibilidades de ação e por quanto tempo elas permanecerão disponíveis.

Precisa perceber não apenas o território que administra, mas o ambiente político no qual suas decisões serão tomadas.

E precisa compreender que uma ação correta realizada no momento errado pode produzir resultado muito diferente daquele que produziria se tivesse ocorrido no momento adequado.

Na política, oportunidade também é recurso. E, diferentemente do dinheiro, uma oportunidade perdida nem sempre pode ser recuperada.

Talvez por isso governar seja muito mais do que administrar recursos, executar obras ou prestar serviços. Governar exige leitura permanente da realidade.

É preciso compreender o território, interpretar a sociedade, conhecer as forças políticas, estabelecer prioridades e perceber o ritmo das mudanças.

Quem governa precisa, em alguma medida, tornar-se um mestre do espaço e do tempo.

Porque não basta chegar ao lugar certo.

Na política, é preciso chegar também na hora certa.

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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