Judélio Carmo e a Alagoinhas do futuro – Maurílio Lopes Fontes

Há políticos que administram o presente. Outros conseguem enxergar o futuro. Judélio de Souza Carmo pertencia ao segundo grupo.
Muito antes de chegar à Prefeitura de Alagoinhas, já demonstrava uma característica que marcaria sua trajetória no jornalismo e na política: a capacidade de olhar para a cidade não apenas pelo que ela era, mas principalmente pelo que poderia se tornar.
Em 27 de julho de 1968, aos 23 anos, Judélio publicou na revista O Cruzeiro, uma das mais importantes publicações brasileiras da época, uma reportagem cujo título parece resumir sua maneira de pensar Alagoinhas: “O futuro tem encontro marcado em Alagoinhas.” Não era apenas um bom título jornalístico. Era uma declaração de confiança nas potencialidades da cidade.
Na reportagem, Judélio apresentou ao Brasil indicadores econômicos e sociais de Alagoinhas, destacou sua produção industrial, a atividade petrolífera, a estrutura bancária e outras características de um município que, em sua percepção, reunia condições para ocupar uma posição econômica cada vez mais importante.
O mais significativo, entretanto, não estava apenas nos números. Estava no olhar.
Judélio procurava identificar possibilidades onde muitos enxergavam apenas a realidade existente. Essa talvez seja uma das características fundamentais de quem pensa estrategicamente uma cidade. O futuro não surge espontaneamente.
Ele precisa ser imaginado, planejado e construído.
Quando chegou à Prefeitura, poucos anos depois, Judélio teve a oportunidade de transformar parte daquela visão em ação política.
No primeiro mandato, entre 1973 e 1976, sua administração esteve diretamente relacionada à criação do Distrito Industrial de Sauípe, o DISAI, e à instalação de empresas como BRESPEL e CAVAN. Também foram iniciados estudos relacionados ao potencial cerâmico de Alagoinhas.
Era uma concepção de desenvolvimento que procurava preparar a cidade para além das necessidades imediatas. E nisso reside uma diferença importante entre simplesmente governar e possuir visão de futuro.
Todo prefeito precisa enfrentar os problemas cotidianos. Precisa cuidar da saúde, da educação, da limpeza urbana, da infraestrutura, do transporte e de inúmeros serviços indispensáveis ao funcionamento da cidade.
Mas administrar o cotidiano não basta para transformar estruturalmente um município. É necessário perguntar o que a cidade será daqui a dez, 20 ou 30 anos.
Quais atividades econômicas sustentarão seu desenvolvimento? Onde estarão os empregos? Que posição ocupará regionalmente? Quais transformações precisam começar hoje para produzir resultados amanhã?
Judélio fazia essas perguntas. Sua trajetória política não precisa ser idealizada para que essa característica seja reconhecida.
Governos devem ser examinados criticamente, com seus acertos, erros, limitações e contradições. O próprio Judélio governou em circunstâncias políticas, econômicas e institucionais muito diferentes das atuais.
Mas algumas características atravessam o tempo. Uma delas é a capacidade de antecipação.
O jornalista que, aos 23 anos, escreveu que o futuro tinha encontro marcado em Alagoinhas demonstrava compreender algo essencial: uma cidade não pode permanecer prisioneira das circunstâncias do presente.
Depois, como prefeito por dois mandatos – 1973-1976 e 1983-1988 -, teve a oportunidade de participar diretamente da construção dessa cidade que imaginara ainda muito jovem.
É por isso que revisitar Judélio Carmo não deve ser apenas um exercício de memória. Deve provocar uma reflexão sobre Alagoinhas.
Cada geração recebe uma cidade construída pelas gerações anteriores e, ao mesmo tempo, assume responsabilidade pela cidade que entregará às seguintes.
Estradas, distritos industriais, empresas, escolas, infraestrutura urbana e instituições que hoje parecem simplesmente fazer parte da paisagem tiveram, em algum momento, alguém que imaginou sua existência antes que fossem realidade.
É assim que o futuro começa. Primeiro como possibilidade. Depois como decisão. Finalmente como realização.
Mais de meio século depois daquela reportagem publicada em O Cruzeiro, a pergunta de Judélio permanece atual, embora possa ser formulada de outra maneira: qual é a Alagoinhas que estamos construindo para os próximos vinte anos?
Responder a essa pergunta talvez seja uma das melhores formas de compreender a dimensão do legado de um homem que fez da política e do jornalismo instrumentos para pensar uma cidade que ainda não existia.
Judélio Carmo não esperava o futuro chegar. Tentava construí-lo.

