Percepção: o “território” onde se constrói – ou se perde – o poder municipal – Maurílio Lopes Fontes

A percepção coletiva não nasce dos fatos. Ela nasce da forma como os fatos são compreendidos, narrados e incorporados pela sociedade.

Esse é o primeiro erro de muitos gestores municipais: acreditar que a realidade administrativa se impõe por si só. Não se impõe. A realidade precisa ser interpretada – e, quando essa interpretação não é conduzida, ela é apropriada.

No ambiente municipal, essa dinâmica se torna ainda mais sensível. É no município que a política deixa de ser abstrata e passa a ser vivida. O cidadão não avalia conceitos, ele avalia experiências. Não julga relatórios, julga aquilo que sente no cotidiano.

E o cotidiano não é organizado a partir de dados técnicos, mas de impressões acumuladas.

É nesse ponto que a gestão pública encontra seu maior desafio: transformar ação em compreensão. Não basta realizar. É preciso garantir que aquilo que foi realizado seja entendido como relevante, coerente e direcionado.

Sem isso, instala-se um vazio.

E o vazio, na política, nunca é estático.

Ele é ocupado por versões, leituras fragmentadas e, muitas vezes, por interpretações tendenciosas ou mesmo instrumentalizadas com objetivo de confundir a opinião pública.

A construção da imagem positiva de um gestor começa, portanto, antes da comunicação.

Começa na definição clara de propósito. Gestões que não sabem explicar, com precisão, o que estão fazendo e por que estão fazendo criam um ambiente propício à distorção.

Não se trata de comunicar mais. Trata-se de comunicar melhor – e, sobretudo, de estruturar a ação de modo que ela seja compreensível.

Outro elemento decisivo é a coerência percebida.

Não basta haver alinhamento interno. É necessário que esse alinhamento seja visível. Pequenas inconsistências, quando não explicadas, ganham dimensão desproporcional e comprometem a confiança.

Na política, a percepção pública não se estrutura pelo conjunto dos fatos, mas por sinais concretos – acontecimentos, imagens e experiências cotidianas – que orientam o julgamento social.

Um único sinal negativo pode se sobrepor a múltiplos acertos silenciosos.

Por isso, a antecipação se torna estratégica.

Cada decisão relevante deve ser pensada não apenas pelo seu impacto administrativo e político, mas também pelos desdobramentos  interpretativos. Como isso será lido? Que tipo de narrativa pode emergir? Quem pode (e de que forma) se apropriar desse fato?

Ignorar essas perguntas é abrir mão de disputar o significado da própria gestão.

Há um fator frequentemente negligenciado: a expectativa. A população não avalia apenas o que recebe, mas o que esperava receber. Quando essa distância se impõe, o resultado é previsível: frustração. Na política, a frustração pesa mais do que qualquer indicador técnico.

Gerir expectativas é, portanto, parte da própria governança.

Nesse cenário, a presença do gestor assume um papel central. Não se trata de exposição permanente, mas de ocupação estratégica dos espaços onde a percepção se forma. A ausência prolongada não gera neutralidade. Gera substituição.

Outros passam a falar, interpretar e definir.

E, quando isso acontece, o gestor já não constrói sua imagem – ele tenta corrigir uma imagem construída por terceiros.

A consistência, por sua vez, é o que transforma percepção em convicção.

Não são ações isoladas que consolidam uma imagem positiva, mas a repetição coerente de sinais ao longo do tempo. É essa repetição que cria estabilidade interpretativa.

Sem consistência, não há memória política.

No fundo, estar à frente da gestão pública municipal exige uma compreensão ampla do próprio ato de governar.

Não basta administrar recursos e executar políticas. É necessário disputar sentidos e atuar na construção do quebra-cabeça da percepção coletiva.

Porque, ao final, não é o governo formal que prevalece, mas aquele que se impõe à percepção coletiva.

E é nesse território – silencioso, dinâmico e permanentemente disputado — que se decide, de forma definitiva, o destino dos gestores municipais.

Maurílio Lopes Fontes é bacharel em Marketing, especialista em Marketing Político, Mídia, Comportamento Eleitoral e Opinião Pública (UCSAL), especialista em Assessoria Política e Governo (UCSAL), MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político (IDP/Brasília), especialista em Estratégia e Liderança Política (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP),  especialista em Gestão da Cultura Organizacional (Fundação Armando Alvares Penteado – FAAP), Formação em Governança e Inovação Pública (FGV/RJ), Diplomado em Gestão de Governo e Liderança Política (George Washington University – EUA) e Mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha)

 

Imagem gerada por IA

Maurílio Fontes

Proprietário, jornalista, diretor e responsável pelo Portal Alagoinhas Hoje

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