Quem escolhe as palavras escolhe o campo da disputa – Maurílio Lopes Fontes

Na política, as palavras nunca são apenas palavras. Elas carregam sentidos, despertam associações, acionam valores e, muitas vezes, determinam o terreno no qual uma discussão será travada.
O linguista norte-americano George Lakoff mostrou isso de maneira particularmente provocativa no livro “Não pense em um elefante”, publicado em 2004. Sua reflexão sobre os chamados enquadramentos – ou frames – tornou-se uma referência para compreender a relação entre linguagem e disputa política.
O título contém a própria demonstração da tese. Quando alguém diz “não pense em um elefante”, o resultado é quase inevitável: pensamos no elefante. Para compreender a ordem de não pensar nele, precisamos primeiro trazê-lo à mente. Na política acontece algo semelhante.
Quem consegue estabelecer as palavras e os conceitos pelos quais determinado acontecimento será interpretado conquista uma vantagem importante: obriga adversários, muitas vezes sem que percebam, a discutir dentro de um campo que não escolheram.
É por isso que as disputas políticas não acontecem apenas em torno dos fatos. Acontecem também em torno do significado atribuído a eles.
E observar a política de Alagoinhas por essa perspectiva pode ser um exercício interessante. O que significa “mudança” na política local? O que significa “continuidade”? O que significa “renovação”? E palavras como “experiência”, “grupo”, “independência”, “rompimento”, “aliança” ou “legado”?
Nenhuma delas possui politicamente um único significado. Continuidade pode significar estabilidade para uns e permanência de um grupo no poder para outros.
Mudança pode representar esperança, mas também pode ser apresentada como risco. Experiência pode ser competência acumulada ou símbolo de uma política que precisa ser renovada.
Uma aliança pode ser descrita como demonstração de capacidade de diálogo ou simplesmente como acordo de conveniência. O fato pode ser exatamente o mesmo. O sentido político atribuído a ele, não.
É justamente nesse espaço que começa uma das disputas mais importantes da política.
Alagoinhas oferece um campo particularmente interessante para observá-la porque as forças políticas da cidade caminham para um período em que precisarão não apenas apresentar candidatos, alianças e projetos, mas também construir interpretações sobre aquilo que aconteceu, está acontecendo e deverá acontecer.
Cada grupo tentará contar essa história a partir de seu próprio ponto de vista. E não será suficiente possuir uma narrativa. Será necessário fazer com que ela seja aceita.
Quem governa procurará estabelecer determinados significados para suas realizações, dificuldades e escolhas. Quem faz oposição tentará atribuir outros significados aos mesmos acontecimentos.
Lideranças que se aproximam precisarão explicar por que estão juntas. As que se afastam terão de explicar por que se separaram.
Quem permanecer onde está precisará transformar permanência em coerência. Quem mudar de posição tentará transformar mudança em decisão legítima diante de novas circunstâncias.
Em todos esses casos existe algo anterior ao julgamento político propriamente dito. Existe uma disputa para definir como o acontecimento deverá ser chamado e compreendido.
É aí que a reflexão de Lakoff se torna especialmente útil. Um dos maiores erros que um ator político pode cometer é permitir que o adversário estabeleça o enquadramento e depois passar todo o tempo tentando negá-lo. Ao fazer isso, pode acabar fortalecendo justamente a interpretação que pretende combater.
Se alguém consegue transformar determinado acontecimento em símbolo de “fracasso”, por exemplo, responder repetidamente que “não houve fracasso” mantém a palavra fracasso no centro da discussão.
O debate continua acontecendo no território escolhido pelo adversário. A alternativa não é fugir dos fatos. Muito menos inventar uma realidade paralela. É apresentar uma interpretação própria capaz de disputar o significado daqueles fatos. Esse ponto é fundamental porque enquadramento não é sinônimo de mentira. Narrativas políticas não possuem capacidade ilimitada de substituir a realidade.
Uma rua esburacada continuará esburacada independentemente do nome utilizado para descrevê-la. Uma obra realizada continuará existindo ainda que alguém tente negar sua importância.
Mas entre o acontecimento e a percepção política do acontecimento existe uma disputa pela interpretação. É nela que a linguagem exerce seu poder.
Essa disputa deverá ganhar importância crescente em Alagoinhas à medida que o processo político avance. As forças locais precisarão disputar não apenas apoios, alianças e votos. Precisarão disputar palavras. E algumas delas serão particularmente valiosas porque poderão organizar a maneira pela qual parcelas do eleitorado interpretarão o cenário político.
Quem representa o novo? Quem representa continuidade? Quem possui legado? Quem encarna mudança? Quem demonstra força? Quem está isolado? Quem cresceu? Quem perdeu espaço? Quem tem futuro?
Essas perguntas não serão respondidas apenas pelos números, mas pela capacidade dos diferentes atores de atribuir significado aos números, aos acontecimentos e às próprias movimentações políticas.
Há, portanto, uma batalha que antecede as urnas. É a batalha pela definição da realidade política. Não significa que quem dominar as palavras necessariamente vencerá uma eleição. A política é muito mais complexa do que isso.
Existem governos, candidatos, estruturas, circunstâncias econômicas, alianças, rejeições, acontecimentos imprevistos e, sobretudo, eleitores capazes de produzir suas próprias avaliações.
Mas existe uma lição que merece atenção. Antes de disputar a resposta, muitas vezes é preciso disputar a pergunta.
Antes de defender uma interpretação, é preciso perceber quem definiu os termos pelos quais os acontecimentos estão sendo interpretados.
E antes de tentar convencer alguém de alguma coisa, talvez seja necessário descobrir dentro de qual enquadramento essa pessoa já está pensando.
Na política de Alagoinhas, portanto, a próxima disputa não acontecerá somente quando a campanha começar oficialmente amanhã (16 de agosto). Ela, na verdade, já está acontecendo.
Porque, muito antes de escolher em quem votar, as pessoas começam a construir uma interpretação sobre aquilo que está diante delas.
E quem conseguir influenciar as palavras pelas quais essa realidade será compreendida terá dado um passo importante para influenciar também o sentido político que ela adquirirá.
Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha/Itália)
Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA)
Especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL)
Especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)
Especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL)
MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília)
Formação em Governança e Inovação Pública -FGV/RJ – e Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe – CAF)
Imagem elaborada por IA

